1.1 HISTÓRIA DA GRAVAÇÃO DO SOM 18
1.1.7 A distribuição: Winamp, MP3.com, Napster e similares
Neste contexto temporal, as ferramentas para utilização da música em termos pessoais estavam sendo disseminadas inicialmente como uma facilidade dentro do espectro de inovação tecnológica. Se a utilização do gramofone pode ser considerada como criadora da indústria da cultura de compra de fonogramas, a fita cassete pode ser classificada como o grande marco da dissociação obrigatória da reprodução unicamente por disco. Porém, por mais que sua venda viesse aumentando de forma gradual a ponto de preocupar as gravadoras, ela ainda tinha a desvantagem de não reproduzir de forma completa toda a fidelidade de um disco. O seu aproveitamento estava baseado na sua forma compacta garantido-lhe uma fácil portabilidade até então inexistente (MILLARD, 2005).
Já a distribuição de arquivos de gravações de áudio pela rede mundial de computadores é o marco de uma revolução a qual ameaça com uma reformatação o preceito de como se deve adquirir a música através dos canais comuns comerciais (MILLARD, 2005).
A nova ordem no ciberespaço mudou o tempo livre em quase todo planeta, bem como as compras e o acesso à informação. Novas palavras foram adicionadas ao nosso vocabulário para descrever as novas atividades: “surfar na net” – acredita-se que a expressão foi criado por Jean Armour Polly em 1992 – “fazer um link”, “baixar” um arquivo e “fazer um
download”. De modo significativo, novos termos foram concebidos para descrever o ato de
salvar e reproduzir um áudio. A companhia de computadores Apple reuniu todas essas mudanças em uma campanha publicitária memorável que dizia para os seus consumidores para “arrancar, mixar e queimar” (rip, mix and burn). O “rip”, conhecido também como “ripar”, significava fazer uma cópia de um CD na forma de um arquivo digital. “Mix” mantém o mesmo significado que tem nos estúdios profissionais, mas “burn” significava uma maneira completamente nova de gravação (MILLARD, 2005).
Tal facilidade de transformar uma música em formato digital teve na criação do MP3 um fator positivo a mais na sua disseminação. A utilização deste tipo de arquivo como meio de distribuição de fonogramas culminou na concepção de ferramentas tais como softwares específicos para a viabilização de sua reprodução irrestrita propiciada através da internet. Como no início da década de 1990 a transmissão de dados binários através das linhas telefônicas era ainda primária e lenta, a troca de arquivos ainda precisava ser aperfeiçoada. Se antes algumas tentativas foram ensaiadas como o sistema Real Audio idealizado por Rob Glaser, sua evolução passou pelo desenvolvimento do Arquivo Internet de Música
Underground (IUMA) concebido por Rob Lord e Jeff Patterson em 1993 e chegando no Winamp criado por Justin Frankel em 1997. O Winamp foi o primeiro software que permitia uma centralização de arquivos de MP3 dentro do computador e onde o usuário poderia fazer a sua própria lista de músicas adicionando ao programa na ordem que lhe melhor conviesse. Tal como gerações anteriores faziam com as fitas cassetes, mas com uma qualidade bem melhor (MILLARD, 2005).
Figura 13 – Reprodução da tela do arquivo de Winamp, reprodutor gratuito de arquivos MP3. Fonte: CRISDIAS.
Disponível em: <http://www.crisdias.com/2002/06/24/winamp-turbinado/>. Acesso em: 09 maio de 2011.
O processo de digitalização de um fonograma tinha agora ferramentas disponíveis necessárias para que cada usuário pudesse transformar o seu computador em um central de reprodução musical que eram: a transformação de fonogramas de CDs em arquivos digitais através do ato de “rip”; a compressão desses arquivos em MP3 propiciando o envio pela rede mundial de computadores; um software de armazenamento e reprodução como o Winamp que permitia que o usuário montasse a sua própria lista de músicas, ou seja, fizesse o “mix”; um gravador de CD-R que permitia a cópia daqueles fonogramas em outros CDs, i.e., “burn”.
