3 DIAGNÓSTICO TÉCNICO REGIONAL
3.2 A diversidade, as particularidades e a regionalização
Ao longo do processo de planejamento regional, iniciado em meados dos anos 1990, foi se consolidando na região a visão de que o seu território não é homogêneo em sua totalidade. O território regional apresenta grandes diferenças e particularidades tanto em seu ambiente natural quanto em sua formação histórica e cultural, como também desigualdades em seus processos de crescimento econômico e de desenvolvimento social.
Nesse sentido, reconhecendo tais diferenças e particularidades, e buscando melhor apreender, interpretar e analisar as características, os elementos, os processos naturais, socioculturais, econômicos e político--institucionais presentes no território regional, bem como organizar os dados secundários e informações necessárias ao planejamento regional, adotou-se a mesma regionalização utilizada nos planos regionais anteriores. Esta regionalização particular é distinta daquela já consagrada pelo IBGE, em sua microrregionalização geográfica.
A regionalização para fins de planejamento do território do Vale do Rio Pardo está constituída por três microrregiões distintas: Sul, Centro e Norte, como ilustradas, a seguir, no Mapa 2, possibilitando observar a localização de cada microrregião no território regional.
3.2.1 A Microrregião Norte
Os municípios que integram a Microrregião Norte estão localizados na região serrana. Seu relevo bastante acidentado e com altitudes médias em torno de 500 metros favorece culturas agrícolas distintas de frutíferas, além da produção do fumo em folha, em decorrência da sua integração econômica com as atividades da região do Vale do Rio Pardo. Sobradinho apresenta importante centralidade microrregional. Inserida na região dos planaltos das Araucárias e das Missões essa microrregião apresenta uma agricultura diversificada, praticada em pequenas propriedades rurais, que se utilizam da mão de obra familiar para a produção de tabaco em folha (fumo), soja, feijão, milho e pecuária, além de produtos para fins de subsistência familiar, ou comercializados na própria região. Também possuem como característica marcante terem sido colonizados por imigrantes
europeus, principalmente de origem alemã e italiana, cujos hábitos culturais e alimentares expressam forte identidade entre seus habitantes.
Os municípios são de pequeno porte, se comparados com as outras duas microrregiões, e apresentam um baixo índice de urbanização, com grande parte de sua população ainda residindo no meio rural.
Mapa 2 − A região do Vale do Rio Pardo e suas microrregiões
Fonte: NGP/UNISC – Org.: Bruno Deprá.
3.2.2 A Microrregião Centro
A Microrregião Centro insere-se no Planalto das Araucárias e na Depressão Central, com uma variação de altitude entre 600 a 100 metros, na transição dos compartimentos geomorfológicos. Caracteriza-se fundamentalmente pela forte preCaracteriza-sença da agroindústria multinacional exportadora do fumo em folha, o que influencia diretamente na organização dos espaços urbanos e rurais, além disso essa microrregião concentra o PIB industrial do Vale do Rio Pardo. Santa Cruz do Sul concentra em sua área urbana três atividades geradoras da dinâmica regional que lhe concedem o papel de cidade polo regional: em primeiro lugar, a presença das principais sedes e usinas de processamento de tabaco destas empresas, tais como Souza Cruz, Philip Morris, Universal Leaf Tabacos Ltda, entre outras; em segundo lugar, a Universidade de Santa Cruz do Sul que se constitui em um forte elemento atrativo de impacto social e econômico na região; em terceiro lugar, o importante conjunto de serviços especializados de saúde e de atividades comerciais e de serviços instalados na cidade, igualmente amplia a sua centralidade regional. Venâncio Aires e Vera Cruz se articulam em rede a estas atividades, constituindo-se em espaços de expansão econômica e administrativa destas atividades e também como cidades-dormitórios. Os demais municípios que compõem a porção central são essencialmente agrícolas, produtores de tabaco e fornecedores de mão de obra temporária no setor fumageiro. No meio rural há a presença marcante da pequena propriedade agrícola familiar altamente especializada na produção de fumo, e iniciativas ainda dispersas de produção de alimentos agroecológicos. O traço herdado da influência dos descendentes dos migrantes alemães ainda é forte, podendo ser identificado de forma evidente nas práticas socioespaciais locais, nas construções e na organização dos espaços, tanto urbano como rural. Trata-se de municípios também de pequeno porte, assim como na Microrregião Norte.
3.2.3 A Microrregião Sul
Na Microrregião Sul, observa-se características mais diversas comparativamente as outras microrregiões, seja pelo seu processo de ocupação espacial ter ocorrido mais cedo (Rio Pardo constituiu-se num dos primeiros municípios, sendo fundado em 1809 e originando diversos outros), seja pela sua vinculação à dinâmica econômica e sociocultural da Metade Sul do estado. Nessa microrregião o município de Rio Pardo
se apresenta como polo regional. Outras características marcantes são a concentração fundiária e a formação geológica e pedológica que dificultam o melhor aproveitamento agrícola, principalmente nos municípios de Pantano Grande e Encruzilhada do Sul. A microrregião encontra-se na Depressão Central e no Escudo Sul-riograndense, com áreas planas na Depressão Central, e relevo ondulado no Escudo Sul--riograndense. Além da influência dos migrantes alemães, observa-se uma maior diversidade cultural vinculada, sobretudo, à cultura luso--brasileira, o que pode ser observado inclusive na formação das cidades – como Rio Pardo, por exemplo – e nas manifestações sociais, tais como suas festividades. Essa microrregião também está integrada à produção do fumo em folha, no entanto há predomínio da cultura do arroz nesta microrregião, sendo os municípios de maior porte em superfície.
A despeito da integração econômica dos municípios em torno da produção do fumo, a diversidade de culturas e práticas socioespaciais revelam uma região exemplarmente rica em manifestações das suas populações no cotidiano, cujas tradições ainda são preservadas de forma pouco alterada pelas atividades turísticas e pelos novos atores sociais que se inserem neste território, com particularidades específicas de cada município ou microrregião.
Essa diversidade intrarregional quanto ao conteúdo histórico, cultural e ambiental, bem quanto às determinações e às particularidades do processo de reprodução ampliada do capital e seus reflexos e efeitos diferenciados no conjunto dos lugares da região, impõe a necessidade de se pensar o planejamento regional como meio de buscar a diminuição das desigualdades intrarregionais, bem como a valorização e o aproveitamento econômico e social de suas diferenças, contingências e individualidades.