1.1 ÊXTASE
2.1.4 A Doutrina Kardecista
A doutrina kardecista está expressa nas obras expostas aqui, constituindo o ‘cerne da doutrina espírita’, que pode ser sintetizada nos seguintes pontos ou proposições (VILHENA, 2008):
x Crença na existência de um Deus único e criador do mundo;
x Crença na sobrevivência do ser humano, alma ou espírito, após a morte física;
x Existência da reencarnação da alma ou espírito em vários corpos, com o objetivo de alcançar a perfeição espiritual, ou seja, evolucionismo espiritual; x Diferenciação e separação dos espíritos e almas em graus de adiantamento
espiritual, o que determina a sua posição e localização num outro mundo, ou mundo dos espíritos;
x Possibilidade de comunicação e interação entre os vivos e os mortos, através de algumas pessoas que possuem dom ou faculdade especial, chamada mediunidade;
x Colocação da mediunidade como uma faculdade natural, com características físicas e biológicas ainda não explicadas pela ciência comum, que é ‘dada’ a algumas pessoas com um objetivo ou finalidade de favorecer a comunicação entre os vivos e os mortos;
x Crença na existência de vários mundos habitados;
x Colocação da existência de guias ou mentores, espíritos adiantados, que podem ajudar os vivos;
x Colocação da existência de espíritos inferiores, que podem prejudicar ou enganar os vivos;
x Jesus Cristo como um espírito altamente evoluído, mas sem uma natureza divina ou sagrada;
x Os evangelhos como obras de cunho essencialmente moral, e não consideração da Bíblia como livro sagrado;
x A caridade como uma das principais virtudes, ao lado de outras virtudes cristãs, a serem praticadas pelos espíritas;
x Desconsideração por qualquer ritual, dogma ou liturgia; todas as práticas e ensinamentos espíritas devem ser justificadas pela razão;
x Crença na prece como um meio de comunicação e elevação espiritual individual e desconsideração por preces institucionalizadas ou sacralizadas; x O espiritismo como uma revelação dos espíritos à humanidade e que vai
revolucionar a vida humana;
x Colocação do espiritismo como uma ciência, com aspectos doutrinários e filosóficos.
Este último ponto merece um maior aprofundamento. Pois claro, na obra de Kardec, a colocação do espiritismo como uma ciência e não como religião (VASCONCELOS, 2003; LOEFFLER, 2005). O sobrenatural é tido, ou como uma ilusão, ou uma falsa explicação de um fenômeno natural, situação na qual cabe ao espiritismo - segundo Kardec, enquanto ciência, explicar de forma racional e baseada em supostas leis naturais:
O Espiritismo repudia, no que concerne, todo efeito maravilhoso, quer dizer, fora das leis da Natureza. Ele não faz nem milagres, nem prodígios, mas explica, em virtude de uma lei, certos efeitos reputados até hoje como milagres e prodígios e por isso mesmo demonstra sua possibilidade. Amplia assim o domínio da ciência, e é nisso que ele próprio é uma ciência (KARDEC, 1982, p. 31).
Aprofundando esta questão, verifica-se que o espiritismo chega a um aparente paradoxo: enquanto ciência, ele deve investigar os espíritos e o mundo destes enquanto fenômenos naturais, mas os espíritos não são materiais, não podem ser objeto de uma investigação empírica, factual. Como então construir uma ciência baseada em algo que aparentemente é uma contradição à própria ciência? A crença em seres imateriais, em uma realidade não material? (VASCONCELOS, 2003).
A saída encontrada por Kardec se apresenta em dois pontos. Primeiro, a colocação que os espíritos não são de todo imateriais, mas constituídos, formados
de um tipo de matéria diferente, sutilizada ou quintessenciada, como ele expõe na pergunta de número 82, no seu ‘Livro dos Espíritos’:
Como se pode definir uma coisa, quando faltam termos de comparação e com uma linguagem deficiente? Pode um cego de nascença definir a luz? Imaterial não é bem o termo; incorpóreo seria mais exato, pois deves compreender que, sendo uma criação, o Espírito há de ser alguma coisa. É a matéria quintessenciada, mas sem analogia para vós outros, e tão etérea, que escapa inteiramente ao alcance dos vossos sentidos (KARDE, 1985, p. 82).
Colocada a questão que os espíritos têm uma natureza material, mesmo que diferente da que se conhece, fica no sistema kardecista estabelecida a hipótese de uma naturalização e racionalização destes, porém ainda resta uma questão. Como conhecê-los ou estudá-los, já que mesmo materiais têm uma constituição diferente dos seres humanos vivos?
Neste momento entra o segundo ponto da fundamentação da ciência espírita, a questão da mediunidade, objeto deste trabalho. Segundo Kardec, a mediunidade é a capacidade que todo ser humano possuiu de perceber e/ou interagir com os espíritos e o seu mundo:
Toda pessoa que sente, em um grau qualquer a influência dos Espíritos, por isso mesmo, é médium. Esta faculdade é inerente ao homem e, por conseqüência, não é privilégio exclusivo; também são poucos nos quais não se encontrem alguns rudimentos dela. Pode-se, pois dizer que todo mundo é, mais ou menos médium. Todavia, usualmente, esta qualificação não se aplica senão àqueles nos quais a faculdade medianímica está nitidamente caracterizada, e se traduz por efeitos patentes de certa intensidade, o que depende, pois, de um organismo mais ou menos sensível (KARDEC, 1992, P. 181).
Esta faculdade ou capacidade se apresenta dentro do conjunto da teoria espírita kardecista como sendo uma percepção, ou sentido extra que o ser humano possui e que lhe permite perceber os espíritos. Desta forma, Kardec supera aparentemente a contradição que a ciência dos espíritos possui, ao declarar a materialidade destes e a possibilidade de investigá-los através de uma faculdade natural - a mediunidade, que segundo ele todo ser humano possui. A questão que se pode levantar, admitindo-se a mediunidade como um faculdade biológica, é por que então algumas pessoas percebem ou interagem com os espíritos com maior ou menor facilidade e outras, apesar de desejar, parecem não ter esta capacidade?
Inicialmente, deve ser colocado aqui que o exercício da mediunidade não tem em Kardec a relação com a questão de uma concessão religiosa, sagrada, como sendo um dom ou favorecimento divino10, mas com a existência de ‘níveis de sensibilidade’ e ‘características biológicas’ que vão variar nos indivíduos, e que também vai permitir a formulação de todo um conjunto de processos e técnicas para o desenvolvimento ou aprimoramento deste sentido mediúnico (KARDEC, 1992).
É exatamente sobre este sentido, suas características, aprimoramento e funções, que será aprofundado nós próximos capítulos, e que irá levar à constatação da existência de um diálogo teórico-histórico espírita, pelo menos de legitimação científica da mediunidade frente outras ciências, caso da psiquiatria, ou paraciências11, caso da parapsicologia.