1. O Âmbito Moral (ou Político) da Questão
1.1. A “Dualidade Manifesta” como Divisão do Conhecimento
Como vimos, a questão moral do platonismo se apresenta, segundo o prisma de um parâmetro diferente com relação aos costumes e crenças daquela época, já que a
6 O que podemos dizer é que, segundo alguns comentadores, existem pelo menos duas interpretações dos
diálogos platônicos quanto ao seu personagem Sócrates. Enquanto alguns consideram que boa parte da doutrina platônica das idéias (formas) tenha surgido já com Sócrates e que Platão estaria apenas disseminando a filosofia de seu mestre, outros julgam que Sócrates não passava tão-somente de um moralista, e que toda a filosofia platônica teria sido teorizada exclusivamente por Platão. Claro que separar Platão de Sócrates talvez seja uma tarefa muito árdua, porque demandaria um vasto conhecimento das obras platônicas, entretanto, não pretendemos separar este suposto Sócrates moralista do Platão idealista, mas sim colocá-los num mesmo patamar: a imagem dogmática do pensamento. Soares, na sua já referida obra, comenta que os diálogos platônicos foram divididos por seus comentadores basicamente em três períodos; esta divisão se deu tanto pelo seu estilo literário quanto por seu conteúdo. Os três grandes grupos são: os escritos da juventude, escritos da maturidade e os escritos da velhice; sendo estes últimos considerados uma tentativa de se pensar a diferença no âmbito da sua própria filosofia. Soares ainda sublinha que nesta divisão poderia, talvez, ser possível divisar as obras de Platão que se referem ao socratismo, ou à doutrina de Sócrates, e as obras que se referem exclusivamente à sua filosofia: “[...] a compreensão da filosofia de Platão depende de sabermos de onde partiu o filósofo e aonde chegou em mais de cinqüenta anos de atividade literária e discussões na Academia; em que período de sua vida e, portanto, de sua maturação intelectual escreveu cada peça; que Diálogos se ligam entre si, formando grupos, e quais se expõem por si mesmos, se é que estes últimos existem; quais apresentam a filosofia de Sócrates, os chamados socráticos, e quais são platônicos propriamente ditos; quais são especulativos e quais são doutrinas etc. Todas essas questões, algumas mais e outras menos, estão ligadas à ordenação cronológica dos Diálogos.” (Soares, 2001, p. 34). Mas, como dito, nosso intuito não é encontrar e separar o platonismo do socratismo. Seguindo Deleuze, pretendemos expor e tentar contrapor o platonismo como imagem do pensamento, seja ele advindo da filosofia socrática ou teorizada unicamente por Platão.
moralidade platônica dependia de algo que não se encontrava mais apenas entre os homens, pois o agir moral não visava mais apenas o âmbito da práxis, mas também um âmbito puramente teórico. Este âmbito teórico estava sempre em vista de modelos e formas que não se encontravam no mundo e que, no entanto, permeavam todas as nossas ações “com este mundo”: as idéias, ou formas, de Bem, Belo e de Verdade7. Entretanto, esta doutrina (de idéias que nos servem como modelos) tira do homem a capacidade de agir com justiça, com bondade e mesmo de dizer a verdade, já que o homem, enquanto estiver preso a este corpo que lhe serve de cárcere, não poderá contemplar com realidade tais formas, apenas formar imagens destas. Neste ponto, julgamos que o que está em jogo, para a leitura deleuziana deste parâmetro moral, são os seguintes motivos: a moral platônica se funda perante esta contemplação do Bem, do Belo e da Verdade, já que ele julga ser em vista destes três princípios primeiros que a virtude se abre e se coloca como possível; e, é na distinção entre cópia e simulacro que Platão focaliza as suas principais críticas àqueles que não corroboram os ideais filosóficos, acusando-os de se encontrarem no plano da mera opinião (doxa) e não do verdadeiro saber (episteme).
Nesta perspectiva, talvez o que possamos vislumbrar com maior propriedade em Platão, num primeiro momento e nesta luta contra os sofistas, seja o seu orgulho, ou melhor, o seu suposto egoísmo filosófico; o que caracteriza, mais especificamente, a primeira dualidade apontada por Deleuze: a “dualidade manifesta”. Nietzsche parece nos mostrar melhor esta questão; em sua obra Sobre verdade e da mentira no sentido extra-moral ele sublinha que o filósofo, o “filósofo platônico”, se apresenta sob uma áurea de orgulho e egoísmo:
[...] e como todo transportador de carga quer ter seu admirador, mesmo o mais orgulhoso dos homens, o filósofo, pensa ver por todos os lados os olhos do universo telescopicamente em mira sobre seu agir e pensar. [...] Aquela altivez associada ao conhecer e sentir, nuvem de cegueira pousada sobre os olhos e sentidos dos homens, engana-os pois sobre o valor da existência, ao trazer em si a mais lisonjeira das estimativas de valor sobre o próprio conhecer. Seu efeito mais geral é o engano – mas mesmo os efeitos mais particulares trazem em si algo do mesmo caráter8.
