CAPÍTULO II – A Política e Economia Brasileiras de 1964 a
2.5. A Economia Política de 1964 a 1969: realismo, poder e legitimidade
Enquanto gestava-se o crescimento econômico, o autoritarismo se aprofundava. Depois de desentendimentos entre congressistas e o Governo, a linha-dura declara o quinto ato institucional em 13 dezembro de 1968,
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Banco Central do Brasil: DEPEC.
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dissolvendo o Congresso e concedendo plenos poderes ao presidente da república. Segundo Skidmore, em sua análise da formulação de política e política econômica, esse processo é resultado da forte aliança entre a linha- dura e a tecnocracia. Ao passo que essa relação provia externalidades positivas na economia, seus pressupostos se reafirmavam. A noção de que o papel do Estado era primordial se reforçava nos índices de crescimento econômico e inflação estabilizada.
Segundo o referido historiador, a chamada linha-dura das forças armadas brasileiras se denominavam realistas, no sentido de que não existem possibilidades de que o Brasil se desenvolva num cenário democrático e de abertura política. Essa percepção de mundo adviria das experiências políticas e econômicas, de corrupção e endividamento externo, de governo como Dutra, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, João Goulart, e da própria era de domínio da oligarquia agroexportadora da República Velha.
A tese era que, em momentos de crise política e econômica, o governo democrático não consegue executar as medidas de saneamento financeiro, pois seu mandato é ameaçado pelo apoio e contestação dos grupos de pressão. O populismo, portanto, era um reflexo da debilidade de governos democratas em cumprir planos de estabilização e crescimento econômico num ambiente de dependência política.
Além disso, havia também a percepção de que a continuidade do caos político e econômico levaria o Brasil à desorganização social e à vulnerabilidade de contaminação ideológica, que estaria em fase de desenvolvimento no governo esquerdista de João Goulart.
Dessa forma, somente sob um comando unitário e racional estaria o Brasil encaminhado à ordem e progresso. A unidade está personificada na ação autoritária do regime militar, autoritarismo esse que seria aprofundado no governo Costa e Silva. A racionalidade estaria na voz uníssona da tomada de decisão, e na participação da tecnocracia, que não mais vinculada a interesses partidários, atuaria de forma objetiva, ambicionando apenas sua permanência nos centros decisórios, e o interesse nacional, ou seja, a construção de poder pelo crescimento econômico e tecnológico. Como afirma Skidmore:
120 The extreme authoritarian military officers regard themselves as realistic. They do not believe that their country has the ability over the short run to achieve economic growth under an open political system. As a militant minority, they are determined to prevent any access to power by the rival minority who made, they thought, near-fatal inroads before 1964 – the subversive Left231.
Por essa razão, os bons resultados econômicos no governo Costa e Silva reforçavam essa visão de mundo. Vale ressalvar que a unidade e racionalidade não implicavam ausência de divergências no seio do poder decisório. Existia diversidade de opiniões entre os oficiais, mas a decisão acerca do debate era tomada pela hierarquia superior, e a tal decisão não cabiam contestações depois de assumida pelo corpo dirigente232.
Assim, a legitimidade econômica justificava a intensidade autoritária do regime militar brasileiro. No período Castello Branco, o processo de estabilização econômica implicou em decréscimo da legitimidade do regime recém imposto, o que levou a forte reação da linha-dura. No governo Costa e Silva, possuindo condições de direcionar gastos e investimentos, com o conseqüente crescimento econômico, a legitimidade conquistada provou a tese realista. Skidmore explica, ao comentar sobre a classe média brasileira, que:
They do not share the extremist conception of national security, nor the polarization (torturers vs. terrorists kidnappers) forced upon them. But they do quickly acknowledge the remarkable economic progress made since 1964 and appear to accept tacitly the authoritarian system because it has made possible a new continuity and coherence in economic policy making233.
A aliança entre o regime militar e a tecnocracia interessava aos dois lados. A linha-dura necessitava da capacidade técnica e dos bons resultados advindos da atuação da tecnocracia. Esta necessitava da força autoritária da linha-dura para se manter no poder, ganhando espaço para construir carreiras e evidenciar seus nomes na história política do país.
Douglas A. Chalmers, ao realizar uma análise entre grupos de pressão e regime autoritário, afirma que existe a relação entre necessidade e recursos determina a dinâmica das relações entre setor privado e setor público no Brasil:
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Cf. SKIDMORE, Thomas E. Politics and Economic Policy Making. in: STEPAN, op. cit. p. 16;
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Id. Ibid., p. 17.
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Groups in Brazil, as elsewhere in Latin America, look to the government and political processes for the satisfaction of a wide range of needs. In many fields, such as labor relations, judicial and political institutions play a key role in the resolution of disputes. The effectiveness of particular groups can be severely limited or greatly improved depending upon the degree of support they receive from higher authorities. Resources of every kind are often available only through the national government or sometimes through other national or international organizations. […] As a result, the group structures which have emerged place great emphasis on strategies aimed at securing favorable treatment from governmental officials, international
economic groupings, and national elites with available resources234.
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CHALMERS, Douglas A. Political Groups and Authority in Brazil: some continuities in a decade of confusion and change. In: ROETT, Riordan. Brazil in the Sixties. Nashville: Vanderbilt University Press, 1972. p. 57
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CAPÍTULO III – As Relações Brasil-Estados Unidos entre 1964-1969
3.1. Relações entre Estados Unidos e América Latina na década de 1960: