Daniela Ilda Vaz Pinto
Escola Superior de Educação - Instituto Politécnico de Coimbra – Mestre em Educação Pré-Escolar e Ensino do 1.º Ciclo do Ensino Básico
[email protected] Maria de Fátima Neves
Escola Superior de Educação - Instituto Politécnico de Coimbra
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144 Resumo
A Sociedade está em mudança, provocando alterações na sua base estrutural: a família. As transformações sociais, políticas, económicas e culturais têm conduzido à existência de diversos modelos familiares.
A diversidade familiar está presente nas Escolas e nas salas de aula. A LBSE (1986) refere que a identidade escolar deve “assegurar o direito à diferença, mercê do respeito pelas personalidades e pelos projectos individuais da existência, bem como da consideração e valorização dos diferentes saberes e culturas” (art.º 3, d), p. 3068). Assim, a Escola deve promover atividades e ações que desenvolvam o bem-estar, valorização e autoestima, promovendo o respeito pelo outro e pela sua identidade.
O trabalho realizado abordou a relação Escola/Família, aprofundando a diversidade familiar em contextos escolares, procurando perceber o que as crianças pensavam das suas famílias. Para tal, desenhou-se um quadro teórico sobre o conceito de família, a evolução e os diversos modelos de famílias. O estudo exigiu, igualmente, uma abordagem teórica sobre o desenho infantil.
Pretendeu-se identificar o modo como as crianças viam as suas próprias famílias, através de desenhos e de composições escritas. Os dados permitiram caracterizar as famílias, a partir do olhar e das vozes das próprias crianças.
Recomenda-se a promoção de práticas que respeitem a diversidade familiar e a diferença. Palavras-chave: Famílias; diversidade familiar; desenho infantil; práticas educativas; respeito pela diferença.
Abstract
The society is changing, causing changes in its structural base: the family. Social, political, economic and cultural transformations have led to the existence of several family models. Family diversity is present in schools and classrooms. The LBSE (1986) states that the school identity must "ensure the right to difference, due to respect for the personalities and individual projects of existence, as well as the consideration and appreciation of different knowledge and cultures" (art.º 3, d), p. 3068). Thus, the school should promote activities and
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actions that develop well-being, appreciation and self-esteem, promoting respect for others and their identity.
The study addressed the relationship between the school and the family, deepening the family diversity in school contexts, trying to understand what the children thought of their families. To this end, a theoretical framework was designed on the concept of family, evolution and the various models of families. The study also required a theoretical approach to children’s drawing.
It was intended to identify the way children saw their own families, through drawings and written compositions. The data allowed to characterize the families, from the eyes and voices of the children themselves.
It is recommended to promote practices that respect the family diversity and the difference. Keywords: Families; Family diversity; Children's drawing; Educational practices; Respect for the difference.
1. Introdução
Kamers (2006), citado por Cardoso (2016, p. 21), defende que “[…] Aos poucos, torna-se difícil de identificar um modelo familiar único na nossa sociedade, uma vez que assistimos a tempos de grandes mudanças, derivadas de diversas perspetivas e opiniões, onde se perde, cada vez mais, o significado de famílias “estruturadas e desestruturadas” (Kamers, 2006, p. 114). Esta transformação nas estruturas da família transporta-se para a sala de aula, através das relações entre os diversos elementos constituintes da comunidade educativa, tendo a escola de responder aos novos desafios (Marques, 1993).
Deve, então, a escola não ser apenas detentora de conhecimento, mas também ser um espaço que incentiva o respeito e aceitação da diversidade cultural, através das vivências e interesses, tornando-se numa escola cultural, onde o sucesso educativo só é possível com a
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colaboração de todos, emergindo, assim, a necessidade de criar um espaço de inter-relação e socialização.
Sousa e Sarmento (2010) fazem referência aos diversos modelos familiares presentes na sociedade e com os quais a escola tem de se relacionar. E, nessa mesma linha de relação, as autoras, referem que “a escola não poderá desempenhar verdadeiramente o seu papel se não puder contar com o apoio da família” (p. 148), sendo necessário que haja colaboração criando estratégias para o “desenvolvimento de relações positivas” (p. 147). O presente artigo realça a diversidade familiar em contextos escolares, partindo de um trabalho elaborado com crianças de Jardim de Infância e do 1.º Ciclo de Ensino Básico, no qual se procurou perceber o que pensavam as crianças das suas próprias famílias e compreender como a Escola aceita a diversidade.
