2 OS CONCEITOS INSTRUMENTAIS AFETOS À DISCUSSÃO DO
2.3 A distanásia e o prolongamento da vida (in)digna
Em sentido contrário aos dois conceitos tratados acima, tem-se a noção de distanásia54, na qual objetiva-se um prolongamento da agonia, sofrimento e adiamento da morte. Para Barroso e Martel (2010), a distanásia é a tentativa de retardar a morte o máximo
52 Sobre uma abordagem diferente da noção da ortotanásia, cita-se a definição de Yamaguchi (2005, p. 1), que a
compreende da seguinte forma: “É cuidar dos sintomas sem recorrer a medidas intervencionistas de suporte em quadros irreversíveis. É respeitar o descanso merecido do corpo, o momento da limpeza da caixa preta de mágoas e rancores; é a hora de dizer coisas boas, os agradecimentos que não fizemos antes. É a hora da despedida e da partida”.
53 Essa situação distingue-se, assim, do caso que ficou mundialmente conhecido da americana Terri Schiavo, no
qual a suspensão da hidratação e da nutrição tinha o efetivo objetivo de ocasionar seu falecimento que, em razão da doença de base, não proporcionaria sua morte. Sobre mais informações sobre esse caso, permita-se remeter a Martel (2010) e Möller (2007).
54 Schramm e Batista (2005) explicam que etimologicamente a palavra distanásia reflete a noção de dupla morte
(na origem grega, que morre duas vezes; no latim, dis contém a idéia de separação e negação). Essa expressão teria sido proposta inicialmente por Morache, em 1904.
possível, utilizando para tal fim de todos os meios médicos disponíveis, ordinários e extraordinários, sejam eles proporcionais ou não, mesmo que tais tratamentos causem mais dores e sofrimento a um paciente cuja morte é iminente e inevitável55.
Para Pessini (2001), a distanásia é a conduta pela qual não se estende a vida propriamente dita, mas tão somente o processo de morrer56. Sendo assim, em tal prática existe “um aprofundamento das características que tornam, de fato, a morte uma espécie de hipermorte”. (SCHRAMM; BATISTA, 2005, p. 114)
Conforme já afirmado neste estudo, existe hodiernamente uma tendência à utilização desproporcional da tecnologia nos procedimentos e terapias médicos, ações que são denominadas na seara da saúde como obstinação terapêutica57, mesmo em casos relacionados ao final da vida, conforme as hipóteses objeto de análise no momento. Tal prática não tem sido fruto tão somente da evolução das técnicas médicas, mas, sobretudo, da forma como se enfrenta o tema: morte. É sabido que a maioria das pessoas tem uma postura frente à morte de temor, de dificuldade de admitir ou de repudiar a finitude da vida humana.
Através de uma pesquisa feita com adultos jovens (20 a 30 anos), Zilberman (2002) analisou a noção de morte no processo de individuação. Por meio deste estudo, ele inferiu que há negação ou temor sobre o assunto nos adultos jovens que se sentiam mais ligados ou dependentes de sua família. Ultrapassada a idade adulta, o indivíduo se confronta com a terceira idade, fase do ciclo vital na qual há um número maior de perdas, o que contribui para que o idoso reflita mais acerca da sua finitude (KOVÁCS, 2005). Entretanto, tal condição não significa que a temam menos do que indivíduos de outras faixas etárias
55 Barroso e Martel (2010) destacam que para alguns autores, a obstinação terapêutica e o tratamento fútil estão
compreendidos na noção de distanásia. Sendo que a primeira noção estaria ligada ao comportamento médico de combater a morte de todos os modos, como se fosse possível curá-la, em uma luta desenfreada e
(ir)racional, olvidando-se o sofrimento e os custos humanos causados por tais tratamentos inócuos. Já o tratamento fútil é o emprego de técnicas e métodos extraordinários e desproporcionais de tratamento, incapazes de promover a melhora ou a cura do paciente, mas que sejam capazes de prolongar a vida, mesmo que agravando seu padecimento, de tal modo que os benefícios previsíveis são muito inferiores aos danos causados. Pessini e Barchifontaine (2002), que compreendem as noções de obstinação ou de futilidade terapêutica no âmbito da distanásia, informam que o termo tratamento fútil (ou futilidade terapêutica) tem sua origem no inglês medical futility e é mais utilizado nos países anglo – saxônicos, principalmente nos Estados Unidos da América. Enquanto que a expressão obstinação terapêutica é a terminologia empregada pelos países europeus e se origina do francês l’acharnement thérapeutique (também compreendido com encarniçamento terapêutico),
termo surgido na década de 1950.
