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3. A SOCIEDADE DE RISCO E OS DESASTRES URBANO-AMBIENTAIS

3.2 As diversas acepções do termo “risco”

3.2.2 A doxa científica

A doxa355 científica são as ciências da natureza – em especial a geografia, por

lidar com aspectos físicos e humanos da relação homem-natureza –, aquelas lidam com os fenômenos naturais e consolidaram a seguinte definição, que é a adotada neste trabalho:

354 Depoimento de A. L., que mora no Reginaldo há 31 (trinta e um) anos, com ensino fundamental completo,

que migrou do Município de Joaquim Gomes para Maceió em 1982 e é diretor da associação de moradores do Vale do Reginaldo e responsável pelo NUDEC.

355 “A doxa é constitutiva do campo, trata de um conjunto de conceitos e avaliações, jamais discutidos pelo

“Risco” é a “combinação de frequência e consequência356 de eventos indesejáveis,

envolvendo perda. Os riscos podem ser individuais, sociais, ambientais ou financeiros”357.

Ou, ainda, “a possibilidade de eventos perigosos produzirem consequências indesejáveis. É o perigo pressentido, melhor avaliado, isto é, uma perda potencial avaliada”358.

Os riscos que interessam a este trabalho são os “riscos ambientais" físicos, geológicos e hidrológicos, exógenos, conforme a matriz de classificação a seguir esclarece:

Figura 29: Classificação dos riscos ambientais

Dentro do esquema classificatório acima, no que respeita aos riscos naturais, as favelas, como a do caso do Vale do Reginaldo, apresentam riscos específicos: geológicos

356 Podemos conceituar “Frequência: O número de ocorrências por unidade de tempo; Consequência: O

impacto de um acidente nas pessoas, no ambiente ou no investimento;”. ROCHA, Geraldo César. Riscos

ambientais: análise e mapeamento em Minas Gerais. Juiz de Fora: UFJF, 2005, p. 18

357 ROCHA, Geraldo César. Riscos ambientais: análise e mapeamento em Minas Gerais. Juiz de Fora: UFJF,

2005, p. 18.

358 MACEDO, E. S.; AUGUSTO FILHO. Gerenciamento de Riscos Geológicos. Revista de Geociências. Vol.

III, nº 6, p. 49-57. Guarulhos: Editora Universitária, 1998. p. 50.

Fonte: Adaptado de CERRI, L. E. S.; AMARAL, C. P. Riscos Geológicos. In: OLIVEIRA, A. M. S. e BRITO, S. N. A. Geologia de Engenharia. São Paulo: ABGE, 1998.

(escorregamentos, erosão) e hidrológicos (inundações).

Isto se explica por conta da localização original de um número importante de centros urbanos em escala mundial próxima a diversos recursos naturais, o que facilita o transporte de bens, inter-relação comercial e pessoal, produção pesqueira, agrícola e industrial359.

Os riscos tecnológicos se devem ao fato de que, a cidade, espaço do desenvolvimento da indústria e do modelo de produção capitalista, criando condições favoráveis para a produção e intensificação dos desastres. Poluição tóxica por vazamentos em indústrias e explosões são alguns exemplos360.

Já os riscos sociais dizem respeito às manifestações sociais violentas: “[...] A cidade, pela aglomeração que significa e o impacto simbólico que representa, sempre será também um lugar privilegiado para diversas formas de manifestação social violenta”361.

Dado o exposto, a existência do “risco” não é sinônimo da ocorrência inelutável de eventos desastrosos ou catastróficos, como o discurso do senso comum afirma. Observe-se as definições a seguir:

Acidente: Evento não intencional que pode causar ferimentos, pequenos danos

materiais e/ou ambientais, mas é prontamente controlado pelo sistema de gestão (exemplo: incêndio em uma indústria, controlado pelos bombeiros);

Desastre: Evento não intencional que pode causar ferimentos médios a graves,

danos materiais/ambientais razoáveis, e é parcialmente controlável pelo sistema (exemplo: vazamento e explosão de material inflamável, com contaminação de curso d’água e solo);

Catástrofe: Evento não intencional que pode causar mortes, danos ambientais/materiais significativos e não é controlado pelo sistema de gestão (exemplos: vazamento de óleo na baía de Guanabara; rompimento de barragens de produtos tóxicos [...];

Perigo (Hazard): Uma situação com o potencial de ameaçar a vida humana, a

saúde, propriedade ou ambiente362;

Conforme se percebe, a caracterização de algum evento ou circunstância das acima citadas está diretamente relacionada com a “gestão dos riscos” (identificação, prevenção e controle das consequências). A intencionalidade ou sua ausência esbarra na questão da omissão: até que ponto, quando há contumaz omissão de políticas públicas, se pode considerar que não há intenção?

No caso do Vale do Reginaldo, os “riscos ambientais” de que é passível a área

359 ROCHA, op. Cit. 360 ROCHA, op. Cit. 361 ROCHA, op. cit., p. 28. 362 ROCHA, op. cit. P. 18.

podem ser enquadrados facilmente na categoria de “desastres”, dada a controlabilidade dos fatores humanos que interferem na área, através da diminuição da vulnerabilidade363, aumento da resiliência, análises de risco364 voltadas para a prevenção dos desastres, assim como o estabelecimento de níveis de risco que podem ser aceitos pela sociedade.

O PMRR de 2007 identificou as áreas mais vulneráveis e sujeitas a perigos ambientais no Município de Maceió. No entanto, na “gestão do risco” esse diagnóstico é apenas parte de um conjunto de medidas procedimentais que devem ser decididas e colocadas em prática.

Sem ações preventivas, planos de emergência, atividades de reconstrução e assistência social à população afetada há o reforço de um panorama viciado em desastres365, que é caracterizado pelos seguintes fatores:

- a atonia institucional, que leva à ineficiência de políticas públicas, legislação inefetiva, sistemas de alerta carentes, escassez de recursos financeiros e humanos e equipamentos366; - a baixa qualidade de obras de infraestrutura, graças a não-incorporação de normas e procedimentos de prevenção e gestão ambiental367;

- a ausência de educação para a prevenção dos riscos, assim como preparação para emergências, que se agrava pela falta de memória histórica das populações afetadas368;

- a centralização de ações pelas esferas estatais, com pouca participação do setor privado369;

- o “discurso político” do desastre, que é sempre pós-desastre e quase nunca de prevenção370;

- a “prevenção como custo”, e não como investimento público371;

- o papel da comunidade científica, a qual encontra dificuldades em transmitir adequada e convincentemente para os governos e população o resultado de suas pesquisas, a favor da prevenção372;

363 É o “grau de fragilidade dos elementos (receptores) de uma comunidade;” ROCHA, op. cit. p. 18. 364 É a “Análise de perigos potenciais, possíveis eventos acidentais e medidas de segurança para determinar

frequência e consequências de eventos acidentais” ROCHA, op. cit. p. 18..

365 CASTRO, S. M., Estratégias, políticas e práticas para reduzir o risco de perigos naturais e a vulnerabilidade. Disaster Preparedness Management. San Jose, Costa Rica: 2001.

366 ROCHA, op. cit., p. 22. 367 Idem, op. cit., p. 22. 368 Idem, op. cit., p. 22. 369 Idem, op. cit., p. 22. 370 Idem, op. cit., p. 22. 371 Idem, op. cit., p. 22. 372 Idem, op. cit., p. 22.

- o acelerado crescimento demográfico, em descompasso com o crescimento das políticas públicas, o que leva a internalização da maior proporção de perdas pelos mais gravemente atingidos pelos eventos danosos373;

- o mito de que os desastres favorecem as economias, em virtude dos investimentos externos para reconstrução. Ocorre que o endividamento e o desvio de recursos inicialmente alocados para outros setores significam um prejuízo bem maior374.

Configurada nestes termos a importância da delimitação do significado do termo risco e como seus usos contribuem para a formação de ambiguidades e consolidação de “áreas de risco”, cumpre passarmos à análise do uso da norma neste contexto fático, a fim encontrar explicações para a inefetividade dos textos nacionais e internacionais nesta matéria.