No que tange a importância desta problemática com relação à nova perspectiva de reprodução fonográfica, o caráter de distribuição de música não está no ato de “ripar” um CD em si, mas na potencialidade de sua transmissão e compartilhamento por meio da Internet. Tal possibilidade teve na criação do arquivo MP3 uma maneira de não apenas a difusão de fonogramas de maneira abrangente. Permitiu também a abertura de uma nova perspectiva
onde o ato de se “baixar” músicas sem o necessário cumprimento norminativo de compra dos direitos autorais se mostrava cada vez mais corriqueiro. Esse ato estava pautado inicialmente por uma conscientização onde a livre troca de arquivos remetesse a ideais os quais abarcavam o enfrentamento à autoridade econômica e política através do ciberespaço. Mas a potencialidade deste último logo perpassou o mero emprego ideológico da propagação fazendo com que cada vez mais endereços na internet disponibilizassem músicas para os usuários (MILLARD, 2005). O site MP3.com, criado em 1997, foi um dos primeiros a prover de graça aos internautas músicas de bandas independentes. Como muitas destas não tinham grandes probabilidades de poder difundir o seu material por meio das gravadoras majors, agora suas músicas poderiam ser “baixadas” e distribuídas de forma mais abrangente e, mais importante, sem a necessária vinculação com relação aos direitos autorais. Michael Robertson, criador do MP3.com, disponibilizava os fonogramas e forma completamente desvinculada com qualquer obrigatoriedade contratual permitindo que cada banda fosse soberana com relação ao seu material (MILLARD, 2005).
Esta potencialidade não foi totalmente relevada por quem mais pudesse sofrer com a sua abrangência. As grandes gravadoras não souberam, a princípio, quantificar a periculosidade que a rede poderia determinar ao minar as suas vendas e, consequentemente, a reserva de mercado. Segundo Knopper (2009), uma visão míope permeou as grandes empresas do segmento no sentido de não terem, de forma incisiva dentro do seu corpo administrativo e de planejamento, profissionais que pudessem voltar a atenção para essas mudanças tecnológicas, principalmente as que diziam respeito à criação de uma nova forma irrestrita de comunicação. Depoimentos dos próprios executivos das gravadoras atestam o despreparo e a falta de percepção para a mudança que se colocava diante da sociedade em geral. Tal falta começou a se materializar a partir do ano de 1993 quando a major Warner descobriu que as músicas do mais recente CD da banda Depeche Mode, Songs of Faith and
Devotion, estavam sendo livremente disseminadas através das salas de chat na internet.
Porém, a principal alteração com relação à troca de fonogramas foi a criação do Napster, um software de compartilhamento de arquivos projetado por Shawn Fanning em 1999 o qual centralizava e distribuía de forma irrestrita e sem controle músicas no formato digital. Embora nesta época já existissem programas que permitiam tal procedimento como o IRC, o Hotline e o USENET, a engenharia do Napster era diferente. A sua facilidade de operação aliada ao seu sistema de processamento de informações permitia uma estabilidade operacional que logo o tornou popular. A sua concepção tinha como forma determinante a transferência de fonogramas o que rapidamente criou uma ferramenta útil para quem
desejasse ter acesso a alguma música, algum CD ou até mesmo uma coleção de CDs de determinada banda (KNOPPER, 2009). Em sociedade com o seu tio, John Fanning, Shaw logo aperfeiçoou o Napster. Em outubro de 1999 o número de usuários chegou a 150.000 com 3,5 milhões de arquivos. Em julho de 2000 o número de usuários chegaria a 20 milhões (KNOPPER, 2009).
Figura 14 – A logomarca do Napster Fonte: ROOLINGSTONE.
Disponível em: <http://www.roolingstone.com.br/seções/novas/noticias/napster-n-1-em-musicas-sem- bloqueios/>.
Acesso em: 05 maio de 2011.
Figura 15 – Imagem do software do Napster Fonte:THE REGISTER.
Disponível em: <http://www.theregister.co.uk/2012/03/17/parker_fanning_on_napster/>. Acesso em: 05 maio de 2011.
Quando o Napster foi introduzido em 1999, era a ideia certa no momento certo. Se tivesse sido introduzido alguns anos depois, poderia ter seguido o caminho do IUMA: diferente, potencialmente subversivo, mas não grande o bastante para criar mudanças. Porém, os milhões de downloads do Napster ameaçaram engolir os Imperadores do Som. Os primeiros planos para o serviço consideravam apenas 150.000 usuários registrados, mas alguns meses depois de começar esse número subiu para 400.000. Ao final de 1999, esse número excedia meio milhão e na primavera do ano seguinte chegou a 10 milhões. No verão seguinte, Napster era a palavra mais procurada na internet e o site tinha 22 milhões de usuários. [...] Algumas estimativas calculam que, no seu ápice, 73% de todos os alunos das faculdades dos EUA usavam o Napster. (MIILARD, 2005, p. 394, tradução nossa)
Tal ameaça para a indústria fonográfica não demorou muito para ser percebida e logo o Napster teria negado o seu funcionamento enquanto facilitador na troca de fonogramas. Neste aspecto, existem dois motivos principais para esta negativa. Por um lado John Fanning não se mostrou tão hábil no sentido de migrar o serviço proposto para uma distribuição paga (KNOPPER, 2009). Por outro lado, as principais gravadoras através da RIAA (Recording
Industry Association of America) ou Associação da Indústria das Gravadoras Norte-
Americanas decidiram acionar judicialmente o Napster alegando que, no seu serviço, estava caracterizada a pirataria de algo que era protegido pelas leis do direito autoral. Ao mesmo tempo, bandas de música como o Metallica encabeçaram uma representação legal contra a disseminação de suas músicas sem o prévio pagamento dos mesmos direitos autorais. Assim, o Napster durou até fevereiro de 2001 quando foi declarado oficialmente pela justiça norte- americana como um serviço ilegal (KNOPPER, 2009).
