3.1. A herança eclesiológica de Trento
3.1.2. A eclesiologia dos controversistas: Thomas Stapleton
Antes e depois de Trento, a temática eclesiológica ocupou um posto relevante no campo da teologia das controversiae, ainda que sempre condicionada por algumas opções de método teológico, ou mesmo certos pressupostos apriorísticos. Em reacção ao Protestantismo, os controversistas viram-se obrigados a assumir a centralidade das suas discussões eclesiológicas em temas como a origem divina do primado romano e a constituição hierárquica da Igreja, ilustrando-os e defendendo-os com argumentos da Escritura e da Tradição211. Nas controversiae desenvolve-se um «monopólio prático do tema da hierarquia»212, de modo que o mistério da Igreja enquanto tal é remetido para segundo plano. Isto representa uma mudança de rumo em relação ao equilíbrio do tratado De Ecclesia proposto pelo Catecismo Romano.
208 Cf. Ibidem, vol. 1, p. 772. 209 Cf. Ibidem, vol. 1, p. 776. 210 Cf. Ibidem, vol. 1, p. 777. 211 Cf. Ibidem, vol. 1, p. 855. 212 Ibidem, vol. 1, p. 856.
63 Entre os vários controversistas, destacaram-se principalmente os desenvolvimentos eclesiológicos propostos por Thomas Stapleton (1535-1598) e por Roberto Bellarmino (1542-1621).
Thomas Stapleton (1535-1598)
As controvérsias de Thomas Stapleton centram-se nos temas da antropologia cristã – fé e justificação –, candentes na relação com o Protestantismo. Ángel Anton recorda que, como inglês que era, o carácter polémico dos seus escritos foi um imperativo da situação histórica na qual lhe tocou viver213.
O elemento-chave da doutrina eclesiológica de Stapleton é a autoridade doutrinal da Igreja. A noção de Igreja esboçada pelo controversista funda-se na consideração de que esta surge em função da necessidade, por disposição divina, de uma mediação da verdade e da graça da salvação para o homem. Nesta medida, a Igreja possui uma missão doutrinal e sacramental essencial, pela qual se apresenta como contraponto à falta de fé e à desmoralização da vida cristã do seu tempo, que têm origem na confusão doutrinal e no erro teológico214.
Situando-se na tradição eclesiológica agostiniana, Stapleton concebe a mediação da Igreja na Palavra e nos sacramentos como verdadeira maternidade da Igreja em relação aos fiéis. A Igreja define-se enquanto omnium fidelium mater215, e possui uma autoridade e missão doutrinal pela qual se realiza a sua própria eclesialidade e catolicidade. Ou seja, a fé é eclesial e católica porquanto existe em íntima ligação com a Ecclesia docens, que determina o elemento formal da mesma fé216. A autoridade doutrinal da Igreja concretiza-se na infalibilidade da Ecclesia docens, na medida em que a certeza da fé exige a infalibilidade da Igreja: vox docentes et attestantis ecclesiae est medium certum et infallibilis regula ipsius fidei217.
213 Cf. Ibidem, vol. 1, p. 873. 214 Cf. Ibidem, vol. 1, p. 874. 215 Cf. Ibidem, vol. 1, pp. 874-875. 216 Cf. Ibidem, vol. 1, p. 876. 217 Cf. Ibidem, vol. 1, p. 877.
64 Roberto Bellarmino (1542-1621)
Roberto Francesco Romolo Bellarmino representa o apogeu da eclesiologia dos controversistas. Tendo vivido num período em que a reforma católica já tinha aberto caminho nos vários aspectos da vida eclesial, a sua noção de Igreja viria a torna-se a mais difundida nos séculos seguintes. As suas Controversiae Generales, publicadas entre 1576 e 1588, estruturam o lugar da Igreja diante de Deus, de Cristo e do mundo218.
No que se refere à eclesiologia, o esforço de Bellarmino é o de poder explicar qual é a verdade da Igreja. Para tal, expõe uma ampla noção que abrange os seus diferentes estados: militante, purgante, triunfante219. A Igreja militante é aquela que se manifesta nos elementos visíveis e na unidade hierárquica. Enquanto tal, a Igreja define- se nos seus vínculos de unidade como «a assembleia de homens ligados pela profissão da mesma fé cristã e pela comunhão dos mesmos sacramentos, sob o governo dos pastores legítimos e principalmente de um só vigário de Cristo sobre a terra, o Pontífice Romano»220. É perceptível, nesta definição de Igreja dada por Bellarmino, uma compreensão da relação entre a visibilidade e a espiritualidade da Igreja, mas também da relação entre a caput papal e o corpus eclesial221.
Em Bellarmino encontramos uma dupla concepção eclesiológica: (1) a Igreja é uma sociedade, e por ser uma sociedade, exige uma autoridade; (2) conservando em Cristo a primazia de rei absoluto da Igreja, a hierarquia (Papa e bispos) é instrumento nas mãos de Cristo-cabeça222. Assim, Bellarmino insiste que não há duas Igrejas – uma visível e outra invisível –, mas uma única Igreja de Cristo, que inclui a profissão de uma mesma fé, a participação dos mesmos sacramentos e a subordinação ao vigário de Cristo – o Papa223
.
De modo geral, eclesiologia de Bellarmino insiste numa concepção teológica de Igreja una e universal que tem Cristo por cabeça e transcende necessariamente as fronteiras da Igreja militante. Vemos aqui um conceito eclesiológico cristocêntrico: há
218 Cf. CONGAR, Yves – L’Église, pp. 371-372.
219 Cf. ANTON, Àngel – El misterio de la Iglesia, vol. 1, p. 881.
220 A Igreja é «coetum hominum, eiusdem christianae fideu professione et eorumdem sacramentorum
communione colligatum sub regimine legitimorum pastorum ac praecipue unius Christi in terris vicari Romani pontificis» (CONGAR – L’Église, p. 372).
221 Cf. CONGAR, Yves – L’Église, p. 373. 222
Cf. ANTON, Àngel – El misterio de la Iglesia, vol. 1, pp. 889-890.
65 uma dependência vital da Igreja a Cristo224. Porém, foi a dimensão apologética da definição de Igreja nas Controversiae de Bellarmino aquela que mais se difundiu nos manuais de eclesiologia e tratados eclesiológicos até ao século XX. O Primeiro Concílio do Vaticano, inclusive, foi bastante sensível à eclesiologia deste teólogo. Na opinião de Ángel Anton, é por este motivo que é comum considerar Bellarmino como o representante de uma noção de Igreja centrada exclusivamente nos seus aspectos externos e sociais225.