O orgulho do filósofo mascara o seu agir e pensar, já que ele se ilude com a sua verdade, esquece que ela não foi conquistada pública e socialmente, e, portanto, pode não
7 Estas três idéias estão mais bem representadas na República, de Platão, onde ele comenta, ainda meio enevoado
em uma áurea mítica, ser o Sol a idéia de Bem e de Belo, a Luz a idéia de Verdade, as cores como formas das idéias, entre outras alegorias. Cf. República - 509a-511e.
8 NIETZSCHE, Friedrich W. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral. In: Nietzsche. Trad. Rubens
passar de mais uma entre tantas outras; ele não percebe que a sua verdade pode ser apenas mais uma interpretação do mundo em meio à diversidade de interpretações já existentes. Tal orgulho não pode, porém, ser pensado aqui moralmente, isto é, não podemos condenar ou salvar Platão por isso. Devemos apenas ressaltar que este orgulho filosófico possui dois lados, o lado da transcendência (lado que nos leva a pensar os princípios morais como algo separado do mundo) e o lado do individualismo (onde temos a elevação de princípios que são conquistados individualmente; ou seja, o caminho em que se alcançam os princípios morais através de uma decisão filosófica feita pelo indivíduo). Também não podemos dizer que este egoísmo, segundo Nietzsche e posteriormente Deleuze, deva ser considerado como uma idiossincrasia de Platão, ou como uma instância psicológica; ao contrário, ele deve ser pensado unicamente como forma (ou imagem) do pensamento, deve ser pensado unicamente como uma decisão filosófica de Platão9.
O que fica muito bem caracterizado é que este egoísmo se pauta numa busca pela Verdade, pelo Bem e pelo Belo, princípios estes que eram buscados por todos os gregos; mas, ao invés de Platão buscá-los coletiva ou socialmente, através de discussões públicas e abertas, fazia isso individualmente através de diálogos privados e fechados, o que poderia acarretar uma via única ou até bipolar, mas nunca múltipla. Que os princípios socráticos/platônicos também eram princípios universais não podemos negar. O caminho até se chegar a tais princípios não era, contudo, de forma alguma político, já que a política grega sempre estava em vista dos interesses coletivos, dos interesses da polis, e eram sempre discutidos pública e socialmente, para que tais interesses públicos se mantivessem públicos; ou seja, para que tais interesses, baseados em certos princípios, se mantivessem de domínio coletivo e não particular. O filósofo socrático/platônico, destarte, funda uma única maneira de contemplar e ver o mundo, um ponto de vista único entre todos os outros, e, além disso, uma perspectiva um tanto quanto antipolítica, uma perspectiva quase que totalmente individualista; sendo ela, e tão-somente ela, a única maneira, segundo estes filósofos, de se chegar à Verdade, ou a única forma possível de se enxergar a verdadeira “Verdade”10. Não haveria
9 O egoísmo filosófico de Platão não pode ser pensado, exclusivamente, como o seu modo próprio e pessoal de
combater a sofística, enquanto embate individual, mas como forma do pensamento pregada por ele; este egoísmo não se refere, de modo algum, ao pessoal, constituído pelo ardor de uma vingança contra a sofística, mas ao modo filosófico de pensar, à forma do pensamento que se remete a certos pressupostos e princípios. Assim, a Verdade torna-se a principal conquista de Platão, e por isso a sua principal “arma filosófica”, e o egoísmo só se instala nele porque ele não recua, não abandona a Verdade e os princípios e pressupostos que com ela sobrevoam este modo de pensar.
10 Esta aspereza e rigidez pode parecer aplicável apenas a Sócrates, não sendo possível talvez com relação à
filosofia realmente platônica, mas, lembremos que não estamos aqui separando uma filosofia da outra, e sim resgatando um pensamento que surgiu na Grécia Antiga e que passamos a chamá-lo de platonismo.
caminho oposto ou adjacente. Tudo deveria correr para o eterno, para o transcendente, para uma verdade fora do mundo, que fundaria, desde si mesma, o próprio mundo, pois este era o caminho individualista do filósofo socrático. Não havia outra perspectiva, outros valores, outras interpretações de mundo. Tudo deveria ser visto a partir daquilo que se mostrava fora do tempo, fora do devir eterno (devir este em que, desde sempre, estamos imersos e que move o mundo sensível).