56 Em entrevista concedida ao Jornal O Estado de São Paulo em 11.11.2006, o médico José Maria da Costa
Orlando, que já foi o presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira – AMIB, que congrega os médicos de UTIs, afirma que: “Imagine um paciente com câncer generalizado e que começou a desenvolver falência múltipla de órgãos. Com respirador e diálise, por exemplo, conseguiremos mantê-lo vivo por dias. Mas de forma alguma conseguiremos reverter o quadro clínico. Portanto, isso não significa prolongar a vida. É prolongar a morte”.
57 Pessini (2003, p. 389) afirma que : “Na luta pela vida, em circunstâncias de morte iminente e inevitável, a
utilização de todo um arsenal tecnológico disponível sem critérios éticos traduz-se em obstinação terapêutica que facilmente nega a dimensão da finitude e da mortalidade humanas”.
(ROSENBERG, 1992). Segundo tais constatações, observa-se que a possibilidade iminente de morte que segue indivíduos nesta etapa do ciclo vital pode, em certas situações, originar angústia58.
É possível perceber, ainda, que o anseio geralmente expresso pelos pacientes em condição grave de saúde e de morte iminente, - que não possuem chance de cura e de reversibilidade do quadro clínico -, é de adiar o momento da morte pelo maior tempo possível junta-se à formação dos profissionais da área médica, que podem ser incitados em excesso a perseguir a cura e a luta contra a morte a qualquer custo59. Nesses casos, a prática da obstinação terapêutica ocasiona tão somente um prolongamento do processo de morrer, geralmente, proporcionando mais sofrimento e dores ao paciente que já se encontra no fim da vida.
A utilização inadequada e excessiva das tecnologias utilizadas nas terapias médicas de pacientes em situação de fim de vida, ocasionando o prolongamento artificial de um final de vida marcado por um sofrimento evitável – geralmente, para além do que seria a vontade do próprio indivíduo doente, desconsiderando sua autonomia - fez surgir a necessidade de se discutir a existência de um direito à morte digna, o qual costuma ser tratado a partir da perspectiva de uma morte em paz, com integridade física, de morrer no momento certo, com conforto (na medida do possível) e alívio do seu sofrimento (por meio de cuidados paliativos que amenizem a dor)60.
Contudo, é importante frisar que concomitantemente à prática da obstinação terapêutica, há cada vez mais uma conscientização e discussão dos profissionais da saúde, assim como, de estudiosos da área de saúde e de outras áreas de conhecimento, de que as tecnologias disponíveis vêm sendo aplicadas de modo inadequado e de que excessos vêm sendo perpetrados em elevada monta, principalmente, no que pertine aos pacientes em
58 Silva, Carvalho, Santos e Menezes (2007) apresentaram uma pesquisa objetivando compreender a vida do
idoso depois da morte de um amigo asilado. O estudo realizou-se com 15 idosos domiciliados em asilos, permitindo inferir que frente à morte de um amigo, os idosos se disseram chocados, descrentes, amedrontados, enfurecidos e tristes. Ademais, diferentes sentimentos foram relatados, como por exemplo: sensação de vazio; falta do amigo; saudade; estarrecimento; tristeza; ansiedade; raiva; lembrança; e, solidão. Portanto, é possível observar que a pluralidade de posturas diante da morte e que estas, independentemente da idade da pessoa inclinam-se a possuir características similares, tais como a tristeza e o sofrimento.
59 Além desse fato, cita-se também como motivação para tal conduta médica, a vinculação emocional da equipe
de profissionais com o paciente nessa situação clínica de iminência de morte ou à sua família, o que torna difícil recusar as solicitações destes de que façam o que for possível para evitar ou adiar a morte. De igual modo, tem-se o receio do profissional da saúde em ser responsabilizado por uma possível omissão, sendo tal temor suficiente para eles praticarem a obstinação terapêutica, mesmo em confronto com sua consciência e ética médica.
60 De fato, é importante ressaltar que as inovações biotecnológicas, surgidas principalmente a partir da segunda
metade do século XX, possibilitaram que pacientes com doenças graves, que habitualmente eram rapidamente letais ou duramente debilitantes tivessem sua existência prolongada por muitos anos e suas condições de vida consideravelmente melhoradas. (VILLAS – BÔAS, 2010)
situações de final de vida61. Desse modo, é cada vez mais pujante a preocupação dos profissionais da saúde com a postura ética e juridicamente correta frente ao fim da vida. (KIPPER, 2000)