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Capítulo 3: A Docência Compartilhada, a transição e saberes profissionais: sob a luz de alguns

3.1 A Docência Compartilhada no Ciclo Interdisciplinar: conceito

O Ciclo Interdisciplinar é formado pelos 4º, 5º e 6º anos do EF. Segundo o documento que subsidiou a implantação do Programa “Mais Educação São Paulo”

(2014, p. 78), esse ciclo deverá dar “[...] continuidade ao processo de alfabetização/letramento, de modo a ampliar a autonomia nas atividades de leitura, de escrita e as habilidades relacionadas à resolução de problemas. [...]”. Ou seja, consolidar e avançar as aprendizagens do Ciclo de Alfabetização.

De acordo com a nota técnica número 17, que compõe esse mesmo documento (2014, p. 109) e trata da composição da jornada docente no 6ºmano do ciclo interdisciplinar, um dos objetivos desse ciclo é:

atenuar a passagem dos anos iniciais para os anos finais, trazendo um professor de referência para o grupo classe, introduzindo a conexão entre as áreas do conhecimento, através de projetos realizados em parceria entre os professores especialistas/professores do ensino Fundamental II e o professor polivalente/professor de Educação Infantil-Ensino Fundamental I, para uma intervenção didático-pedagógica mais adequada a esse grupo.

O artigo 5º da Portaria 5930/13, que regulamentou a implantação do Programa Mais Educação explicita a proposta e finalidade de integração e de continuidade desse Ciclo:

Ciclo Interdisciplinar: compreendendo do 4º ao 6º ano do Ensino Fundamental, com a finalidade de aproximar os diferentes ciclos por meio da interdisciplinaridade e permitir uma passagem gradativa de uma para outra fase de desenvolvimento [...].

Nas condições explicitadas na legislação e no Programa de Reorganização Curricular (2013), o Ciclo Interdisciplinar assume a posição de intermediário ou podemos dizer, central, pois nele deve ocorrer a continuidade do processo de ensino/aprendizagem iniciado no Ciclo de Alfabetização por meio de práticas pedagógicas interdisciplinares. Trata-se de um Ciclo de integração e continuidade, um momento de continuidade, assim como o Ciclo Autoral, pois as práticas com projetos interdisciplinares darão subsídios aos(às) estudantes para elaborarem seus próprios projetos de intervenção social.

Esse Ciclo é apresentado no Programa “Mais Educação São Paulo” como um ciclo que apresenta diferentes infâncias, na medida em que trata de crianças entre nove e 11 anos.

O documento “Diálogos Interdisciplinares a caminho da autoria”, aponta que não é possível definir uma única concepção de infância:

É impossível traçar uma definição homogênea da criança do ciclo interdisciplinar sem o risco de uma conceituação abstrata e empobrecedora, ainda que, da perspectiva biológica, ocorram transformações que possam caracterizar a infância na especificidade da faixa etária e que, com base na psicologia do desenvolvimento, sejam apontadas determinadas características dos sujeitos e de seus processos de aprendizagem (SÃO PAULO, 2016a, p. 36-37).

O documento reconhece que esses(as) estudantes ainda são crianças, e crianças diferentes. Dessa forma, esse aspecto também precisa ser considerado nesse período de transição.

Foi prevista para até 20199 uma ação docente com a interação de disciplinas a partir da DC no Ciclo Interdisciplinar.

Carneiro (2015, p. 47) define a DC como “[...] arranjos disciplinares para integrar o trabalho docente, propiciando um processo de ensino desenvolvido a partir do conjunto dos objetivos e planejamentos para a garantia da aprendizagem”.

Nunes (2018, p. 68), ampliando a definição de Carneiro (2015), afirma que a DC

[...] é uma modalidade de docência que, conforme sua denominação sugere, é desenvolvida por mais de um professor(a), se configurando a partir desse desenvolvimento conjunto, como uma ação interdisciplinar que, por assim ser, se faz marcada por ações

9 De acordo com o contido no artigo 5º da Instrução Normativa SME nº 5 de 2019, Os professores designados para as funções de Professor Orientador de Educação Digital POED e Professor Orientador de Sala de Leitura – POSL, com aulas de TCA atribuídas para a composição da Jornada de Trabalho/

Opção, prevista nas Instruções Normativas SME nº 30/2019 e nº 34/2019, atuarão de forma integrada e em docência compartilhada com os professores responsáveis pelo desenvolvimento do trabalho. Também há a revogação do parágrafo 3º do artigo 7º e do artigo 8º da Portaria SME 5930/2013 que referiam-se a organização da DC no Ciclo Interdisciplinar:

§ 3º: Nos 4ºs e 5ºs anos do Ensino Fundamental, deverão ser programadas,

respectivamente, um e dois tempos equivalentes aos de horas-aula destinados a orientação de “Projetos”, ministradas dentro da carga horária regular dos educandos e em docência compartilhada com o Professor de Educação Infantil e Ensino Fundamental I.

Art. 8º: No Ciclo Interdisciplinar, os 6ºs anos do Ensino Fundamental serão ministrados pelo Professor de Ensino Fundamental II e Médio em docência compartilhada com o Professor de Educação Infantil e Ensino Fundamental I, observadas as seguintes regras: I A docência compartilhada dar-se-á, preferencialmente, nas aulas de Língua Portuguesa e de Matemática; II – O número de aulas a serem compartilhadas será de 04 aulas em todas as Unidades Educacionais. III – Excepcionalmente, para o ano de 2014, as aulas referidas no inciso anterior, observarão ao que segue: a) 12 aulas, nas Unidades Educacionais que contarão com apenas um ou dois 6ºs anos; b) 08 aulas, nas Unidades Educacionais que contarão com três 6ºs anos; c) 06 aulas, nas Unidades Educacionais que contarão com quatro 6ºs anos. IV – A docência compartilhada tem por finalidade atenuar a passagem dos anos iniciais para os anos finais do Ensino Fundamental, por meio da instituição de um professor referência para a classe, conectando as áreas de conhecimento através de “Projetos”, favorecendo a intervenção didático-pedagógica mais adequada a esse grupo.

combinadas e/ou pensadas por eles(as) para o alcance dos mesmos propósitos.

O principio proposto da DC corrobora o do parecer CNE/CEB de 11/2010 que, em seu texto, explicita que os ciclos como organização integradora:

[...] concorrem, juntamente com outros dispositivos da escola calcados na sua gestão democrática, para superar a concepção de docência solitária do professor que se relaciona exclusivamente com sua turma, substituindo-a pela docência solidária, que considera o conjunto de professores de um ciclo responsável pelos alunos daquele ciclo, embora não eliminem o professor de referência que mantém um contato mais prolongado com a classe (DCNEB, 2013, p. 122).

Dessa forma, a viabilização da partilha do trabalho curricular ocorrerá a partir da integração, ou melhor, colaboração entre professores(as) polivalentes e especialistas.

De acordo com a Reforma:

Diante dessa integração e compartilhamento dos alunos, no Ciclo Interdisciplinar, podem: consolidar o processo de Alfabetização/Letramento, com autonomia para a leitura e escrita, interagindo com diferentes gêneros textuais e literários e comunicando-se com fluência; Vivência de processos individuais e coletivos sobre a cultura e o território, com a elaboração de projetos fazendo uso de recursos convencionais e das novas tecnologias da informação e comunicação (SÃO PAULO, 2013d, p. 35)

O documento também traz a definição de DC:

O principio da docência compartilhada pressupõe o planejamento conjunto dos professores especialistas/professores do Ensino Fundamental II e do professor polivalente/Professor de Educação Infantil e Ensino Fundamental I, de acordo com o Projeto Político Pedagógico (PPP) de cada Unidade Educacional, articulados pelo coordenador pedagógico, de forma que o trabalho de um não se sobreponha ao do outro – eles se complementam. Docência Compartilhada é marcada pela corresponsabilidade dos professores do Ciclo Interdisciplinar (4º, 5º e 6º anos) no planejamento dos cursos, na organização da estrutura dos projetos, na abordagem interdisciplinar das diferentes atividades em sala, no acompanhamento e avaliação das dinâmicas de aprendizagem do grupo-classe e dos estudantes individualmente fora ou dentro do espaço da sala de aula (SÃO PAULO, 2013c, p. 36).

De acordo com a definição, o Ciclo Interdisciplinar acolhe os estudantes do Ciclo de Alfabetização e os prepara para a finalização do Ensino Fundamental para a continuidade nos anos finais. Conjecturamos que a transição não é mais pensada do 5º para o 6º ano, mas a partir do 4º ano e durante toda a realização do Ciclo

Interdisciplinar, sendo seu objetivo, através das estratégias que o compõem, qualificar as interações entre professores e estudantes e realmente promover uma passagem mais branda para os anos finais do EF.

De acordo com Caussi (2013), a Docência Compartilhada é “uma ação docente compartilhada entre dois professores em sala de aula”.

Assim, na docência compartilhada, ambos têm responsabilidade ativa no fazer, um não menos do que o outro. Porém, pode-se pensar que esse fazer é permeado por conflitos de diversas ordens (conceituais, metodológicas, de conhecimentos, etc.), pois não é comum compartilhar a docência. Um professor de Matemática, por exemplo, tem conhecimento especializado de sua disciplina, já o professor polivalente (pedagogo) tem um conhecimento mais geral dos componentes curriculares e um pouco mais aprofundado das metodologias. Como se articulam esses conhecimentos na realidade da docência compartilhada?

Segundo Ribeiro

Para além de um conhecimento matemático necessário para saber fazer – conhecimento matemático comum –, os professores necessitam de um conhecimento matemático especializado para o ensino (RIBEIRO, 2013, p. 6).

Nessa atuação compartilhada, ambos possuem conhecimentos especializados de sua área de atuação, alguns similares, outros distintos, mas que precisam ser mobilizados na docência compartilhada ou, até mesmo, outros conhecimentos podem ser elaborados por esses(as) docentes. Essa é uma preocupação também deste estudo.

Cada um desses (as) docentes possui características em relação a aspectos culturais, saberes, valores e identidade que foram desenvolvidas ao longo de sua trajetória profissional. Uma coisa é a situação em que ele(a) sozinho(a) é responsável pela regência de uma classe, outra é compartilhar essa regência com colega de outra área e que também tem sua própria trajetória profissional construída. Nesse compartilhamento (ou não), estão presentes também algumas especificidades como crenças, opiniões, cultura e princípios. Dessa forma, este trabalho buscou compreender o desenvolvimento profissional por meio da socialização profissional entre esses(as) professores(as) no processo de docência compartilhada.

Segundo Gimeno Sacristán (1998), as transições entre estágios e etapas de subculturas podem ser caracterizações de fenômenos e de tempos inerentes à vida dentro dos sistemas escolares, querendo apontar momentos cruciais para o futuro, saltos

e descontinuidades dos(as) alunos(as) na evolução da experiência escolar. As transições apontam momentos de nascimento de novas realidades, etapas de crises ou de indefinição em que se sabe de onde se sai, mas não está claro aonde vai chegar e em que estado, se permanecerá neutro, sua identidade é alterada e talvez até abalada. Nessa perspectiva, a docência compartilhada seria uma ação para auxiliar o(a) aluno(a) na passagem para essa nova realidade.