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A Educação Alimentar como tema transversal

Iniciamos este tópico manifestando a crença de que a educação deve fornecer aos alunos os conhecimentos para compreenderem o mundo, ao mesmo tempo em que buscamos mostrar como o mundo se apresenta, considerando o ser humano como um ser complexo.

Para Arendt (1990), a educação é necessária não para preparar as crianças para sua vida e suas necessidades, mas porque temos que introduzi-las a um mundo comum. Sua argumentação é a favor da autoridade na sala de aula e sua visão educativa é assumidamente de uma escola como lugar do conhecimento, que transmite para o aluno conhecimentos e habilidades, ciência(s) e tecnologia, numa forma de abordagem que acompanha a explicação de suas razões e significado para o aluno e para a coletividade.

Se acreditarmos que o principal papel da escola é o desenvolvimento integral da criança devemos considerá-la em suas várias dimensões: afetiva, ou seja, nas relações com as outras crianças e adultos com quem convive; cognitiva, construindo conhecimentos por meio de trocas com parceiros mais e menos experientes e do contato com o conhecimento historicamente construído pela humanidade; social, frequentando não só a escola como também outros espaços de interação como praças, clubes, festas populares, espaços religiosos, cinemas e outras instituições culturais; e, finalmente, na dimensão psicológica, atendendo suas necessidades básicas como higiene, alimentação, moradia, sono, além de espaço para fala e escuta, carinho, atenção, respeito aos seus direitos (MEC/SEESP, 2005).

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) enfatizam que o papel fundamental da educação no desenvolvimento das pessoas e das sociedades amplia-se ainda mais no despertar do novo milênio e aponta para a necessidade de se construir uma escola voltada para a formação de cidadãos (MEC, 1998).

A Educação Alimentar e Nutricional pode ser trabalhada também como tema transversal. Fundamentalmente, acredito que a Educação Alimentar possa ser trabalhada transversalmente num projeto de promoção da saúde, em sala de aula e fora dela, demonstrando que a alimentação deve ser integrada nas diferentes disciplinas do currículo oficial.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) apresentam temas a serem abordados pelas diversas áreas e disciplinas do Ensino Fundamental. Esses temas são transversais e são denominados: ética, saúde, orientação sexual, trabalho e consumo, pluralidade cultural e meio ambiente. Além desses, reservam um espaço para que cada comunidade escolar possa discutir problemas próprios, específicos ou isolados ou trabalhar aspectos que consideram importantes, como o tema local.

Conforme o MEC, o objetivo dos Parâme-tros Curriculares Nacionais é propiciar aos sistemas de ensino, particularmente aos professores, subsídios à elaboração e/ou reelaboração do currículo, visando à construção do projeto pedagógico que leve em conta a cidadania do aluno.

Segundo o MEC, com os Parâmetros Curriculares Nacionais pretende-se criar condições, nas escolas, que permitam aos jovens o acesso ao conjunto de conhecimentos socialmente elaborados ou reconhecidos como necessários ao exercício da cidadania.

O espaço e o tempo de aprender os currículos escolares não podem ser uma simples justaposição de disciplinas que se consideram auto-suficientes, quando os conhecimentos são decorados de forma fragmentada, sem se relacionar com sua vida e o que se aprende no todo. No espaço escolar o tempo tem de mudar e ser visto, sentido, como algo adaptado à vida das pessoas e não como o regulador que adestra comportamentos.

A tarefa que proponho é pensar o ato social e comunicativo de se alimentar como interação que deve acontecer de forma efetiva, interligada com todos os componentes curriculares. Em outras palavras, é um processo interdisciplinar que orienta sobre alimentação saudável, mas respeita a autonomia de cada ser envolvido, a necessidade de cada um aderir ou não à opção para uma vida mais saudável, despertando a seu ritmo e tempo para a educação para a saúde, a educação e a alimentação saudável.

Por inúmeras vezes, na atividade prática educacional, são feitas referências à interdisciplinaridade e à transversalidade, em especial por ocasião da elaboração dos planejamentos escolares anuais. Fala-se muito na integração de disciplinas, mas quase nunca se encontra um consenso. Frequentemente, a não efetivação dessas

práticas decorre do equívoco na interpretação dos PCNs e dos conceitos de interdisciplinaridade e transversalidade.