Ainda que fosse o Napster impedido de viabilizar tal procedimento, logo outros programas similares e mais eficientes começaram a ser disseminados pela rede mundial de computadores, porém com uma diferença básica. Em termos tecnológicos, o Napster apresentava uma estrutura baseada em um servidor central o qual recebia a conexão de vários computadores periféricos com usuários previamente identificados e remetia a estes os arquivos solicitados, tal como representado a seguir:
Figura 16 – A representação de um sistema baseado em um servidor central Fonte: WIKIPÉDIA.
Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/File:Server-base-network.svg>. Acesso em: 06 maio de 2011.
Infelizmente, havia um aspecto residual no Napster que se manifestou como um empecilho para o seu desenvolvimento: a arquitetura centralizada. Ao permitir uma localização rápida de arquivos que transitam em seu sistema, o Napster não possibilita o anonimato dos usuários, pois, para utilizar o sistema, cada internauta precisa se registrar previamente (inserindo seu nome ou pseudônimo); desta forma, o servidor do Napster é capaz de identificar cada um deles e saber o que estão intercambiando. Isto torna frágil o próprio uso do Napster, além de torná-lo presa fácil de aspectos judiciais relacionados aos direitos autorais (ser quem centraliza os dados, ou seja, a subversão do copyright). (MILANI, 2010, p. 266)
Atualmente, a rede P2P se coloca de forma diferente onde o compartilhamento de informações é estabelecido através da arquitetura de sistemas distribuídos. Assim, como característica tem-se a descentralização das funções na rede e a criação de nós onde cada um realiza tanto funções de servidor quanto de usuário conforme a ilustração a seguir:
Figura 17 – A representação de um sistema baseado na arquitetura de sistema distribuídos, criando-se nós e sem o uso de um servidor central
Fonte: WIKIPÉDIA.
Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/File:P2P-network.svg>. Acesso em: 06 maio de 2011.
Esta descentralização promoveu uma facilidade maior na troca de arquivos já que a exclusão de um servidor central permite o compartilhamento de diferentes partes de uma música em diferentes computadores. Ou seja, se o usuário está “baixando” uma determinada música, diferentes partes delas estão em diferentes computadores. Caso um deles perca a conexão ou seja desativado, automaticamente um outro o substituirá. Este tipo de arquitetura foi concebida sob o nome Gnutella.
O Gnutella tem uma série de vantagens sobre o Napster, a começar por seu sistema descentralizado e pelo fato de ser essencialmente anônimo. É dese- nhado para permitir a busca de qualquer tipo de arquivo (e não somente MP3), desde textos e imagens até arquivos de programas (softwares). O Gnutella forma uma comunidade descentralizada de troca de arquivos, por meio de uma idéia simples: toda solicitação é repetida a partir de um nó para todos os outros nós conhecidos deste. (MILANI, 2010, p. 269)
A evolução desse tipo de distribuição permitiu que novos programas de informática fossem criados de forma a possibilitar cada vez mais a eficiência dentro do universo de disponibilidade de fonogramas inseridos em um espectro anônimo. As redes chamadas híbridas por juntarem os dois tipos de arquitetura, logo se tornaram comuns e não demorou muito para que programas como o Kazaa, LimeWire e Edonkey se tornassem instrumentos pelos quais qualquer usuário com acesso à internet pudesse fazer downloads de arquivos, fosse de música, filmes ou qualquer outro que pudesse ser disponibilizado. Embora a maioria desses serviços tivesse que cessar suas atividades devido a ações legais por parte das instituições que se sentiam lesadas – notadamente Associação da Indústria das Gravadoras Norte-Americanas (RIAA) e a Organização dos Estúdios de Cinema de Hollywood (MPAA) – mesmo assim a evolução tecnológica proporcionada pela informática rapidamente criaria novas maneiras de se poder encontrar diferentes formas de compartilhamento.
Tal evolução logo culminou na criação do software Emule seguido do BitTorrent, este último um aperfeiçoamento deste tipo de programa onde a maximização do seu desempenho descentralizado permite uma elevada taxa de transferência. Ademais, por não ter nenhum servidor centralizado, no BitTorrent as informações de cada arquivo são partilhadas por todos os usuários que se proporem a disponibilizá-lo. Assim, seguindo uma premissa lógica, quanto mais participantes estiverem conectados com aquele determinado fonograma, mais rápido será a sua velocidade de transferência (MILANI, 2010). Um ponto importante deve ser evidenciado aqui: esta descentralização remete a um certo grau de “anonimato” dos arquivos distribuídos já que esta arquitetura, como assinalado anteriormente, não trabalha com a perspectiva de um ponto central de distribuição. Pelo contrário, o arquivo permanece distribuído em várias partes espalhadas pela rede de computadores em todo o mundo sendo difícil rastrear um único responsável25.
25 No processo de fazer um download, o usuário precisa ter o arquivo do tipo torrent. Este lhe irá permitir o acesso aos computadores que estão conectados de modo a poder “baixar” o arquivo desejado. Porém, para se obter os torrents, algumas páginas da internet se especializaram no armazenamento e distribuição deste protocolo. Um dessas páginas foi o Pirate Bay a qual foi obrigada a interromper temporariamente suas atividades depois de um processo judicial. WIKIPÉDIA. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Pirate_bay,
Programas como o Kazaa, o LimeWire, e o Edonkey26 tiveram o seu funcionamento impedido por decisões judiciais as quais julgaram improcedente tal troca de arquivos por estarem infringindo na quebra dos direitos autorais. Porém, com relação ao BitTorrent, a sua disseminação foi aumentando de forma significativa27 embora ações legais contra seus usuários já tenham ocorrido. Concomitantemente, setores judiciários americanos apontam para uma intensa fiscalização contra usuários deste tipo de programa28.
Atualmente o hábito de fazer downloads de músicas pela internet ainda continua, embora teoricamente seja considerado um ato de pirataria. Em termos tecnológicos os arquivos digitais de música não sofreram grandes mudanças nos últimos anos. Porém, o aumento da velocidade de conexão entre os usuários tem permitido que se possa fazer
downloads de forma cada vez mais rápida29.
Passamos agora a recuperação histórica do aspecto econômico/empresarial da indústria fonográfica mundial, com especial ênfase na norte-americana. A razão para tal está no fato de que é ela que vai encabeçar e direcionar os principais eventos que a compreendem. Ao mesmo tempo, o seu modelo gerencial e financeiro é modelar na construção de um modus
operandi tanto nas suas fases de crescimento quanto de crises. Não há interesse em
particularizar e detalhar em termos geográficos nenhum evento em especial. A abordagem nesta instância procura pela visão macro do processo como forma de embasar a subsequente análise.
<http://en.wikipedia.org/wiki/The_Pirate_Bay_trial>. Acesso em: 12 de maio de 2011. THE PIRATE BAY. Disponível em: <http://thepiratebay.org/history>. Acesso em: 12 maio 2011.
26 Para mais informações com relação ao Kazaa, dados podem ser encontrados em WIKIPÉDIA. Disponível em: <http://en.wikisource.org/wiki/MGM_Studios,_Inc._v._Grokster,_Ltd>. Acesso em: 15 maio de 2011. E também no endereço SLYCK. Disponível em: <http://www.slyck.com/news.php?story=838>. Acesso em: 15 maio de 2011. Com relação ao Limewire, as informações necessárias podem se encontradas em GUARDIAN. Disponível em: <http://www.guardian.co.uk/technology/2010/oct/27/limewire-shut-down>. Acesso em: 15 maio de 2011. E também em no endereço INFORMATION WEEK. Disponível em: <http://www.informationweek.com/news/global-cio/trends/228000125?cid=RSSfeed_IWK_News>. Acesso em: 15 maio de 2011. E com relação ao Edonkey, verificar em BETA NEWS. Disponível em: <http://www.betanews.com/article/P2P-Future-Darkens-as-eDonkey-Closes/1127953242>. Acesso em: 15 maio de 2011.
27 IPOQUE. Disponível em: <http://www.ipoque.com/resources/internet-studies/internet-study-2008_2009>. Acesso em: 19 maio de 2011.
28 WIRED. Disponível em: <http://www.wired.com/threatlevel/2011/05/biggest-bittorrent-case/>. Acesso em: 19 maio de 2011.
29 Segundo artigo publicado na revista Exame, em termos globais a velocidade de conexão registrou um aumento de 4% durante os meses de maio, junho e julho de 2013. No mesmo período, a velocidade cresceu em 123 países no planeta. Disponível em: <http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/brasil-e-apenas-73o-em- velocidade-de-conexao-da-internet>. Acesso em: 23 de julho de 2013.