2 PENSANDO SOBRE ESCOLA E SOCIEDADE
2.1 A educação como forma de intervenção na sociedade
Um dos teóricos mais reconhecidos no campo da Educação de Jovens e Adultos no Brasil - Paulo Freire - afirmou, em seus estudos, que a educação é um ato político, capaz de libertar os sujeitos da situação de opressão, levando-os a uma conscientização sobre si mesmos e sobre o mundo que os rodeia. Já na década de 60, na obra Pedagogia do Oprimido, Freire apresenta a essência de suas ideias em relação ao papel da educação, considerando a importância da existência de uma educação voltada aos jovens e adultos oprimidos, e denunciando assim as práticas educativas desenvolvidas na época.
Freire difundiu, então, os ideais de uma Educação Libertadora, segundo a perspectiva de que a função da escola é auxiliar o aluno para que descubra a si mesmo e torne-se sujeito
de sua própria história. Entende-se dessa forma, que a educação deve romper com a prática pedagógica de pura transmissão de conteúdos e ter como meta formar sujeitos críticos, autônomos, capazes de transformar a realidade na qual estão inseridos.
As análises de Freire apontam a necessidade e a importância de que a educação se estabeleça através da liberdade, da prática da liberdade, ou seja, através de uma pedagogia que possibilite aos oprimidos e marginalizados se libertarem da violência de seus opressores. Dessa maneira, o filósofo tece uma profunda crítica à educação desenvolvida nas escolas, que se caracterizava / caracteriza pela imposição da cultura da classe dominante: ―Do ponto de visita dos interesses dominantes, não há dúvida de que a educação deve ser uma prática imobilizadora e ocultadora de verdades‖ (FREIRE, 1996, p. 99).
De acordo com essa visão, quem domina o poder, interessa o desenvolvimento de uma educação que não revele a realidade de dominação estabelecida entre ricos e pobres, dominantes e dominados. A esse tipo de educação chamou-se de educação bancária, onde os educandos são considerados como vazios de conhecimentos e, por assim o serem, meros recipientes onde os educadores depositarão todo saber, que precisa ser memorizado e reproduzido.
Na visão ―bancária‖ da educação, o ―saber‖ é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber. Doação que se funda numa das manifestações instrumentais da ideologia da opressão – a absolutização da ignorância, que constitui o que chamamos de alienação da ignorância, segundo a qual esta se encontra sempre no outro (FREIRE, 1987, p.33).
Assim, a educação perpetua a estrutura do poder, e a concepção bancária não só reflete na prática a distinção entre o saber do opressor e do oprimido, mas também alimenta a sua manutenção, cultivando a passividade, a adaptação, a subordinação dos educandos. Esses comportamentos fazem com que os alunos tornem-se um terreno fértil para que o professor desempenhe a função de ―[...] disciplinar a entrada do mundo nos educandos, encher os alunos de conteúdos, fazer depósitos de comunicados - falso saber - que ele considera como verdadeiro saber‖ (FREIRE, 1987, p. 36).
O saber da escola, transmitido através de uma prática bancária, serve para reproduzir a desigualdade de forma velada, dificultando aos alunos a compreensão do mundo e das relações que se engendram para manutenção da sociedade de classes. Certamente, esse saber não servirá para superação da condição de oprimido e marginalizado. Em oposição, Freire propõe a educação como prática da liberdade, uma educação que priorize a emancipação dos
sujeitos através da reflexão sobre si e sobre o mundo, para que se possam tornar conscientes da sua ação e contribuírem para a transformação da realidade social.
Outro saber que não posso duvidar um momento sequer na minha prática educativo crítica é o de que, como experiência específica humana, a educação é uma forma de intervenção no mundo. Intervenção que além do conhecimento dos conteúdos bem ou mal ensinados e/ou aprendidos implica tanto o esforço de reprodução da ideologia dominante quanto o seu desmascaramento (FREIRE, 1996, p. 98).
Ao apropriar-se reflexivamente de si mesmo, no contexto social em que vive, o aluno poderá se perceber na sua condição também de sujeito capaz de participar ativamente da construção histórica da sociedade e da sua própria história. Para tanto, é necessário que o professor desperte constantemente essa atitude reflexiva sobre o mundo e as relações estabelecidas, numa concepção problematizadora, que, para Paulo Freire, nada mais é do que o desenvolvimento da criticidade.
Nesse sentido, Freire acreditava que a transformação da realidade se daria a partir da tomada de consciência da condição material de exploração à qual os sujeitos estão submetidos. Ao dar-se conta da sua condição de explorado, o sujeito poderá construir a força necessária para promover a mudança (FREIRE, 2002).
Nesse processo dialógico, a aquisição do saber escolar torna-se possível também para as camadas menos favorecidas economicamente, uma vez que pressupõe a participação dos alunos, incentivando-os a trazer para o universo escolar o seu universo sociocultural. Essa aceitação/valorização acaba produzindo ferramentas que sejam capazes de mudar o fracasso escolar que os atinge particularmente.
Na concepção de ensino proposta por Freire, os educandos são sujeitos da construção e reconstrução do conhecimento, ao lado do educador, igualmente sujeito do processo. Assim, o fazer da escola vai além da simples transmissão de conteúdos ou treinamento dos educandos e permite o desenvolvimento de uma prática educativa voltada para a formação integral do ser humano. No percurso dessa prática educativa emancipatória, o diálogo é uma das mais importantes ferramentas.
A formação que se desenvolve por meio do diálogo tem como referência o respeito às particularidades dos sujeitos, considerando as condições em que vivem e os conhecimentos que trazem até chegarem à escola. Esse respeito, de acordo com Freire (1996), não pressupõe a uma acomodação da visão, mas também não dá ao professor o direito de subestimar os
saberes prévios dos alunos porque não estão de acordo com os saberes sistematizados e propagados pela escola.
A partir desses aspectos relacionais inerentes à prática educativa, é possível perceber que os conteúdos emanados das experiências de vida, e compreendidos sistematicamente por meio do diálogo entre os sujeitos do processo de ensino-aprendizagem, promovem a formação integral dos indivíduos e por isso não podem ser desconsiderados no desenvolvimento educacional desses sujeitos.