A Educação Alimentar orienta no sentido de que uma alimentação adequada é um direito humano, uma questão de saúde e ética, pois sem o alimento não existe vida e seu excesso conduz a doenças nutricionais que podem ocasionar também a morte. Nesse sentido, a Educação Alimentar pode ser elencada como tema transversal, permitindo-se o desenvolvimento dos conteúdos de forma regular e de modo contextualizado. Conforme o Ministério da Educação e Cultura (MEC), o tratamento transversal do tema deve-se ao fato de sua abordagem dar-se no cotidiano da experiência escolar e não no estudo de uma “matéria”.

Ao analisar a escola, compreendemos que a mesma tem um compromisso com a educação, necessitando atuar de forma abrangente, não só objetivando a instrução. Deve oportunizar o ensino e a aprendizagem não só de conhecimentos, mas da realidade, habilidades, capacidades, sentimentos, atitudes. Formar o cidadão não só para o mercado de trabalho, mas para a vida, atendendo às necessidades básicas como higiene e alimentação para conviver e aprender na sociedade (MEC/SEESP, 2005).

A partir dessa reflexão pode-se compreender que o trabalho da Educação Alimentar, como uma ação interdisciplinar, pode ser realizado pelos professores e por toda a comunidade escolar, sendo necessário desenvolver uma metodologia de trabalho interdisciplinar que implica: integração dos conhecimentos ― e aqui destaco a inserção dos conhecimentos referentes à alimentação; desejar e passar de uma concepção fragmentada para uma concepção unitária de conhecimento; entender que um processo de ensino-aprendizagem está centrado numa visão de que aprendemos ao longo da vida e também sobre a vida.

Fazenda (2001), que vem estudando a interdisciplinaridade no Brasil há cerca de 30 anos, entende que o trabalho que se denomina interdisciplinar deve ir muito além de misturar intuitivamente geografia e química, matemática e português. “Tentar formar alguém a partir de tudo que você já estudou em sua vida”, define. O objetivo dessa metodologia, na sua opinião, também é bem mais profundo do que procurar interconexões entre as diversas disciplinas. Ela serve para “dar visibilidade e movimento ao talento escondido que existe em cada um de nós”.

Nesta percepção todas as ações que podem ser entendidas como práticas de ensino de Educação Alimentar são aquelas em que o centro do processo educacional é o aluno e a sua realidade. A experiência de cada aluno sustenta e marca a Educação Alimentar. Esta experiência torna-se o ponto de partida na metodologia de ensino, de modo que a teoria está sempre em função de melhorar a qualidade de vida do educando e proporcionar, associada a outras aprendizagens, a diversidade de temas desejada.

Com esta dinâmica o desenvolvimento dessa prática educacional − o sustentar da Educação Alimentar − acontecerá de forma normal e com resultados, com um educador (merendeiras, pais, professores) ensinando os alunos. Um trabalho interdisciplinar real, a partir do conhecimento que se produz, com reflexão, contextualização e socialização.

A Educação Alimentar, portanto, poderá ser elencada como tema transversal, permitindo-se o desenvolvimento dos conteúdos de forma regular e de modo contextualizado. Conforme o Ministério da Educação e Cultura (MEC), o tratamento transversal do tema deve-se ao fato de sua abordagem dar-se no cotidiano da experiência escolar e não no estudo de uma “matéria”.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais, ao elencarem os temas transversais, elegeram critérios para defini-los e escolhê-los:

Urgência social: abrange questões graves, que se apresentem como obstáculos para a concretização da plenitude da cidadania, deteriorando sua qualidade de vida.

Abrangência nacional: contempla questões que, em maior ou menor medida, e mesmo de formas diversas, são pertinentes a todo o país.

