• Nenhum resultado encontrado

MAPA 7 LOCALIZAÇÃO DOS EMPREENDIMENTOS HABITACIONAIS E EQUIPAMENTOS URBANOS EM JANDAÍRA/RN

4.7 João Câmara: A diversidade habitacional do Programa Minha Casa, Minha Vida, suas particularidades e a abrangência dos empreendimentos de faixa

4.7.1 A diversidade habitacional e suas especificidades

Por que elencamos o maior alcance do PMCMV como um dos pontos principais de análise? Distinguindo-se de Bento Fernandes, Jandaíra, Parazinho e Poço Branco, João Câmara além de possuir unidades habitacionais da faixa 1, concentra também eu seu território, investimentos em habitações de faixa 2 (aquela que atende famílias de renda entre R$ 1.800 a 3.600), financiados pelo PMCMV.

Tais empreendimentos são oriundos em grande parte da ampliação dos investimentos em energia eólica no município, a partir dos quais o mercado imobiliário local foi aquecido, loteamentos foram vendidos e várias habitações foram construídas para acolher o fluxo de pessoas proveniente da referida atividade econômica. O mapa a seguir mostra a localização dessas construções nas distintas áreas da cidade.

MAPA 8 – LOCALIZAÇÃO DOS LOTEAMENTOS/EMPREENDIMENTOS HABITACIONAIS PRIVADOS EM JOÃO CÂMARA/RN

Como se nota, a grande maioria dos empreendimentos localiza-se nas extremidades da área urbana municipal em espaços que antes não possuíam nenhuma estrutura e eram ocupadas por animais e vegetações dos mais variados tipos, configurando-se atualmente como áreas da expansão urbana camarense. Os pontos 3,4,5 e 6 estão ligados diretamente a uma das rotas de transporte dos equipamentos para os parques eólicos, essa rodovia estadual perpassa o distrito de Assunção (o qual foi um dos primeiros distritos do município de João Câmara) e interliga João Câmara a Touros/RN, bem como serve de conexão entre as BR-101 e 406.

Na referida área, dois condomínios horizontais foram construídos (como será observado na figura 11), enquanto alguns loteamentos foram erguidos próximos a eles, provendo essa zona da cidade com infraestrutura como iluminação, pavimentação, asfaltamento, esgotamento sanitário, coleta regular de lixo, entre outros serviços. Determinados terrenos antes sem uso começaram a ser loteados, vendidos para empreendimentos imobiliários, aquecendo a especulação imobiliária durante o boom da energia eólica no município e multiplicando a quantidade de casas construídas.

Todavia, não só foi só o setor eólico que alavancou esses investimentos privados em loteamentos e moradias, percebeu-se que boa parte dessa nova expansão urbana pela qual João Câmara passou deveu-se em grande medida também ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte que foi construído no município, pois este não só se tornou um dos contribuintes para o desenvolvimento local, como valorizou também vários terrenos (principalmente os que se encontram em suas proximidades, como o ponto 1 no mapa a acima) onde há pouco mais de 6 anos atrás só haviam terras ociosas e pouca movimentação na construção de casas e condomínios residenciais.

FIGURA 10 – RESIDENCIAL E LOTEAMENTO PRIVADO PRÓXIMO AO IFRN-JOÃO CÂMARA/RN

Fonte: Arquivo pessoal, 2014.

Com isso, os donos de grandes terrenos aumentaram seu poder aquisitivo, na venda ou construção de loteamentos para moradia ou edificação de condomínios residenciais. A fim de averiguar quantas unidades habitacionais inseridas na faixa 2 do PMCMV no município foram erguidas, visitamos os empreendimentos (elencados no mapa 8), fazendo um cruzamento também com informações do Ministério das Cidades do ano de 2014. De acordo com os dados, existe um quantitativo de 414 habitações construídas e entregues, totalizando um investimento total de R$ 32.141.533, representando 72,37% das casas existentes e fomentadas pelo Programa no espaço local, ou seja, um percentual bem a cima dos investimentos na faixa 1 com 110 unidades habitacionais e correspondendo a 19,23%.

FIGURA 11 – UNIDADES HABITACIONAIS FAIXA 2 EM JOÃO CÂMARA/RN

Fonte: Arquivo pessoal, 2014.

Constatou-se uma tendência à localização dessas residências em áreas de expansão urbana, principalmente aqueles de maior infraestrutura e porte, inserindo-se nos setores onde o perímetro urbano municipal foi ampliado nos últimos anos, conforme a Lei Municipal nº 350/2011 (que estabelece nova delimitação do perímetro urbano do município de João Câmara). Ademais, as visitas e a interpretação dos dados apontaram que ao longo da RN-023, foram efetuados os maiores números de transações, viabilizando a construção em extensões de terra com maiores dimensões, a implementação de investimentos em empreendimentos de maior porte.

No entanto, ao passo que esses condomínios modificaram a paisagem e o território dentro de seus muros e propriedades, os entornos não passaram por nenhuma transformação, uma vez que não foram investidos recursos em infraestrutura que pudessem contribuir para a melhora na qualidade de vida da população local e das imediações, assim como, para o maior e melhor desenvolvimento da gestão urbana local. Portanto,

As condições de deslocamento do ser humano, associadas a um ponto do território urbano, predominarão sobre a disponibilidade de infraestruturas desse mesmo ponto. A acessibilidade é mais vital para a produção de localizações do que a disponibilidade de infraestrutura. (VILLAÇA, 2001, p.24).

A partir do exposto é possível fazer uma correlação com as unidades habitacionais da faixa 2 em João Câmara. Como grande parte dos beneficiados pelo Programa Minha Casa, Minha Vida nesse estrato de renda tem rendimentos maiores, se afastar da cidade não foi problemático para os mesmos, haja vista que possuem carros ou motos e em suas novas moradas constituíram novos vínculos e vivências cotidianas, originando novas dinâmicas urbanas e culturais. Para os empresários, o importante foi povoar os vazios ao longo das rodovias, com uma infraestrutura ainda em construção, a acessibilidade tornou-se a garantia de deslocamentos mais rápidos, pelo fácil acesso as estradas e melhores avenidas da cidade. Em suma, a nosso ver o que ocorre é um processo de auto segregação (resumidamente seria a situação onde grupos de pessoas afastam-se dos espaços públicos e buscam o isolamento sócio espacial por seu próprio anseio), onde, segundo Moreira Júnior (2010, p.7) “[...] há um processo de auto segregação por parte das camadas mais abastadas, pautada na ideia de conviver entre os semelhantes. As práticas socioespaciais e o convívio social passam a se dar entre os iguais apenas”.

De tal modo, constrói-se um espaço urbano “ideal” dentro dos muros condominiais, desagregado dos elementos que compõem a cidade “normal” e de todas classes sociais. Se antes essa dinâmica era observável apenas em grandes cidades, atualmente já é considerado também um fenômeno que vem ocorrendo em cidades pequenas fazendo parte da estruturação de seu espaço urbano, como observamos no território camarense.

Em relação aos empreendimentos já citados, em entrevista com o então coordenador de habitação municipal o mesmo relatou que a grande quantidade de construções que ocorreu no município, devido à implantação do Programa “[...] é um boom que vem acontecendo na nossa cidade, alimentado pelas grandes quantias que as eólicas investiram e pelo contingente populacional que migrou para a cidade, mudando a nossa dinâmica”. A partir do exposto, é possível observar um entendimento de que o PMCMV está provocando diversas alterações no município, mesmo que seus efeitos ainda não tenham sido profundamente identificados pelo poder público local.