O Estado de S Paulo
3.4 A diversidade de linhas: Jornal do Brasil
Quadro 6 – Editoriais JB
10 de junho 14 de junho 21 de junho
“O Mau Selvagem” (I) “Culpa demarcada” (II)
“Ovelhas Negras” (III) Fonte: elaborado pela autora
O Jornal do Brasil apresenta uma relativa regularidade quanto à periodicidade dos editoriais, concentrados no mês de junho, entretanto, do ponto de vista qualitativo, não apre- senta homogeneidade. A diversidade pode ser observada nas teses defendidas e na orientação argumentativa que cada editorial constrói. O primeiro deles, “O Mau Selvagem”, tem o esquema canônico de um editorial. O seu título faz alusão e pretende ser uma contestação à visão idílica do europeu, em clara referência ao filósofo francês Rousseau, a quem é atribuída a origem dessa representação. O editorial apresenta um resumo dos “fatos”, interagindo com a retórica das repor- tagens: acusação de estupro “com requintes de barbárie que remetem ao canibalismo”; assinala o impacto da acusação na Rio-92, “onde o cacique Paiacan seria convidado de honra”
e o constrangimento das lideranças indígenas para quem “De motivo de orgulho [...], Paiacan é de repente reduzido à condição de pária” (O MAU..., 1992, p. 2).
A parte avaliativa do editorial consiste num balanço dos motivos alegados na articulação de uma defesa genérica e explicativa do caso: “houve quem tentasse atribuir a denún- cia a uma intriga destinada a comprometer o processo de demarcação das terras indígenas” (O MAU..., 1992, p. 2), ou “Quando o estupro se tornou incontestável, a tendência foi acusar o ‘homem branco’ de haver corrompido Paiacan” (O MAU..., 1992, p. 2). Essas considerações se orientam para construir uma crítica à prática de uma idealização ou miti- ficação do índio – presente também em artigos de opinião desse e de outros jornais: “não há mito que possa justificar a impunidade” (O MAU..., 1992, p. 2).
A tese do editorial é construída a partir de uma recapi- tulação dos argumentos de defesa e da instauração de uma proposta de “relativização da imagem do índio brasileiro que pode até [...] ser positiva para o movimento”, sustentando que “os índios, como os brancos, não são necessariamente bons nem maus, [...] defender o índio não deve significar encobrir crimes que porventura cometam” (O MAU..., 1992, p. 2). Nesse sentido, há um importante esforço de descoletivização que dialoga e contesta outras linhas argumentativas do corpus,
em que se desloca a acusação de Payakã para as populações indígenas: “Não é a questão indígena que está em pauta, mas o caso isolado de um estuprador como qualquer outro, que precisa ser punido pelo seu delito” (O MAU..., 1992, p. 2).
A proposta de julgar Payakã, e não as populações indíge- nas, representa uma das linhas de defesa da causa indígena. Entretanto, ainda que relativizando e descoletivizando a acusação, o editorial descarta dados do contexto político, nacional e local, enquanto elementos plausíveis para compor uma compreensão da acusação.
A segunda matéria, “Culpa Demarcada”, apresenta uma linha oposta ao editorial anterior. Pontual e episódica, se pro- põe a defender a decisão do juiz de Redenção/PA de assinar a ordem de prisão de Payakã, assim como a desqualificar “o cacique caiapó”. O título contém uma referência à acusação e assinala, com ironia, a ideia de limites, desenvolvida no editorial, a partir do termo consagrado para a atribuição de terras às populações indígenas.
Topicalizando o ato do juiz como uma forma de estabele- cer “limites à inimputabilidade” (CULPA..., 1992, p. 3), o edi- torial avalia que “o magistrado agiu corretamente” (CULPA..., 1992, p. 3), seguindo a tendência geral de pressupor a quali- ficação criminal de Payakã. Nesse sentido, a construção de
credibilidade em “o que disse a jovem seviciada” (CULPA..., 1992, p. 3) e “a comprovação de seu depoimento pela perícia” (CULPA..., 1992, p. 3), ancoram esse pressuposto.
Outro componente dessa linha é o pressuposto impreciso de que “a lei contempla o índio brasileiro [...] com inim- putabilidade” (CULPA..., 1992, p. 3), e é a partir dele que o artigo dialoga com outras matérias opinativas que acionam a qualificação abusiva em referência à situação jurídica das populações indígenas. O feito atribuído ao juiz ganha significado valorativo pela sua “capacidade de estabelecer restrições a essa condição” (CULPA..., 1992, p. 3), como parte de um discurso em que a impunidade ganha contornos dema- gógicos: “Caso o juiz hesitasse em aplicar a lei comum [...] estaria criando uma brecha para impunidade” (CULPA..., 1992, p. 3).
Uma das estratégias para compor a figura de Payakã é a sua desqualificação. Referindo-se a ele como “aproveitador”, o editorial avalia seu papel político: “Como acontece com outras lideranças indígenas, Paiacan não é, parece claro, um modelo de silvícola que se possa valer de lei especial” (CULPA..., 1992, p. 3). No mesmo sentido, apresenta-se um questionamento de sua identidade étnica: “Trata-se, na ver- dade, de um empresário que trafega com desenvoltura no mundo dos brancos: conhece outros países, ganha dinheiro
explorando minas e florestas; tem automóvel e até avião” (CULPA..., 1992, p. 3). O editorial aciona uma representação de silvícola que exclui riqueza ou bens materiais, apresen- tando, ao mesmo tempo, evidências da manipulação de sua identidade segundo as conveniências: “Paiacan vira índio integral quando procura o território neutro da sua aldeia caiapó e dá a impressão de que pretende levantar seu povo para uma guerra do fim do mundo” (CULPA..., 1992, p. 3).
Interagindo com reportagens e linhas argumentativas que contestam a identidade indígena de Payakã, o edito- rial postula, ainda nessa linha, que é da justiça o papel de arbitragem:
Se o cacique quer misturar conceitos, cabe à Justiça [...] apartá-los, de modo a não confundir a opinião pública. A questão dos direitos indígenas é uma coisa. Um caso de estupro é outra, inteiramente diferente. (CULPA, 1992, p. 3).
Aciona-se, assim, a representação de uma justiça isenta, presente no senso comum, que deve decidir se Payakã, para efeitos da acusação, é ou não índio. O editorial constitui-se numa defesa da lei, materializada na decretação da prisão de Payakã pelo juiz, e reitera o teor acusatório das reportagens e matérias opinativas que põem em circulação as acusações de estupro e riqueza.
O terceiro e último editorial, “Ovelhas Negras”, ainda que não represente um esforço direcionado em torno da ques- tão indígena, constitui um exemplo extremo de uma linha argumentativa marcada pela moralização e consequente despolitização da acusação, bem como pela coletivização da acusação, ao incluir a figura de Payakã na “corrente sub- terrânea de corrupção” (OVELHAS..., 1992, p. 2). A prática de encampar um caso numa discussão mais ampla parece
ser uma constante da imprensa39.
A partir de um discurso “anti-impunidade”, o editorial estabelece um diálogo com o momento político, comparando Payakã a figuras públicas controvertidas como Mike Tyson, Cicciolina, Zulema Meném, em uma lista de “exibicionistas desastrados que contribuem para saciar a sede de exotismo da opinião pública” (OVELHAS..., 1992, p. 2).
39 A recorrência dessa estratégia pode ser ilustrada pela análise de Renato Pereira sobre o episódio Ruschi, em que este cientista, grave- mente doente, foi tratado por dois pajés xinguanos. Pereira analisa a postura da imprensa, mostrando que o caso foi encampado por uma “cruzada contra os enganadores da população, médiuns, curandeiros e afins, com amparo de dois expoentes da elite católica conservadora brasileira: os jornais O Estado de S. Paulo e O Globo” (1989, p. 30).
Ou ainda no conjunto de: “estupradores, corruptos e chantagistas que prejudicam não só suas corporações, mas o conjunto inteiro da sociedade” (OVELHAS..., 1992, p. 2).
O editorial faz considerações normativas sobre o papel do “homem público”, que “não pode carregar consigo taras pessoais inconciliáveis com as normas elementares da socie- dade. [...] Ele necessita ter uma vida limpíssima” (OVELHAS..., 1992, p. 2).
Acusa ainda a tendência das “corporações” de prote- gerem seus “exóticos”, numa referência às instâncias de apoio às populações indígenas, advertindo para o risco da impunidade que essa prática instaura.
As estratégias de associar a acusação a Payakã e seus des- dobramentos à “onda de corrupção” do momento, observadas de forma recorrente nos artigos, assim como de estabelecer pontes com figuras internacionais, podem ser entendidas como formas de engrandecer a acusação, de torná-la legí- tima enquanto notícia.
Assim, os editoriais – enquanto intervenções explíci- tas que pretendem retratar a “opinião” do jornal sobre a acusação em questão – permitem visualizar investimen- tos diferenciados entre os jornais. No entanto, ainda que
se observe uma diversidade de linhas argumentativas no
Jornal do Brasil, os editoriais refletem o esforço dos jornais
em tomar o “caso Payakã” como metáfora de um suposto desgoverno da política indigenista no país, com especial destaque para O Estado de S. Paulo, que leva essa linha ao extremo, com uma homogeneidade absoluta.