A possibilidade de ensino e aprendizagem no Ensino Fundamental: esse critério norteou a escolha de temas ao alcance da aprendizagem nessa etapa da escolaridade, em especial no que se refere à Educação para a Saúde, Educação Ambiental e Orientação Sexual, já desenvolvidas em muitas escolas. Justifica a importância da Educação Alimentar, sendo que as atividades podem ser desenvolvidas mediante recursos lúdicos, teóricos, práticos e de pesquisa (pesquisa, ação e reflexão).

Favorecer a compreensão da realidade e a participação social: os temas eleitos em seu conjunto devem possibilitar uma visão ampla e consistente da realidade brasileira e sua inserção no mundo, além de desenvolver um trabalho educativo que possibilite uma participação dos alunos. A Educação Alimentar deverá envolver a comunidade escolar (educandos, pais, educadores, equipe diretiva, nutricionista, conselho, etc.), sendo este um tema estratégico, pois engloba a saúde das pessoas. A Educação Alimentar é um tema relevante a ser discutido em qualquer disciplina ou série e com todas as faixas etárias, favorecendo o ensino e pesquisa interdisciplinar.

A ação pedagógica da interdisciplinaridade conduz para a construção de uma escola participativa, que busca a formação do sujeito, que tenta articular saber e ser, conhecimento e vivência. Acredito que a interdisciplinaridade perpassa todos os elementos do conhecimento, pressupondo a integração entre eles, sempre construindo, discutindo e desconstruindo, numa contínua evolução e crescimento.

Este trabalho humano possui fins que se manifestam por suas ações, e são perpassados por motivos, intenções, objetivos, projetos, planos, programas, planejamento, etc. Esses fins podem surgir antes ou complexificar-se durante a ação, e configuram o ensino de práticas de Educação Alimentar.

O Brasil é considerado um país em transição nutricional em razão dos recentes aumentos na prevalência de doenças crônicas, como a obesidade, entre outras. Nesse sentido, a escola desempenha papel fundamental na formação dos hábitos de vida dos estudantes e é responsável por abordar um conteúdo educativo global e transversal, inclusive trabalhando do ponto de vista da educação e da saúde, em que se insere a nutrição.

Para entendermos o que representa a Educação Alimentar, no entanto, é necessário compreender melhor o que definimos por educar. O papel da Educação Alimentar e Nutricional está vinculado à produção de informações que servem como subsídios para auxiliar a tomada de decisões dos indivíduos. Educar no âmbito alimentar e nutricional, ou melhor, introduzir a Educação Alimentar nas escolas, é propiciar a aprendizagem de conhecimentos e habilidades que permitam às pessoas produzir, descobrir, selecionar e consumir os alimentos de forma adequada, saudável e segura.

Educação Alimentar, segundo pesquisa realizada nos municípios de Horizontina e Pinheirinho do Vale/RS, envolve o capacitar e promover a conscientização quanto a práticas alimentares mais saudáveis, fortalecer culturas alimentares das diversas regiões do país e diminuir o desperdício, por meio do aproveitamento integral dos alimentos; é consumir alimentos livres de agrotóxicos, estimulando e comprando alimentos diretamente dos produtores.

A Educação Alimentar tem como objetivo orientar o indivíduo para que este construa uma alimentação saudável, sem deixar de lado a contribuição social e cultural de cada um. Nesse sentido, será efetuada a Educação Alimentar e não, como muitos definem, a reeducação alimentar, uma vez que o primeiro termo é mais constante, não desconstrói o que é feito pelo indivíduo, o que ele aprendeu até o momento. Desse modo, não se esquece e se banaliza tudo o que este consumiu e que representa muito para ele, apenas se conduz a modificação de algumas atitudes enquanto se valoriza outras.

Educar para a condição humana exige um esforço educativo no sentido de considerar a diversidade do ser humano, respeitando suas diferenças, suas potencialidades, suas capacidades. Na Educação Alimentar não pode ser diferente. Como em qualquer sistema educacional, o aluno deverá ser reconhecido como sujeito do processo, parceiro do trabalho e integrado em suas atividades.

Resumindo, o fato de ensinar a nossos semelhantes e de aprender com eles é mais importante para o estabelecimento de nossa humanidade do que qualquer um dos conhecimentos concretos que assim se perpetuam ou se transmitem (SAVATER, 2005, p. 35).