Além da abordagem teórica sobre a evolução do conceito e tipologia de família, considerou- se necessário desenvolver uma abordagem teórica sobre o desenho infantil, baseando-nos nas categorias de Bédard (2005).
Os dados foram obtidos através do desenho das crianças, conversa informal e composição escrita, permitindo caracterizar as famílias, a partir do olhar e das vozes das próprias crianças.
Por fim, enquanto profissional de educação, recomenda-se a promoção de práticas que respeitem a diversidade familiar e a diferença.
2. A Família: a evolução do conceito e a sua diversidade
O conceito Família é polissémico e dinâmico sofrendo evolução ao longo do tempo.
Saraceno (1992) refere que o termo não diz respeito ao número de membros, mas ao vínculo entre os mesmos, quer sejam de afinidade ou parentesco. Afirmam Doron e Parot (2001) que a família é um grupo de indivíduos unidos por laços transgeracionais e interdependentes quanto aos elementos fundamentais da vida.
Giddens (2013) especifica que o termo se caracteriza pelos laços de parentesco e acrescenta que os mais velhos possuem a responsabilidade de cuidar das gerações mais novas.
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Gazeneuve e Victoroff (1982) apresentam a família como um grupo social onde a sua forma, estrutura, dimensões e necessidades variam no tempo e no espaço de sociedades e civilizações. Leandro (2001), por sua vez, afirma que não só a definição do conceito, mas a representação de família se foi alterando a par da sociedade, a qual tem evoluído dependendo de fatores políticos, sociais e culturais.
Contudo, independentemente das mudanças, a família sempre se apresentou como elemento base e estruturante da sociedade (Delgado, 2016). Faria (2011) refere que, nos séculos XX e XXI, as famílias começam a ter outras denominações como família nuclear, monoparental, alargada, identificando-se, deste modo, novos tipos de família.
Segundo Soares (2014) não é fácil definir o termo família, pois é um termo em mudança e inclui vários indivíduos com elos entre si, ideia reforçada por Gomes-Pedro, Nugent, Young e Brazelton (2005), “a família está a mudar muito rapidamente” (p. 34) coexistindo, deste modo, diversos modelos familiares.
Gimeno (2001), por seu lado, refere que os modelos familiares são próprios de todas as culturas, indicando o “harém muçulmano, a alargada família hindu, a família nuclear europeia, ou a família patriarcal cigana” como modelos diversificados, mas que são respeitados, havendo outros modelos que se tornam de “difícil aceitação”.
Caniço, Bairrada, Rodríguez e Carvalho (2010), médicos de família, têm constatado que as mudanças sociais conduzem à diminuição do número de elementos da família e a novas estruturas, afirmando que “tendencialmente, a unidade de caracterização será o agregado familiar” (p. 13). Assim, referem não apenas os cinco clássicos tipos de família, mas sim “21 tipos de família” (idem, p. 15), sendo estas: Díade nuclear; Família grávida; Família nuclear; Família alargada; Família com prole extensa; Família reconstruída; Família homossexual; Família monoparental; Dança a dois; Família unitária; Família de co-habitação; Família comunitária; Família hospedeira; Família adoptiva; Família consanguínea; Família com dependente; Família com fantasmas; Família acórdeão; Família flutuante; Família descontrolada; Família múltipla, sendo que todos estes tipos de família têm “estrutura e dinâmica” próprias (idem, p. 15). (Vide Anexo A).
3. A Família e a Escola
A sociedade do século XXI é uma “sociedade multicultural” (Sousa & Sarmento, 2010, p. 142) vivenciada em sala de aula. Nesta perspetiva, se a Escola tem como objetivo a
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formação da criança, nas competências cognitivas e sociais, salvaguardando e respeitando a diversidade de cada um, torna-se necessário que o lugar de “escola tradicional, centrada em si mesma” dê lugar a uma Escola que privilegie o trabalho com os outros agentes educativos, em particular, o trabalho em “parceria com a família” (idem, p. 142).
A Escola e a Família, enquanto parceiros educativos, desempenham papéis igualmente importantes no percurso formativo dos/as aluno/as: