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Além do estudo do patriarcado e suas problemáticas, é importante nesta pesquisa um debate teórico a respeito dos conceitos condicionados de dominação masculina, relações de poder, sexismo e androcentrismo para adentrarmos um pouco na discussão a respeito de gênero. Nesse contexto, limitar-me-ei a apresentar a abordagem teórica que dá suporte a esta pesquisa, que é a questão do gênero como categoria de análise para a aplicação da constelação nas demandas que envolvam violência doméstica contra a mulher, sob a perspectiva das relações conjugais e afetivas.

No tocante ao estudo do feminismo, Simone de Beauvoir (1970) em sua obra ―O Segundo Sexo‖, faz um estudo sobre a mulher na sociedade, enfatizando a ideia que ninguém nasce mulher, mas torna-se mulher. A autora pesquisou o que é ―ser mulher‖, passando pela construção histórica e social deste papel, tanto quanto a submissão dela em relação ao outro sexo, não por fatores biológicos ou psicológicos.

Nesta obra, a autora discorre e analisa historicamente, por meio da literatura e dos mitos, como a mulher ocupou uma posição tão diferente da do homem na sociedade, e iremos estudar os papéis sociais atribuídos à mulher, bem como as crenças limitantes em relação à posição social da mulher e os mitos clássicos do ―eterno feminino

‖.

Numa perspectiva histórica, importante acrescentar o pensamento de Ângela Davis (2016) que registra a questão da escravidão e do modo de produção capitalista e seus consequentes legados, com a cristalização de estruturas racistas, classistas e sexistas. O olhar da autora aprofunda o estudo do feminismo e a violência contra a mulher, levando em conta a questão racial. Ela expande esse olhar sobre a violência contra a mulher, na medida em que deixa clara a impossibilidade de se pensar a questão da violência sem se ter em conta a questão racial e de classe, ao trazer as narrativas históricas que marcaram nossa sociedade capitalista e que influenciam nossa compreensão de mundo.

A dominação masculina encontra, assim, reunidas todas as condições de seu pleno exercício. A primazia universalmente concedida aos homens se afirma na objetividade de estruturas sociais e de atividades produtivas e reprodutivas, baseadas em uma divisão sexual do trabalho de produção e de reprodução biológica e social, que confere aos homens a melhor parte, bem como nos esquemas imanentes a todos os habitus, moldados por tais condições, portanto objetivamente concordes, eles funcionam como matrizes das percepções, dos pensamentos e das ações de todos os membros da sociedade, como transcendentais históricos que, sendo universalmente partilhados, impõem-se a cada agente como transcendentes. Por conseguinte, a representação androcêntrica da reprodução biológica e da reprodução social se vê investida da objetividade do senso comum, visto como senso prático, dóxico, sobre o sentido das práticas. E as próprias mulheres aplicam a toda a realidade e, particularmente, às relações de poder em que se vêem envolvidas esquemas de pensamento que são produto da incorporação dessas relações de poder e que se expressam nas oposições fundantes da ordem simbólica. Por conseguinte, seus atos de conhecimento são, exatamente por isso, atos de reconhecimento prático, de adesão dóxica, crença que não tem que se pensar e se afirmar como tal e que ‗faz‘, de certo modo, a violência simbólica que ela sofre (BORDIEU, 2003, p. 45).

Dentro desse contexto:

[..] a visão androcêntrica é continuamente legitimada pelas próprias práticas que ela determina: pelo fato de suas disposições resultarem da incorporação do preconceito desfavorável contra o feminino, instituído na ordem das coisas, as mulheres não podem senão confirmar seguidamente tal preconceito (BORDIEU, 2003, p. 44).

Como denuncia Bourdieu, o mundo social é construído de tal forma que a divisão entre os sexos parece estar ―na ordem das coisas‖, ser normal, natural, dóxica, que chega a funcionar como sistemas de percepção, de pensamento e de ação. As mulheres vivem, segundo o autor, uma espécie de ―cerco invisível‖, uma espécie de ―confinamento simbólico‖ em que chegam, elas próprias, a reproduzirem a superestrutura de dominação na qual são vítimas, mas que ―são produto de um trabalho incessante (e, como tal, histórico) de reprodução, para o qual contribuem agentes específicos (entre os quais os homens, com suas armas como a violência física e a violência simbólica) e instituições, famílias, Igreja, Escola, Estado‖ (BORDIEU, 2003, p. 46).

Temos aqui o que Carl Jung (2000, p. 63) denomina de preponderância do coletivo e alienações do si-mesmo, ou seja, ―modos de despojar o si-mesmo de sua realidade, em benefício de um papel exterior ou de um significado imaginário‖. Completa o psiquiatra: ―a renúncia do si-mesmo em favor do coletivo corresponde a um ideal social; passa até mesmo por dever social e virtude‖.

Esse poder simbólico masculino, patriarcal, proveniente da visão androcêntrica cultivada por tempos imemoriais, está profundamente gravado na memória coletiva, como algo tão natural que chega a aprisionar os sujeitos pela ―política geral da verdade‖

que é construída e reconstruída continuamente pela sociedade.