O desenvolvimento da Educação Alimentar na realidade das escolas e o trabalho deste tema de forma interdisciplinar conduzirá a uma maior aceitabilidade da alimentação escolar, uma aprendizagem integral sobre alimentação saudável, sobre o meio ambiente, a higiene, a cooperação, o lazer, a música, a biologia, a agricultura, enfim, sobre diversos conteúdos curriculares acerca dos quais se deseja que os alunos venham a obter importantes aprendizagens. Trabalhando nesta perspectiva podemos ter vidas mais saudáveis e a diminuição dos problemas dos alunos portadores de doenças nutricionais, como obesidade, desnutrição, intolerância à lactose, diabetes mellitus, dentre outras.

Em continuidade, o planejamento da Educação Alimentar não seria simplesmente para trabalhar regras de etiqueta, uso dos talheres, mas sim para a convivência com os outros e todos os conhecimentos que são mediados em sala de aula. Por que não se trabalhar o ensino de Português, de Matemática ou de Ciências de modo interligado com a Educação Alimentar?

Quanto ao modo de aprendizagem, a educação bancária8 é realidade, infelizmente, em muitas escolas, o melhor aluno é o que decora e devolve ao professor todos os conhecimentos que ele transmitiu. Romper esse modo de ensinar e se orientar, pelo que assevera Bachelard (apud LOPES, 2007, p. 60), é o caminho:

se ensinar é a melhor maneira de aprender, só aprende quem ensina. Dessa forma, se constata o empreendimento da operação dialógica: para o aprendiz se capacitar a ensinar é preciso a reconstrução do conceito a ser transmitido, por meio da organização coerente do pensamento. Não há ensino se não houver aprendizagem.

Somente um ser saudável se envolve no processo de aprender e se prepara para agir no mundo real. Por exemplo, para trabalhar as cores pode-se questionar o colorido dos alimentos ofertados na merenda; sobre o meio ambiente pode-se perguntar se os alimentos ofertados são ou não orgânicos, inclusive pode-se propor o cultivo de hortas escolares.

Ao mesmo tempo em que é apontada a importância estratégica da introdução da Educação Alimentar não se apresentam muitas orientações para esta ser instituída. O seu espaço não se mostra claramente definido. A educação alimentar e nutricional está em todos os lugares e, ao mesmo tempo, não está em lugar algum.

Todos os elementos que poderiam estar abordando o tema acreditam não ser sua responsabilidade ou competência como, por exemplo, a relação escola, família e Estado. O assunto alimentação saudável deveria ser abordado de forma intensiva por todos, mas cada qual acha não ser sua responsabilidade e acaba deixando o trabalho para outro fazer e, nesta expectativa, não se trata o tema.

8 Segundo Freire (2005, p. 67), na visão "bancária" da educação, o "saber" é uma doação dos que se

julgam sábios aos que julgam nada saber. Doação que se funda numa das manifestações instrumentais da ideologia da opressão – a absolutização da ignorância, que constitui o que chamamos de alienação da ignorância, segundo a qual esta se encontra sempre no outro.

A Educação Alimentar está sendo pouco citada nos documentos oficiais, e a Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN) a reconhece como tendo “elementos complexos e até conflituosos” que precisam ser resolvidos.

Após manifestação sobre o que acreditamos ser a Educação e a Educação Alimentar, no capítulo que segue apresentaremos a Educação Alimentar no contexto escolar das duas realidades pesquisadas.

3 A EDUCAÇÃO ALIMENTAR NO CONTEXTO ESCOLAR

Neste capítulo relatamos a metodologia utilizada na pesquisa, conhecemos os espaços em que a mesma foi realizada e apresentamos as atividades de Educação Alimentar praticadas nas escolas investigadas. Abrimos espaço para as vozes das comunidades escolares sobre o que entendem por Educação Alimentar e analisamos os resultados obtidos por estas práticas, destacando a sua importância no conjunto do trabalho da escola. São analisadas, também, as atividades de educação permanente em alimentação e saúde ofertadas para a comunidade escolar.