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O COHECIMETO POSSÍVEL SEGUDO PASCAL

3. A Doutrina da Queda

A Teologia constitui o lugar da verdade por excelência, como o autor afirma no Entretien: “é difícil não tratá-la (da teologia) quando se investiga qualquer verdade porque ela é o centro de todas as verdades” (Entretien, 1960, p. 59) e surge, assim, como o lugar privilegiado para falar da verdade sobre o homem e sua condição. Mais precisamente, é a Doutrina da Queda que será capaz de explicar as contrariedades no conhecimento e da natureza humana. Como bem observa Maia Neto, Pascal encontrou nela a melhor hipótese para explicar todas as contradições que ele observou empiricamente46.

Assim, encontramos o tema da Doutrina da Queda no terceiro movimento do Fr.

131/434, bem como no Entretien. Pascal assim a apresenta:

Coisa espantosa, entretanto, é que o mistério mais distante do nosso conhecimento, que é o da transmissão do pecado, seja algo sem o que não podemos ter nenhum conhecimento de nós mesmos. Pois não há dúvida de que nada existe que choque mais a nossa razão do que dizer que o pecado do primeiro homem tenha tornado culpados aqueles que, estando tão afastados dessa origem, parecem incapazes de dele participar.

(...) Nada por certo nos choca mais rudemente do que essa doutrina. E no entanto, sem esse mistério, o mais incompreensível de todos, somos incompreensíveis a nós mesmos. O enredamento de nossa condição assume as suas implicações e formas nesse abismo. De maneira que o homem é mais inconcebível sem esse mistério do que esse mistério é inconcebível para o homem. (...) Esses fundamentos solidamente estabelecidos sobre a autoridade inviolável da religião dão-nos a conhecer que há duas verdades de fé igualmente constantes. Uma, que o homem no estado de criação, ou no da graça, é elevado acima de toda a natureza, torna-se como que semelhante a Deus e participante da divindade. Outra, que no estado da corrupção e do pecado, decaiu

46 - Cf. MAIA NETO, 1995, p. 219. Como ele também afirma em outro artigo (Cf. 2006, p. 238), o trajeto do Fr.

131/434 tem o objetivo de apontar o valor da fé cristã: “O argumento busca mostrar que só a revelação sobrenatural cristã, fundamentalmente a Doutrina da Queda, é capaz de explicar e solucionar as contrariedades humanas morais e epistemológicas que são somente parcialmente apontadas pelas filosofias pagãs desprovidas da revelação”.

desse estado e se tornou semelhante aos bichos. Essas duas proposições são igualmente sólidas e certas. (Fr. 131/434).

O tema da Doutrina da Queda ou do Pecado Original é esse princípio explicativo capaz de esclarecer a duplicidade do homem. Trata-se, todavia, de um mistério revelado pela religião, contrário às explicações racionais. Mas, como Pascal mesmo afirma em outro lugar:

“tudo o que é incompreensível não deixa de ser” (Fr. 149/430). O primeiro pecado, ou original, mesmo que não seja compreendido racionalmente não deixa de existir e ter suas consequências. Para Chevalier, esse mistério continua para além de um julgamento da razão, visto que ele é incompreensível segundo as regras da razão47.

A doutrina assim ensina que há duas naturezas igualmente verdadeiras no homem: a natureza antes do pecado e a natureza humana depois do pecado. Essa divisão marca dois estados diferentes, em vários aspectos: epistemológico, moral, e religioso.

Ao tratarmos da Doutrina da Queda em Pascal é inevitável voltarmos à filosofia de Santo Agostinho. Podemos afirmar, sem dúvida, que é nesse pensador que Pascal busca as bases teológicas de sua Apologia. É esse um dos temas do escrito de Pascal, denominado Escritos sobre a Graça (Écrits sur la Grace48). No “segundo escrito”, Pascal expõe detalhadamente a Doutrina da Queda de Santo Agostinho, dividindo o texto em dois momentos: antes do pecado de Adão (avant le péché d’Adam) e depois do pecado de Adão (après le péché d’Adam). O homem foi criado, segundo a doutrina de Santo Agostinho, e que também é assumida por Pascal, com uma natureza santa, justa e forte, sem concupiscência e com o livre-arbítrio indeterminado. O homem também foi criado com uma graça necessária ao cumprimento dos preceitos. Assim, “seu livre arbítrio poderia, como mestre dessa graça suficiente, torná-la vã ou eficaz, segundo sua vontade.” (PASCAL, 1963, p. 317) A passagem

47 - Conf.: CHEVALIER, 1946, p. 71

48 - Os “Escritos sobre a Graça” (ainda sem tradução), discutem a questão da graça a partir de três doutrinas:

agostiniana, molinista e calvinista. Edição por nós utilizada: Œuvres Complètes. Paris: Ed. du Seuil, 1963.

de um estado ao outro, no entanto, dá-se pelo mau uso de sua liberdade de Adão. Este livremente escolhe pecar e distanciar-se dessa condição perfeita: “Adão, tentado pelo Diabo, rende-se a tentação, revolta-se contra Deus, infrigindo seus preceitos, querendo ser independente e igual à Deus” (PASCAL, 1963, p. 317). A consequência imediata da queda foi a existência da morte como punição. Para Pascal, a mudança do agir das faculdades humanas será um aspecto central. A vontade, antes indiferente, deixa-se tomar pela concupiscência e tende para os objetos do corpo. É nesse momento que um espírito santo, justo e iluminado fica na ignorância e nas trevas. Entendemos que a falta de luz e a ignorância referem-se ao conhecimento do homem. Os aspectos apontados por Pascal, da transmissão do pecado e de o porquê o pecado de um homem ter levado à condenação de todos, é justificada com a idéia de que na criação do primeiro homem está representada toda a humanidade, de modo que a ação do primeiro implica em si a ação de todos: “Deus criou o primeiro homem e nele toda a natureza humana” (PASCAL, 1963, p. 317) Desse modo, a punição recaiu sobre todos. Essa ideia pode ser totalmente estranha à razão, mas está contida na mistério da doutrina cristã.

Importa que o estado atual de conhecimento do homem é de uma natureza modificada pelo pecado e que não possui os conhecimentos anteriores.

Não concebemos o estado glorioso de Adão, nem a natureza do seu pecado, nem a transmissão que dele se fez em nós. São coisas que aconteceram no estado de uma natureza totalmente diferente da nossa e que ultrapassam o estado de nossa capacidade presente. É inútil sabermos dessas coisas para sair de tudo isso; e tudo que nos importa conhecer é que somos miseráveis, corruptos, separados de Deus, mas resgatados por Jesus Cristo; e disso que temos provas admiráveis na terra. (Fr. 431/560)

Para Pascal o conhecimento da natureza, ou estado atual da natureza, além de explicativo, é importante para a compreensão do próprio homem. Essa verdade sobre o estado do homem é de outra ordem, para além da filosofia. Ela pertence à revelação e pode ser

apreendida somente pela fé. Nesse aspecto, concordamos com a comentadora Birchal, que enfatiza: “A verdade moral só se realiza uma vez que se sai do domínio da filosofia para o da revelação: a grandeza do homem só se compreende plenamente no horizonte da história da criação e da queda, na afirmação de uma primeira natureza para além da natureza decaída, pela qual ‘o homem ultrapassa o homem (Fr. 131/434)” (BIRCHAL, 2002, p.70). Não desenvolveremos aqui, mas é a figura de Cristo o centro da temática da reconciliação do homem para com Deus. É nele que Pascal encontra a conciliação possível entre o homem pecador (Adão) e o salvador.

Admitindo com Pascal esse evento teológico, é possível estabelecer uma ligação entre a Doutrina da Queda e o problema da verdade dos princípios. A duplicidade do homem, refletida em sua natureza, também se encontra presente em seu conhecimento. O estado anterior ao pecado corresponde àquilo que seria o método ideal da geometria no qual haveria um conhecimento completo. Mas o que resta é somente o “sentimento” de algumas verdades;

mais precisamente, a indubitabilidade dos primeiros princípios, defendida pelos dogmáticos ou estado de grandeza de Epicteto. Ao estado depois do pecado corresponde a situação de dúvida e incerteza do homem, representada pela posição dos céticos, descrita em Montaigne.

Enfim, o erro tanto de céticos quanto de dogmáticos é não perceberem essa diferença de natureza e achar que estão falando da mesma natureza, enquanto se trata de dois estados distintos. Como bem explica Maia Neto: “Céticos e dogmáticos atribuem respectivamente a impossibilidade e a possibilidade do conhecimento a uma só natureza. (...) a contradição se resolve ao se levar em conta a Doutrina da Queda e das duas naturezas ou estados por ela implicada. A queda foi, entre outras coisas, da certeza e do conhecimento para a dúvida e a ignorância. A filosofia não pode prescindir da teologia. Não há verdade última meramente racional, isto é, que a razão possa estabelecer sem o auxílio sobrenatural da revelação.” (Maia

Neto, 1995, p. 216) A relação entre filosofia e teologia estará sempre presente nos textos pascalianos, podendo tornar-se objeto de futuros trabalhos.

COCLUSÃO

Submissão.

Deve-se saber duvidar onde é preciso, ter certeza onde é preciso, submetendo-se onde é preciso. Quem não faz assim não ouve a força da razão. Existem pessoas que falham nesses três princípios: ou tendo certeza de tudo como demonstrativo, falta conhecer-se em demonstração; ou duvidando de tudo, falta de saber onde é preciso se submeter; ou submetendo-se a tudo, falta de saber onde é preciso julgar.

Pirrônico, geômetra, cristão: dúvida, certeza, submissão. (170/268)

Muito embora, à primeira vista, essa citação pareça destoar de nosso percurso, ela contempla o esforço explicativo proposto nessa Dissertação. As três figuras: pirrônica, geômetra e cristã correspondem, mesmo que indiretamente, aos modelos dos quais tratamos.

No capítulo I vimos, com o pirronismo, quando e como o uso da dúvida pode ser desenvolvido para “saber duvidar onde é preciso”. Não podemos deixar de lembrar que a fonte das principais dúvidas dos céticos pirrônicos era as Meditações cartesianas. É nela que Pascal encontra os argumentos fortes dos pirrônicos e os desenvolve para além de Descartes.

O bom desenvolvimento dos argumentos da origem do homem e do sonho permitem a conclusão deste capítulo: a impossibilidade de conhecer os princípios.

No Capítulo II, todavia, Pascal enuncia a força dos dogmáticos em apenas uma proposição: a impossibilidade de duvidar dos mesmos princípios naturais. Para a compreendermos tivemos que investigar outros termos do vocabulário de Pascal e, principalmente, conciliá-la com a conclusão dos argumentos céticos acerca do conhecimento desses mesmos princípios: “(...)não temos nenhuma ideia da verdade dos princípios sendo então ilusões todos os nossos sentimentos.” (Fr. 131/434) Pascal mostra que a impossibilidade de duvidar dos dogmáticos é de uma ordem diferente da dúvida dos céticos. A afirmação da

certeza dos princípios naturais deve-se em função de uma nova definição da faculdade da razão (representada pela geometria) e o surgimento do conceito de coração. Ele possui o sentimento dos primeiros princípios e serve de base à razão. Além do mais, vimos que os princípios são constituintes do próprio corpo, provando uma impossibilidade prática em duvidar deles. Esse modo de afirmar certezas depende de vários elementos: limitação da razão; cooperação entre razão e coração e o papel do sentimento dos princípios.

O Capítulo III, em nossa Dissertação, representa um modo de compreender e conciliar o problema proposto acerca do conhecimento dos primeiros princípios. A análise da força dos céticos e da força dos dogmáticos não nos trouxe uma solução, mas acentuou ainda mais a oposição e a distância entre suas conclusões. O homem está numa situação de instabilidade.

Analisando outro texto de Pascal, o Entretien avec M. de Sacy, vimos que o debate entre céticos e dogmáticos pode ser transposto e comparado ao problema trabalhado neste texto, entre Epicteto e Montaigne. Esses dois filósofos são apresentados como representantes de duas posições opostas sobre a natureza humana: um, Epicteto, representa os deveres e a grandeza; outro, Montaigne, descreve as incertezas e a miséria. O problema é que cada uma dessas posições, separadamente, possui problemas, mas também não é possível uni-las em busca de uma moral perfeita. Resta que, para compreendê-las, é preciso julgá-las a partir de outra perspectiva e, para Pascal, deve-se julgá-las pelas verdades da Teologia. No que denominamos de terceiro movimento argumentativo do texto, o autor busca na teologia uma doutrina que conciliaria ambas as posições. Trata-se da Doutrina da Queda, que explica a presença de duas naturezas opostas no homem: a natureza antes do pecado e a natureza depois do pecado. Ela seria a causa das contrariedades encontradas e refletidas nas filosofias de Epicteto e Montaigne. Certamente o espaço dedicado a esse tema é muito pequeno, dada a sua consequência na obra pascaliana. Abordamos brevemente esse tópico com o intuito de

deixarmos possibilidades de futuros temas a serem pesquisados. Importa no momento que o aparecimento dos temas teológicos permitem entendermos um pouco mais tanto o problema da duplicidade da natureza humana quanto a duplicidade nas afirmações acerca do conhecimento dos primeiros princípios. Sobre esse que foi nosso problema a ser enfrentado neste trabalho, podemos afirmar que a Doutrina da Queda também esclarece as duas posições de céticos e dogmáticos. É possível haver a posição cética das dúvidas sobre os princípios, dada a natureza decaída do homem. Trata-se de um ceticismo epistemológico possível, dado o desenvolvimento das dúvidas. Isso, no entanto, não implica a exclusão de algum tipo de conhecimento ou certeza. Desse outro aspecto, da primeira natureza, é possível afirmar algumas verdades, não com base na razão (Pascal faz a crítica ao racionalismo, principalmente o cartesiano), visto que ela possui um limite cognitivo, mas com base no coração. Ele pode sentir os primeiros princípios e ser a base para a geometria operar. Também a sensação dos princípios confirma-se pelo própria natureza corporal. Por fim, a compreensão da natureza humana e de seus limites é possível a partir de outra instância para além da própria filosofia. A figura do cristão passa a ser como aquele que pode passar da filosofia à fé.

Excluído: estar presente

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