Essa construção social e cultural das diferenças sexuais ficou definida como ―gênero‖. Uma historiadora norte-americana, pesquisadora na área de trabalho e movimentos sociais, Joan Scott, revela a sexualização do discurso historiográfico e nos traz a percepção de que as subjetividades são históricas e não naturais, o que Bordieu também afirma, daí a necessidade de não adotar-se o ―sujeito universal‖ para a análise das relações de gênero, mas preservar a identidade feminina quando nos propomos a estudar temas relativos às mulheres.

Dentro do analisado neste capítulo, concluímos que as subjetividades são históricas e não naturais, não biologicamente determinadas, aspectos que são observados noutras construções de identidade.

Segundo Rago (1998, p. 89-98), é importante compreender a dissolução do sujeito operada por Foucault, ao questionar a naturalização do sujeito e as objetivações operadas por práticas discursivas dominantes:

Na perspectiva foucaultiana, é bom lembrar, a identidade é outra das grades que nos encerra, sobretudo a partir do século 19, assim como os micropoderes da vida cotidiana, com que convivíamos até então com certa normalidade. O filósofo denuncia a armadilha de que temos sido vítimas ao tomarmos um modo histórico de produção da subjetividade, marcado fundamentalmente pela dimensão da sujeição na sociedade burguesa, desde fins do século 18, como sendo natural para qualquer momento histórico. Nessa perspectiva, o indivíduo é uma construção relativamente recente, assim como o próprio social.

Michel Foucault, filósofo e psicólogo, especialista em patologia, estudou o sistema penitenciário, a instituição escolar, a sexualidade, a psiquiatria e a psicanálise tradicional. Passou por internação manicomial devido ao uso de drogas diversas, bebida excessiva, tentativas de suicídio e pela sua condição sexual. Trabalhou as formas de controle e de doutrinamento dos corpos, domesticados em prol de condutas desejáveis pela sociedade.

Em sua obra Vigiar e Punir, Foucault traça o histórico da arte de punir até chegar à sociedade disciplinar. No início desta obra, ele relata a história do suplício, que, até o fim do século XVIII, tinha a função de restabelecer a ordem e o poder do soberano, jurídica e politicamente; passa pelo fim do suplício no final do século XVIII e início do século XIX, em que se exclui o castigo e a pena não envolve mais o sofrimento, mas se desloca para a restrição da liberdade, até a troca pela punição humanitária, em que a punição deixa de ser um ato desmedido de vingança para uma medida voltada a garantir o bom funcionamento da sociedade. Nessa época, o desviante deixa de ser inimigo do rei e passa a ser inimigo social, tornando-se perigoso por descumprir o pacto social.

Com o passar das gerações, observa-se que controlar é mais efetivo que violentar, motivo pelo qual é colocado em prática, segundo Foucault, o ajuste constante do homem ao seu meio, a fim de adaptá-lo à vida social, no que ele denominou de ―sociedade disciplinar‖.

Esta disciplina descrita por Foucault representa um conjunto de técnicas para gerir homens e mulheres, sendo a função produzir mais e melhor. A produção se multiplica, o corpo nunca se cansa, o trabalho nunca acaba. Para o adestramento, é utilizado o olhar hierárquico, já que o sujeito pode ser visto e fiscalizado a todo momento, a sanção normalizadora, verificando-se o desempenho do indivíduo, recolocando-o na rota de normalidade; e o exame no qual o indivíduo tem sua vida esmiuçada, detalhada, violentada por processos de marcação, classificação e objetivação. Segundo Foucault (2014), em nossa subjetividade moderna, todos nós estamos presos.

Nesse contexto, no tocante às relações de poder, importante contribuição a esta pesquisa é se conceito (Foucault, 2014), ao tratar da construção teórica dos ―corpos dóceis‖, isto é, do corpo como um local de poder, como um locus de dominação por meio do qual a docilidade é perpetuada, a subjetividade constituída, além da utilização do discurso para sustentar formas de dominação. Nesse conceito de ―corpos dóceis‖, temos corpos adestrados após desenvolverem reflexos de submissão: paciência, obediência e resiliência. Esta disciplina é reproduzida nas escolas, no trabalho, na prisão, nas igrejas e nas instituições psiquiátricas. Segundo Foucault, as relações de poder têm alcance imediato sobre o corpo.

Quantas mulheres não se sentem na obrigação de agradar o marido, manter a família a qualquer custo (mesmo que isso lhe custe a violação de direitos sexuais e a própria integridade física), serem femininas (o que implica muitas vezes obediência a leis impostas pelo pai ou marido), etc.?

Para compreender a violência contra a mulher, faz-se necessário em um primeiro momento enxergá-las e a seus corpos sob o olhar e o discurso dos homens, bem como os locais destinados socialmente e culturalmente às mulheres e as limitações seculares impostas aos espaços de fala e de atuação, com a reprodução das subjetividades impostas pelas sociedades.

Outro conceito que utilizamos, na análise dos casos, é a ideia da ―tecnologia política do corpo‖, da microfísica do poder exercida sobre esses corpos de forma estratégica e a rede de relações que passam a governar por meio de discursos e de

sistemas de sujeição.

Assim, ao denunciar outras formas de prisão e de sujeição, observamos muitas mulheres presas em seus lares, que passam a não ser mais um ambiente de amor e partilha, mas de violação de direitos humanos, em que mundos femininos são marcados pela submissão silenciosa, sob o discurso de que isso é ser mulher.