308 Badmington, N., Posthumanism.
4.4. A E XTROVERSÃO COMO I DEAL
A Classificação Internacional de Funcionamento, Incapacidade e Saúde325 (ICF), desenvolvida pela Organização Mundial de Saúde (WHO), em vigor para uso internacional desde 22 de Maio de 2001, proporciona uma “estrutura e linguagem normalizada para aplicação em todos os assuntos relacionados com a saúde.”326
Segundo essa classificação, diferenças entre a capacidade e o desempenho de um determinado indivíduo resultam da existência de factores contextuais específicos capazes de influenciar a prestação dos indivíduos – sobre os quais atuam – na realização de tarefas específicas.
Estes factores contextuais podem ser tanto a) ambientais como b) pessoais. Dos ambientais fazem parte os factores individuais (v.g. relativos ao ambiente mais próximo do indivíduo) e os factores sociais (v.g. relativos às estruturas sociais, formais ou informais da quais o indivíduo está dependente). Ao contrário destes, os factores pessoais relacionam-se com a realidade interior e estão subordinados ao indivíduo e às suas características. A elaboração deste modelo tem vindo a facilitar a detecção e identificação das circunstâncias que possam estar na origem de problemas de desempenho, auxiliando assim o desenvolvimento e construção de ambientes mais inclusivos.327
Compreender o modo como o ser humano se relaciona com os ambientes que o rodeiam é essencial para que melhor se compreendam as necessidades dos utilizadores para os quais os espaços arquitectónicos se destinam. De que forma se estabelece esta relação e em que medida influencia o bem-estar do utilizador e a sua percepção qualitativa do espaço? De que modo é que as condições físicas e psicológicas do utilizador condicionam a sua capacidade de alcance do bem-estar e conforto de utilização oferecidos pelo espaço arquitectónico? Estarão as características da personalidade de um indivíduo implicadas na filtragem sensorial dos estímulos e linguagem dos ambientes construídos? É inegável que se se pretende ampliar o entendimento comum sobre a experiência do utilizador face à
325 World Health Organization, ICF - International Classification of Functioning, Disability and Health. 326 Simões, J. F. et al., op. cit., p.32.
arquitetura e descortinar as mais adequadas estratégias para o melhoramento dessa mesma experiência estas questões são incontornáveis.
Uma vez que a arquitetura constitui, em grande medida, a composição material dos ambientes que nos rodeiam é expectável que a forma como ela se relaciona com os factores contextuais anteriormente descritos – no contínuo exercício de influência psíquica e somática sobre o utilizador, estabilizando ou agredindo a sua personalidade individual – seja significante e que esta relação se traduza numa influência direta e significativa na experiência do quotidiano do utilizador, harmonizando ou desequilibrando a concordância entre ambos.
A percepção do ambiente, em geral, é influenciada e mediada pela realidade subjetiva, que, por sua vez, é um resultado do impacto conjunto de três factores: realidade objectiva, características do tipo de personalidade (necessidades, preferências e experiências passadas) e a qualidade da situação. 328 Por
conseguinte, deduz-se que a fim de se compreender o comportamento mental e espacial de um indivíduo deve-se primeiramente – como propõe Moller (1968) – compreender a relação (ou interação) dinâmica que se estabelece entre um espaço estruturado e os processos psicológicos individuais, inclusive a sua personalidade.329
Reiterando a premissa de Moller (1968), é possível afirmar então que esta reciprocidade entre a personalidade individual, estados psicológicos temporários e experiências prévias influencia a experiência do espaço arquitectónico. Jung (1921) é da opinião que os traços de personalidade se baseiam em mecanismos fisiológicos relativamente estáveis ao longo de uma vida.330 Cain (2012) e Mahnke (1996) ecoam também estas convicções, em especial no que diz respeito à relação entre a personalidade dos indivíduos e as variações de recepção, ou percepção, dos estímulos exteriores.
No campo da personalidade humana, a dimensão da introversão-extroversão – considerada por Carl Jung como o pilar da caracterização da personalidade331– é,
segundo Cooper (1974), um dos parâmetros que mais expressamente irá
328Abu-Obeid, N. et al., op. cit., pp.197-210.
329Moller, C. B., Architectural Environment and our mental health. 330 Cain, S., op. cit., pp.277-302.
condicionar a percepção individual de um espaço, bem como direcionar adequadamente o seu comportamento individual, consoante a interpretação (ou distorção) sugerida por aquele espaço específico àquele indivíduo específico. O sistema de valores culturais de uma determinada civilização ou sociedade, em certa medida, propende a determinar o poder relativo de um ou de outro tipo de personalidade nos mercados económicos, no clima sociocultural e na capacidade de participação cívica e política, favorecendo e recompensando determinados comportamentos e perspectivas que lhe são apanágio em detrimento de outras e influenciando, por isso, o modo como se manifestam na demografia de uma dada cultura – incentivando a que um tipo se conforme com as normas impostas pelo outro.
“A Arquitetura deve defender-nos contra estímulos excessivos, ruído e velocidade. No entanto, a tarefa mais significativa da Arquitetura é a de manter e defender o silêncio.”332
Cain alega que as mais “importantes instituições da vida contemporânea” foram concebidas por indivíduos ou grupos distintamente gregários, favoráveis a deliberações céleres e tarefas de risco,333 e, nesse aspecto, indivíduos com
substanciais necessidades de elevados “níveis de estímulo.”334 O esforço aplicado
no controle e modificação de emoções e comportamentos por forma a que estes sejam aceites socialmente e resultem em respostas adequadas aos desafios impostos por espaços desenhados à imagem e semelhança da extroversão – o tipo de personalidade, e, por analogia, de atividades, de afazeres e de preocupações, socialmente privilegiado – está geralmente associado a níveis prejudiciais de
stress, desgaste e, até mesmo, relacionado com instabilidade cardiovascular.
Em suma, o trabalho emocional envolvido no processo contínuo de adaptação das características da personalidade a um ideal fisiologicamente inapropriado, a longo prazo, compromete o funcionamento do seu sistema imunológico.335
332 Tradução livre. Citação original: “Architecture must defend us against excessive stimuli, noise and
speed. Yet, the most profound task of architecture is to maintain and defend silence.” Pallasmaa, J.,
Mental and Existential Ecology.
333 Cain, S., Silêncio: O poder dos introvertidos num mundo que não para de falar, pp.15-57. 334 Idem, p.21.
4.4.1.I
NTROVERSÃO EE
XTROVERSÃO:
A FISIOLOGIADe modo a que melhor se compreenda a forma como os traços de personalidade desempenham um papel mediador no processo de percepção individual de espaços arquitectónicos, releva aprofundar os mecanismos fisiológicos que diferenciam a
introversão da extroversão.
O factor que substancialmente distingue o cérebro de um introvertido daquele de um extrovertido é a sua sensibilidade fisiológica à dopamina. Responsável pela regulação, entre outros, da adrenalina, este neurotransmissor dita, em termos quantitativos, a necessidade de estímulos ou “recompensas” exteriores (v.g. um aumento salarial, uma promoção no emprego ou a atenção afetiva ou sexual de outros indivíduos) a fim de que o cérebro atinja um nível operativo óptimo;336 caso
esta substância química seja estimulada em demasia, as possibilidades de uma adequada interação com o ambiente e os outros indivíduos e a capacidade de contribuir pessoalmente para a sociedade podem ser grandemente afetadas.
Enquanto que um extrovertido está, geralmente, sob o nível favorável de estimulação, um introvertido está quase permanentemente acima desse mesmo nível óptimo de estimulação. Em termos práticos, um extrovertido terá a necessidade de maior variedade e intensidade de estímulos exteriores para que o seu funcionamento emocional e comportamental seja ideal face às exigências sociais nas quais está circunscrito, ao passo que o introvertido necessitará de baixos níveis de estimulação para atingir um nível ideal de funcionamento cerebral.337
“Em vez de participar nos processos de homogeneização do espaço e subsequente aceleração da experiência humana, a arquitetura precisa de abrandar a experiência, suspender o tempo, e defender a lentidão natural da percepção humana.”338