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A E STÉTICA E A A RTE

No documento Pilares para uma cultura de liberdade (páginas 31-33)

CAPÍTULO I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO

2- A E STÉTICA E A A RTE

Se há coisa que parece, desde sempre, ter acompanhado o Homem é a Arte. Ligamos espontaneamente Estética e Arte, mas há que distingui-las e perceber onde se iniciou essa ligação.

O senso comum relaciona o estudo da Estética com o estudo das Artes. A construção histórico-filosófica sempre salientou e abordou os problemas da Arte, desde Sócrates. No entanto, a Estética é uma disciplina relativamente nova. Nem sempre o discurso da Arte se chamou Estética. Aquilo a que chamamos Estética tem pouco mais de dois séculos e meio e aparece pela primeira vez, muito provavelmente, na obra de Alexander Gottlieb Baumgarten, intitulada precisamente de Estética (1750). A partir desta altura ganha sentido a “obra de arte desinteressada”, excepto para dar prazer.

O termo grego aisthesis aponta para vários sentidos: sentido físico entre a coisa percepcionada e a coisa que percepciona; qualquer coisa entre percepção e sensação; estado entre corporalidade e intelecto. Platão referiu-se a “poderes” com a capacidade de afectar ou ser afectado. Uma afecção vista como algo que produz uma sensação a outrem a que este se sente na obrigação de dar resposta. Assim, a noção de Estética pressupõe relação.

Em Estética trata-se, pois, do sentir, uma faculdade que se encontra em nós desprotegida. Não se trata de uma “filosofia da arte” (como em Platão ou Aristóteles), mas de uma análise da capacidade de sentir. Pensar é construir uma determinada forma mental para algo que, de outro modo, não estaria ordenado em cada um de nós. Uma poesia, por exemplo, também é um modo de organizar as coisas. Logo, a experiência sensível é digna de análise.

A Arte está ligada à consistência de uma experiência que só pode ser sensível. É também o sensível que constitui a Estética, na noção de Baumgarten. A determinação-chave da Estética e da Arte é a mesma: aquilo que tem a ver com a experiência sensível, como complexo de percepções e sensações.

Também são experiências sensíveis aquelas que não se tornam obras de arte. Um grande desgosto que não se torna soneto, não deixa de ser um grande desgosto. O facto de haver um sujeito desse desgosto não nos diz nada? Esta é uma questão da Estética. Esta experiência, em geral, e não só aquela que se torna arte, pode aspirar tornar-se objecto de um discurso teórico, sendo também, o ponto central da Estética, a qual reflecte um tipo de relação que se distingue simultaneamente do pensamento e da imaginação.

Apesar de em todas as épocas haver este tipo particular de objectos chamados “obras de arte”, e quem pratique mais ou menos as suas capacidades de sentir, foi na época moderna que se reuniram

Sofia Costa Graça Santos 32/180

os requisitos necessários para começar a pensar esta actividade humana: a autonomia do humano e o retraimento do divino. Pelo retraimento do divino, o Homem passou a considerar o mundo fora da concepção transcendente a que equivale a afirmação da autonomia do humano, a entrega do mundo ao seu próprio movimento. Esta autonomia do humano, a capacidade de descoberta nos homens de agir, de pensar, de se situar a partir de si próprio, é, simultaneamente, uma autonomia da racionalidade e uma autonomia do sentimento. Foi, então, na época moderna que surgiu a ideia da “arte como criação”. O artista surge revestido de importância, na medida em que consegue refazer o mundo a partir do nada (na superfície de uma tela, por exemplo).

Nos meados do século XVIII constitui-se a História da Arte, no quadro teórico-iluminista, com o objectivo de distinguir “Arte” e “obra de arte”. Também nesta época, a partir de Diderot, fala-se diferentemente de determinados objectos e surge a Crítica de Arte, onde se procura reflectir sobre a sua importância geral e o seu sentido. Surgem locais onde as obras de arte (pinturas e esculturas principalmente) estavam colocadas sem outros contextos ligados a elas (religioso, social, etc), e daí surge o Museu na sua acepção moderna. Mas, curiosamente, foi só com as sociedades capitalistas que esses objectos artísticos atingiram uma notoriedade até então não alcançada, reflectida nos grandes museus como consumo de hábitos do passado. Esta devoção da arte deu origem a um sistema económico muito importante no Ocidente.

A noção de Arte é algo em contínua mudança e evolução, que tanto se presta ao simples decorativo como ao apelo intelectual, sendo algo intrínseco na vida dos povos e necessária à sua evolução, e que permite espelhar os seus sentimentos. A obra de Arte traz ao mundo uma ordem que o mundo não tem: um absurdo inerente às coisas.

Luís Barbosa insere na cultura artística ou, como lhe chama, no “domínio das artes” diversos campos: a música, o teatro, o cinema, a dança, a pintura, a escultura, a arquitectura, a literatura, as artes populares, etc. Estas são “formas que ao longo da História os homens encontraram para exprimirem as suas ideias, as suas visões estéticas, para darem asas ao sonho, à beleza, à elegância (…) As artes são uma forma de sublimação dos seres humanos tanto para os criadores como para aqueles que delas usufruem.”13

Estamos perante uma era de mudanças que nos vai trazer uma sociedade diferente. As mudanças a que nos referimos são globais (afectando muitos países) e revolucionárias, no sentido em que implicam uma transformação social compreensiva. Do mesmo modo que as transformações tecnológicas se apresentam com uma relevância e uma velocidade cada vez maiores, também a Arte manifesta isso mesmo. As relações do Homem com a esfera do imaginário estão a tornar-se, também elas, cada vez mais temporárias, já que os códigos em que se baseiam se renovam a cada dia.

Sofia Costa Graça Santos 33/180

No documento Pilares para uma cultura de liberdade (páginas 31-33)