Perante esta perspectiva socrático/platônica, se funda uma certa identidade, já que o filósofo não busca um consenso, não busca uma verdade, mas, sim, “a” Verdade, esta forma imutável, esta forma que sempre se mostra como o mesmo do Mesmo. Desta maneira, estar sempre em vista das mesmas coisas e acerca dos mesmos assuntos é a tarefa do filósofo platônico, pois é através da identidade do Mesmo que se funda o Modelo11. Estar em vista do Mesmo, é, porém, desprezar o tempo e o devir. É, de um modo geral, desprezar o que se mostra neste mundo sensível e, neste sentido, seria também desprezar a própria vida, já que a vida se coloca diante deste mundo mutável, diante da mudança e da diferença deste mundo12. Assim, a imagem do filósofo se afigura como aquela que busca sempre o mesmo do Mesmo, como aquela que não muda de posição, pois se pauta na Verdade, ou na intenção de Verdade através da semelhança, e não na mera opinião13. Aqui se evidencia, portanto, de modo mais
11 Estar em vista do Mesmo é a tarefa platônica, já que é através dele que se pode, segundo ele, encontrar estes
princípios primeiros: o Bem, o Belo e a Verdade. Tal afirmação se mostra no Diálogo Górgias, escrito por Platão em meados de 393 e 387 a.C., onde Sócrates acusa a Cálicles, discípulo do orador e retórico Górgias, de nunca dizer as mesmas coisas sobre os mesmos assuntos: “SÓCRATES: Estás vendo, excelente Cálicles, de quão diferentes defeitos nos acusamos um ao outro? Tu dizes que eu estou sempre repetindo as mesmas coisas e me censuras; eu, ao contrário, acuso-te de jamais dizeres as mesmas coisas a respeito dos mesmos assuntos.” [PLATÃO, Górgias ou a oratória. Trad. Jaime Bruna. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1970, trecho: 491c. Em diante (Platão, 1970)]. Dizer, assim, as mesmas coisas sobre os mesmos assuntos remete sempre a se repetir sobre o Mesmo; a mesmidade, ou a identidade em primeiro grau, parece ser o único caminho para o filósofo socrático/platônico, já que é a partir do Mesmo (modelo) que se pode ter a intenção de cópia, ou a intenção de Verdade.
12 Deleuze, já ao final da vida, escreve um pequeno, mas envolvente, artigo para a revista Philosophie intitulado
L’immanence: une vie... (A imanência: uma vida...), onde retrata a vida como uma pura imanência, sem os
pesos do bem e do mal que só o sujeito traz; a vida para Deleuze é impessoal, imanente e singular: “Uma vida está em toda parte, em todos os momentos que este ou aquele sujeito vivo atravessa e que esses objetos vividos medem: vida imanente que transporta os acontecimentos ou singularidades que não fazem mais do que se atualizar nos sujeitos e nos objetos” [DELEUZE, G. L’immanence: une vie... (A imanência: uma vida...). Trad. Tomaz Tadeu. In: Educação e Realidade. Vol. 27, nº 2 – jul./dez. de 2002, p. 14. Em diante (Deleuze, 2002)]. A vida é pensada, portanto, como um puro devir, como uma imanência pura que se instala e se atualiza. A questão da imanência, do acontecimento e do devir puro, entretanto, serão trabalhados posteriormente quando abordaremos com maior precisão a questão da univocidade. Queríamos aqui apenas expressar como Deleuze compreende a Vida, já que esta compreensão difere da compreensão que o platonismo tem da mesma.
13 No Górgias também podemos perceber uma certa divisão entre “ciência” e “crença”, sendo, para esta
interpretação, a primeira divisão ou a primeira dualidade, a “dualidade manifesta”; assim, tal é o caso, no referido Diálogo, onde os retóricos e oradores expressam, segundo o personagem platônico, Sócrates, uma persuasão originada na crença, isto é, no campo da doxa, da opinião. Desta forma nos mostra Platão quando Sócrates interroga a Górgias a respeito do que vem a ser a arte da oratória: “SÓCRATES: Na tua opinião,
geral, esta separação platônica entre o mundo da doxa (mundo das hipóteses) e o mundo da episteme, mundo do verdadeiro conhecimento (dos princípios imutáveis). O mundo epistêmico de Platão é onde se instalam estas três principais idéias do platonismo em geral, a Verdade, o Bem e o Belo; restando ao mundo opinativo unicamente a via das imagens que tentam imitar estes princípios, alguns através das cópias que, segundo Platão, sempre visam o modelo e outros através dos simulacros que, ainda segundo ele, visam apenas o teatro, o espetáculo.