III. Estrutura da tese
4. Lutas pela terra e o território oficial
4.1 O campo do conflito
4.1.1 A divisão das terras
Nas lembranças dos herdeiros, o processo de Ação de Divisão das terras da Invernada dos Negros ocorreu devido à necessidade de regularizar as terras deixadas em testamento, em 1877. As frentes de colonização que avançavam do Rio Grande do Sul em direção à região do planalto e meio oeste catarinense e as instalação de empresas de madeiras, os deixava numa situação de fragilidade e de constante ameaça. Visto que, os limites físicos das terras da Invernada eram identificados por determinados marcos naturais, de moradias e por áreas de plantação ou de criação de animais. A intensidade do projeto de colonização da região se fazia urgente para o governo brasileiro, sobretudo com o fim da Guerra do Contestado (1912-1915), estabelecendo os limites geográficos dos estados de Santa Catarina e do Paraná.
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A Empresa tem sede em Monte Carlo, município vizinho a Campos Novos. Mas possui fazendas de
pinus e eucalipto em várias regiões do sul do Brasil. A empresa já mudou várias vezes de nome (Ibicuí,
Imaribo, Iguaçu). Firma é o termo que sintetiza essas diferentes designações para os moradores da Invernada dos Negros.
A ação de divisão iniciou-se oficialmente em 1920 e foi impetrada em 1940. É nesse ano que o projeto de colonização da região se consolida, com a chegada de muitos migrantes gaúchos que lá se instalam como agricultores, comerciantes ou como proprietários de serrarias. Nos anos 1930, a região vive o início e o desenvolvimento do ciclo de madeira, que se apresentou de diferentes formas, entre elas, a exploração da madeira, principalmente madeiras de lei como a peroba, a imbuia, a instalação de engenhos de serra e, em seguida, por serrarias movidas à força hidráulica. Esse ciclo continuou aumentado até aproximadamente 1972, quando há um esgotamento das florestas nativas 106.
Na ação de divisão das terras, o advogado responsável pela causa promove a demarcação das áreas de terra da Invernada dos Negros em aproximadamente 8 mil hectares e, posteriormente, estabelece uma linha dividindo essa área em duas partes. A melhor parte da área passa a pertencer ao advogado como forma de pagamento pelos seus honorários. A outra metade é dividida em 32 quinhões, delimitados simetricamente e repassados às famílias dos descendentes dos ex-escravos herdeiros. As circunstâncias da ação produzem vários desdobramentos identificados pelos herdeiros, como a perda de grandes áreas de terras, a falsificação de assinaturas, o desaparecimento de documentos e a pressão para que as terras fossem vendidas. Além disso, as lembranças em torno desse evento demonstram um sentimento compartilhado pelos membros do grupo: de que eles “foram enganados”, que, partir de sua condição de ‘negros’ foram ludibriados. Este sentimento é assim descrito, pelo herdeiro Sebastião de Sousa, de mais de 70 anos:
[...] sabe como é né: chega alguém, branco, boa pinta, dizendo que vai ajudá, o pessoal acreditou, né. Naquele tempo imagina, era só um branco aparecer que o povo acreditava em tudo o que a pessoa falava”. O dr (o advogado) era uma pessoa boa , de família muito boa tinha estudo. Qualquer um com um pouco mais de estudo que chegasse enganava eles( a comunidade). Eles se governavam naquele pedaço (as terras), que eles tinham como era deles mesmo né. E o Rupp ficou de legalizar outra parta que ta fora e pegou e dividiu aquele que eles já estava se mandando. E as vez de ele aumentar ele diminuiu. Tirou metade da parte que eles [os herdeiros] estavam se governando...107
Neste depoimento, o “outro” está representado pelo homem branco, o advogado, proprietário de uma companhia de colonização, que defendia o interesse do mercado das terras. De acordo com o entendimento da comunidade de herdeiros, as terras da
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Ver Eduardo (1974) e Digiacomo (1991)
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Depoimento de Sebastião Fernandes de Sousa, herdeiro de mais de 70 anos, moradora da cidade de Campos Novos (SC).
Invernada dos Negros eram de usufruto comum e perpétuo como condicionava a cláusula do testamento. Porém, o advogado interessava-se em transformar as terras, “inalienáveis” e “indivisíveis”, em áreas disponibilizadas para o projeto de mercado de terras. No depoimento acima, o outro/branco também é apresentado como forma de demarcar a diferenciação étnica. De um lado encontram-se os brancos, que chegam com ‘boa pinta’, com o status de coronel e, de outro lado, os negros, que acreditaram poderem confiar na autoridade que aquela pessoa representava.
Figura 4
Mapa das áreas de litígio das terras da Invernada dos Negros
Fonte: Boletim Informativo do Nuer, v. 3, n. 3, 2006.
O depoimento acima evidencia ainda uma constatação que permeou historicamente as relações de grupos subalternos108 com as sociedades envolventes: de que as relações travadas com os “outros” eram desiguais e orientadas por preceitos de
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Adoto o termo de acordo com José Jorge de Carvalho ao enfocar a ‘voz nativa’ sem retirar-lhe o conteúdo de voz subalterna, afirma o autor: “a voz nativa ainda não é vista como voz subalterna.” (2001, p. 128)
diferenciações étnicas que justificavam a hierarquização e a desvalorização dos negros. Nesse caso, tal relação, que levou à restrição e ao cerceamento da liberdade e da autonomia do grupo, pode ser verificada pela afirmação de que a ação: “tirou metade da parte que eles [herdeiros] estavam se governando”, como fala seu Sebastião.
Uma outra lembrança relacionada a essa, diz respeito à disputa de uma área de terras denominada Invernadinha. Tal área também foi requisitada pelos herdeiros para demarcação dentro da ação de divisão, porém não foi incluída nessa ação porque já estava sendo ocupada e requerida juridicamente por um fazendeiro, que a registrou alegando constituir pagamento de dívidas dos herdeiros ao fazendeiro109. Para os atuais herdeiros, tais motivos nunca foram conhecidos ou esclarecidos. No entendimento deles, a promessa de resolução da questão pelo advogado que cuidou da ação não se realizou, e até hoje permanecem dúvidas sobre o que realmente aconteceu.