3. OF MICE AND MEN: ASPECTOS GERAIS E TRADUÇÕES
3.6 As editoras
3.6.1 A editora da Livraria do Globo
Segundo Marília de Araújo Barcellos (2002: 4), a história da Livraria do Globo começa no fim do século XIX, no ano de 1883, quando essa empresa foi fundada, em Porto Alegre. Seus sócios eram Laudelino Pinheiro Barcellos e Saturnino Alves Pinto, da empresa L. P. Barcellos & Cia. Poucos anos depois, Laudelino convida para trabalhar na sua livraria José Bertaso, ainda menino.
Com a Primeira Grande Guerra, o jovem José Bertaso previu a escassez de papel e sugeriu ao dono da livraria que fosse feita a importação dessa matéria-prima. Mais tarde, em dezembro de 1917, Bertaso passou de 15% de participação na empresa à função de sócio- diretor. A razão social da livraria, agora, era Barcellos, Bertaso & Cia.
Com o uso de tecnologia importada, iniciou-se a edição do Almanaque Globo e, em seguida, a publicação de autores rio-grandenses. O Almanaque foi editado por João Pinto da Silva, e contrataram Mansueto Bernardi para, além de atuar no escritório, ajudá-lo na empreitada. Mansueto Bernardi permanece como editor da Globo até 1930, quando contrata Érico Veríssimo para a Revista do Globo (BARCELLOS, 2002: 4).
Segundo Torresini (2004: 1-2), a Livraria do Globo inicialmente vendia papéis de material de tipografia e cadernos para escrita de empresas; entretanto, ao adentrar no século XX, começou a publicar obras de autores regionais, traduções da literatura universal e
103 Estes diretores fazem parte da família de Henrique Bertaso, falecido em 1977, editor responsável direto na
época em que a Editora do Globo lançou a tradução de Of mice and men, em 1940, realizada por Érico Veríssimo.
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manuais didáticos, mas foi a partir de 1930 que a sua produção de livros se intensificou, além de fundar a Revista do Globo (1929 1963). Nessa mesma década, a literatura anglo-saxônica começava a ganhar importância na editora.
A Livraria do Globo, sob as lideranças de Henrique Bertaso e Érico Veríssimo, modernizou-se, empreendendo novos projetos. Essas inovações eram motivadas por alguns fatores, conforme testemunha José Otávio Bertaso, apud Torresini (2004: 3):
no Brasil, muito pouco se traduzia, no campo da literatura, fora da língua francesa. A opção era introduzir autores contemporâneos de língua inglesa e até alemães e italianos sem abandonar o gosto nacional pela cultura francesa (...). A fim de conquistar o grande público, a saída eram os romances policiais e de aventuras. Para as mulheres, ainda concentradas na vida do lar, poderiam ser lançados romances de amor, a chamada literatura rósea. A crescente escolarização justificava a abertura de uma bem cuidada linha de livros didáticos, abrangendo o que hoje designaríamos de 1º, 2º e 3º graus, bem como obras de divulgação científica e histórica.
Laurence Hallewell (1985: 317) afirma que, inicialmente, os propósitos da Livraria do Globo eram meramente de cunho comercial. Desta forma, Henrique Bertaso viu no Publisher s Weekly, dos Estados Unidos, uma fonte adequada para procurar best-sellers . Assim, a Livraria do Globo espelhou-se na
mania anglo-americana de histórias policiais, que sua Coleção Amarela trouxe em grande parte para o Brasil, oferecendo traduções em português de E.C. Bentley, Raymond Chandler, Aghata Christie, Sidney Horler, E. Phillips Oppenheimer, Ellery Queen, Sax Rohmer, Rex Stout, SS. Van Dine e, mais que qualquer outro, Edgar Wallace (...) (HALLEWELL, 1985: 317).
Torresini cita Érico Veríssimo para destacar o sucesso que a Globo conseguiu, graças a suas estratégias comerciais:
ao cabo de alguns anos a nossa editora era conhecida em todo o país. Henrique [Bertaso] organizava uma boa rede de distribuição. Os livros com a chancela da Globo eram vistos em quase todos os recantos do Brasil. Foi graças a eles que autores europeus de línguas anglo-saxônicas e germânicas foram postos ao alcance do leitor médio brasileiro. Até então o Brasil em matéria de traduções estivera quase
exclusivamente voltado para autores franceses (VERÍSSIMO apud TORRESINI,
2004: 4-5)
Uma das estratégias desenvolvidas foi segmentar as coleções, visando públicos diferenciados: a Coleção Amarela, a Coleção Universo, a Coleção Globo, Inquéritos sobre a Rússia (que reunia opiniões polêmicas sobre a União Soviética), Espionagem (de 1931 a
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1933), a Coleção Verde (romances para senhoras e senhoritas) e a Coleção Nobel104. A Coleção Amarela, iniciada em 1931, reunia novelas policiais, de crime, mistério e aventuras, bastante populares, de leitura acessível, lançadas em edições baratas e de larga tiragem. Atraem leitores variados e formam a argamassa popularesca da editora, como disse uma vez Érico Veríssimo (TORRESINI, 2004: 5-8). A Coleção Universo, em 1934, já era conhecida por seus livros de viagens, aventuras, de leitura amena e instrutiva (TORRESINI, 2004: 9). A Coleção Globo, criada em 1932, era formada de volumes de bolso, mas de capa cartonada e uma sobrecapa com um desenho em muitas cores. Essa nova série equivaleria a uma espécie de coquetel literário em que se misturavam livros de aventuras, de caráter popular e boa literatura (VERÍSSIMO apud TORRESINI, 2004: 9-10). A Coleção Nobel, à qual pertence a tradução de 1940 de Of mice and men, realizada por Érico Veríssimo, segundo Torresini (2004: 8 12), foi lançada em 1938.
Henrique Bertaso criou o Departamento de Divulgação Literária (DIL) que, entre outras coisas, funcionava como uma agência de notícias, com a intenção de baratear os custos de divulgação de seus produtos. Bertaso, apud Torresini (2004: 6-7), afirma que, em vez de cobrar pelos seus serviços, o DIL fazia circular no espaço publicitário artigos, crônicas, contos traduzidos de jornais estrangeiros e de livros cujos direitos autorais tinham sido adquiridos pela casa. A abrangência desse canal era enorme, pois reunia mais de trezentos jornais e revistas em todo o Brasil. Um procedimento, como parte dessa estratégia, era o seguinte:
num boletim que era enviado quinzenalmente para os assinantes, havia também uma coluna própria para preencher pequenos espaços em jornais, intitulada Você sabia
que... , onde se resumiam pequenos tópicos de informações históricas, geográficas e outras curiosidades.
Ainda segundo Bertaso, apud Torresini (2004: 6-7), em troca, o que se exigia dos órgãos de imprensa assinantes dos serviços prestados era que fossem publicadas, de graça, resenhas dos livros recém-publicados pela Globo, com as capas estampadas em fac-símile. Juntamente com o material do DIL, as resenhas e os clichês montados ou demonstrados das capas eram expedidos pelo correio.
104 Barcellos (2002: 11), entretanto, relaciona uma listagem maior de coleções da Editora da Livraria do Globo:
Coleção Amarela, Biblioteca dos Séculos, Coleção Catavento, Coleção Clube do Crime, Coleção Espionagem,
Coleção Documentos de Nossa Época, Coleção Globo, Coleção Nobel, A Novela, Coleção Tucano, Coleção
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A atividade de tradução na Livraria do Globo era intensa. Um maior grau de profissionalismo tornou-se uma necessidade, melhorando a qualidade das traduções publicadas, conforme atesta Érico Veríssimo: só lá por princípios da década de quarenta é que nos foi possível pôr em prática o plano de saneamento das nossas traduções. Contratamos vários tradutores com um salário fixo. Nas salas da Editora tivemos excelentes profissionais (...) (VERÍSSIMO apud TORRESINI, 2004: 12). Sobre a atividade editorial no que diz respeito ao cuidado com as traduções, Veríssimo fornece informações importantes no seguinte trecho:
escolhido o livro a verter-se para o português, procurava-se o tradutor, este fazia sem pressa o seu trabalho, tendo à sua disposição uma rica biblioteca em que havia vários dicionários e enciclopédias (...). (...) depois que o tradutor dava por terminado o seu trabalho, os respectivos originais eram entregues a um especialista da língua de que o livro fora traduzido, para que ele os confrontasse, linha por linha, com o original, procurando verificar a fidelidade da versão. (...) Havia uma terceira etapa, a que um especialista examinava o estilo do livro, discutindo-o com o tradutor, cujo nome ia aparecer sozinho no pórtico do volume. (...) Os livros estrangeiros publicados durante 4 ou 5 anos em que esse esquema durou, são de excelente qualidade no que diz respeito à tradução. O nosso chefe maior, porém, ficava apavorado e com razão! quando examinava o custo da tradução de cada obra (...). (VERÍSSIMO apud TORRESINI, 2004: 12-13)
Essa equipe de tradutores renomados, entretanto, foi dissolvida em 1947, um ano financeiramente ruim para a Globo. Nos anos subseqüentes, a produção começou a cair, concorrendo para mudanças importantes na editora. De acordo com Torresini (1998), apud Torresini (2004: 12),
(...) segundo os próprios editores, a atenção fixa-se nos livros técnicos, livros- ferramenta, para atender às novas exigências da especialização profissional, na obra de Érico Veríssimo, na Enciclopédia Globo e no Linguaphone, curso de inglês em discos e fitas sonoras. Depois de 1948, as obras literárias, tão caras a Henrique Bertaso e a Érico Veríssimo, diminuem no Livro de Registros da Globo. Após o falecimento de José Bertaso, os herdeiros optam pela transformação da empresa em sociedade anônima Livraria do Globo S.A. da qual a Editora Globo torna-se uma filial. Em 1986, as Organizações Globo adquirem o respeitável acervo de 2.830 títulos.
Conforme informações a partir da página eletrônica do Jornal do Comércio105, os atuais membros da diretoria da Livraria do Globo são Cláudio Bertaso (diretor-presidente), juntamente com Henrique Ferreira Bertaso (diretor vice-presidente) e Elisa Morganti Bertaso (diretora-superintendente). José Otávio Bertaso consta como ex-diretor.
105 Disponível em: <http://jcrs.uol.com.br/Comercial/cadernos/empr-cent_11.aspx>. Acesso em 31 de maio de
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