PARTE I: O CONTROLE SOCIAL E A CONSTRUÇÃO DE UM DIREITO
CAPÍTULO 1: CONTROLE SOCIAL SOBRE O COMPORTAMENTO SEXUAL
1.9 A E XPRESSÃO S EXUAL COMO Q UESTÃO DE IDENTIDADE
Assim como a identidade sexual foi reduzida à dicotomia do biologismo da classificação do sexo entre feminino e masculino, a potencialidade das expressões sexuais seguiram por longo tempo observando a distinção entre normalidade e anormalidade. Robert Solomon afirma que, ao menos até os meados da década de 1890, na tradição dos países ocidentais industrializados,
8 O último estágio é melhor observado em algumas sociedades modernas do que em outras: Posner
destaca o fenômeno nas sociedades contemporâneas escandinavas, fazendo referência direta à Suécia. (POSNER, 1992).
o paradigma dominante sobre a sexualidade era o do coito heterossexual. As demais práticas que extrapolassem o limite descrito eram consideradas abnormais ou perversas9. (SOLOMON. et al, 2002. p. 2436).
Para além do paradigma reprodutivo e de destaque da heteronormatividade, Robert Solomon descreve a importância descritiva de outras três teorizações sobre a sexualidade moderna (ibid. p. 2437-2440). Primeiro em elenco: o paradigma sexual de busca pelo prazer: para o qual quaisquer atos sexuais com o consentimento entre agentes capazes seriam permitidos. O sexo como experiência positiva era aquele que resultasse mutualmente na máxima sensação prazerosa, sendo negativo quando importasse em falha na satisfação de um dos parceiros, ou de ambos. Haveria a necessidade de o exercício seguir as bases morais da sociedade, porém, de forma geral, tratar-se-ia de uma atividade irrestrita.
Segundo: o paradigma sexual sob a perspectiva metafísica: afirmando tratar a relação sexual de significado além da busca pelo prazer, ainda, do prazer mútuo. Haveria na prática a inerente finalidade da busca por entendimento do simbolismo da relação interpessoal. (ibid)
Finalmente, o terceiro em ordem: o paradigma da comunicação através do sexo: a expressão da sexualidade importaria necessariamente na comunicação de emoções ou atitudes dos indivíduos entre si. O sexo é tido como uma forma de linguagem, cuja linguagem consistiria na expressão por gestos, toques e posicionamento dos corpos. No contexto social, pode significar a expressão de dominância ou submissão; além de ser o canal de abertura para a comunicação dos sentimentos e emoções de afeto, respeito, medo, ternura, consideração de estima e amor.
O paradigma da comunicação realoca a ênfase dada aos aspectos físicos e dos apelos eróticos do sexo para papel desempenhado pela ação de
9Perverse practices in this paradigm include but are not limited to the following: voyeurism; exhibitionism;
incest (sex between close relatives); oral sex; anal sex; sex with children (pedophilia); sex involving more than two persons; sex between humans and animals (zoophilia); sex with oneself (masturbation); sex involving the use of visual images (pornography); sex with corpse (necrophilia); sex involving heightening sexual pleasure by dressing in garments associated with the opposite sex (transvestism); sex associated with the giving or experiencing of pain or humiliation (sadomasochism); sex strongly associated with a particular object or part of the body (fetishism); and sex between members of the same sex (homosexuality).
instrumento interpessoal de expressão de todos os tipos de sentimentos e emoções; além do amor romantizado pela tradição burguesa. (CONNELL, 1999, p. 18)
Seguindo a reflexão sobre os quatro paradigmas, Robert Solomon sustenta o problema da normalidade advindo das conclusões distintas para a inquirição do que seria considerado como normal para o sexo, ou do que poderia ser considerado como perversão e amoralidade. Para o paradigma reprodutivo, a normalidade estaria garantida pelo mínimo de potência biológica para a concepção; todo o resto seria irrelevante ou imoral. Já para o paradigma de busca pelo prazer, tudo o que se prestasse a finalidade hedonística seria digno de proteção, e aquilo que representasse ofensa à capacidade de um dos agentes, do desrespeito ao consentimento, ou importasse em sofrimento, representaria a zona de reprovabilidade. Para o paradigma da comunicação, o que é considerado normal é de elevada complexidade, pois albergaria as expressões legítimas dos sentimentos e emoções.
This confusion extends to the task of defining a moral model of sexuality. Of the various cases and models considered in this article, not a single one would be accepted as normal in every society and by everyone. Moreover, a pure instance of an ideal type or paradigm is probably nowhere to be found; not even the most pius proponent of a religiously oriented reproductive view would deny the desirability of love, pleasure, and emotional expression in sex, nor would the most enthusiastic hedonist deny the desirability of reproduction on at least some occasions, and perhaps of love and communication as well. And when these four paradigms of sexuality are integrated with the matrix of possibilities that are to be found in the various combinations of gender identity and sexual orientation (and, in the most extreme cases, transsexual biological operations), the result is an enormous number of sexual lifestyles, desires, and activities, every one of which would be insisted upon as normal, at least according to some people. (SOLOMON, 2002. P. 2040)
Como se decidir racionalmente o que deve ser considerado normal? Para além dos impulsos de consideração do que é predominante estatisticamente, a racionalidade ética aponta como normal o que é socialmente admissível. Todavia, essa definição traz na complexidade inerente do fenômeno, uma implicação de dilema: se a normalidade inclui aspectos subjetivos, assim como biológicos, como estabelecer prioridades? Como parametrizar a normatividade para contemplar paradigmas discrepantes?
Sobre as potencialidades de expressão individual através do sexo, a definição da normalidade deve considerar a matriz complexa, na qual valores
como a tolerância e a consideração mútua dos indivíduos devem ser priorizados. Além das fronteiras da medicina, psicologia, antropologia, a identidade sexual deve ser considerada um tema de interesse para a tutela da diversidade dos matizes da expressão humana.