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2 A RELAÇÃO DO SURDO COM A MÚSICA: DISCUSSÃO SOBRE AS

2.3 Concepções sobre a Cultura Surda

2.3.2 A educação dos Surdos

Com relação à educação do Surdo no Brasil, Honora e Frizanco (2009, p.15) relatam que “três diferentes metodologias foram utilizadas. São elas o Oralismo, a Comunicação Total e o Bilinguismo”. Levando em consideração a diversidade de métodos, Silvestre (2007) declara que, quando existe a imposição de um único modelo ou método de aquisição de linguagem para todos os alunos Surdos significa que a diversidade existente não está sendo levada em conta.

O Oralismo foi a primeira tendência que apareceu na educação dos Surdos, tendo como objetivo capacitá-los na compreensão e na produção de uma língua oral. A Comunicação Total foi a segunda abordagem que se desenvolve na década de 1980. E como princípio acredita que toda forma de comunicação é válida, dentre elas, destaca-se: a fala,

leitura orofacial, treinamento auditivo, expressão facial e corporal mímica, leitura e também a escrita de sinais (HONORA; FRIZANCO, 2009).

E por fim o Bilinguismo considerado o método mais atual, tem como princípio metodológico, que a língua de sinais seja a primeira e principal língua da comunidade surda (podendo ser caracterizada como a língua materna dos membros dessa comunidade). Na metodologia do Bilinguismo, a fala é vista como uma possibilidade de comunicação secundária e não como uma obrigação que o sujeito Surdo deva cumprir (HONORA; FRIZANCO, 2009).

2.3.2.1 O Oralismo

O Oralismo consiste na busca da integração dos Surdos à comunidade ouvinte, sendo ensinados, desta forma, a desenvolverem a língua oral. (GOLDFELD, 2002). Esta metodologia foi proposta e defendida em um evento internacional realizado na cidade de Milão, na Itália, chamado Congresso Internacional de Educação de Surdos (KALATAI; STREIECHEN, 2012) e “o principal objetivo da metodologia Oralista é desenvolver a fala do Surdo, pois para os defensores deste método, a língua falada era considerada essencial para a comunicação e desenvolvimento integral das crianças Surdas” (KALATAI; STREIECHEN, 2012, p. 5).

Santana (2007, p. 121) esclarece que os defensores do oralismo têm como objetivo “auxiliar as crianças a usar sua audição residual e a crescer aprendendo a ouvir e a falar de forma que aumente seus conhecimentos e suas experiências de vida para se tornar pessoas ‘integradas’ e participantes da sociedade em geral.” Santana (2007) ainda acrescenta que:

Na abordagem oralista, a linguagem oral é valorizada, a língua a ser adquirida. Mesmo quando a língua de sinais aparece, surge apenas como um meio para alcançar a oralidade. A língua de sinais, portanto, não é vista como importante para o surdo. Ela só é indicada quando o fonoaudiólogo percebe a dificuldade ou a impossibilidade de a criança adquirir a linguagem oral (SANTANA, 2007, p. 129).

Para os profissionais que seguem essa filosofia educacional, a língua oral é a única forma de comunicação, portanto deve ser o único meio de comunicação dos Surdos, pois nessa concepção, a surdez é vista como uma deficiência que pode ser minimizada por meio da estimulação auditiva, possibilitando o aprendizado da língua oral e auxiliando a pessoa Surda a se integrar e interagir na comunidade ouvinte (GOLDFELD, 2002).

O Oralismo percebe a surdez como uma deficiência que deve ser minimizada pela estimulação auditiva. Essa estimulação possibilitaria a aprendizagem da língua portuguesa e levaria a criança Surda a integrar-se na comunidade ouvinte e desenvolver uma personalidade como a de um ouvinte. Ou seja, o objetivo do Oralismo é fazer uma reabilitação da criança Surda em direção à normalidade (GOLDFELD, 2002, p. 34).

Após o Congresso Internacional, a metodologia Oralista passou a ser utilizada pela maioria das escolas na educação de Surdos de muitos países. Em decorrência desse fato, a língua de sinais foi proibida, dando início assim a uma longa e sofrida batalha do povo Surdo para defender o direito linguístico por meio da sua língua natural, a língua de sinais (KALATAI; STREIECHEN, 2012).

Franco (1999) vê o Oralismo como um problema para a Cultura Surda, pois a partir do momento que o Surdo se integra totalmente ao mundo dos ouvintes, enfraquece os seus traços culturais, fazendo com que a Cultura Surda se torne fragilizada. Assim sendo, a Libras, que é a principal característica da Cultura Surda no Brasil, se torna “pouco entendida e de elemento fundamental da identidade desse grupo, passa ser vista como um mero instrumento que levará à aquisição da língua portuguesa” (FRANCO, 1999, p. 220).

Já Bogaerts (2013, p. 51), explica que as argumentações utilizadas para justificar a oralização do Surdo, baseavam-se na “deficiência dessas pessoas. O objetivo dos fonoaudiólogos e professores era normalizar o surdo, ensinando-o a falar. A língua de sinais, quando usada, era apenas uma ferramenta para o aprendizado da língua oral e escrita”. Skliar (1997) enfatiza o discurso afirmando que:

[...] o oralismo foi e segue sendo hoje, em boa parte do mundo, uma ideologia dominante dentro da educação do surdo. A concepção do sujeito surdo ali presente se refere exclusivamente a uma dimensão clínica – a surdez como deficiência, os surdos como sujeitos patológicos – em uma perspectiva terapêutica. A conjunção de ideias clínicas e terapêuticas levou em primeiro lugar a uma transformação histórica do espaço escolar e de suas discussões e enunciados em contextos médico - hospitalares para surdos (SKLIAR, 1997, p. 256).

Segundo Pereira (2008), o processo de oralização do Surdo se mostra ineficiente, pois o aprendizado da língua oral é complexo e longo, podendo durar entre oito e doze anos. Além de ter que aprender a desenvolver a emissão de determinados fonemas bem definidos. Por esse motivo o oralismo se mostra pouco eficiente e representa um grande retrocesso para a educação do sujeito Surdo.

O Oralismo já não encontra mais respaldo científico no século XXI. Este modelo vem sendo fortemente questionado por pesquisadores e estudiosos das áreas das Ciências Humanas desde os anos 1960. E agora passa a conceder espaço a novas percepções da Cultura Surda e de suas possibilidades socioeducacionais (FERNANDES, 2011). A história mostra que o Oralismo não dá conta de todas as necessidades e complexidades da comunicação dos Surdos, sendo por este modo substituída pela língua de sinais, a qual possibilitou aos Surdos maiores condições de desenvolvimento linguístico (GOLDFELD, 2002).

2.3.2.2 A Comunicação Total

Quando os estudiosos que pesquisam a educação dos Surdos constataram que esses indivíduos educados por meio da metodologia Oralista nunca conseguiriam se comunicar plenamente ou falar como os ouvintes de maneira satisfatória e que, mesmo com a imposição das práticas das metodologias oralistas, as pessoas Surdas insistiam em se comunicar por meio da língua de sinais, decidiu-se então que os Surdos poderiam utilizar toda e qualquer forma de comunicação. Surge, então, o método que ficou conhecido como Comunicação Total (KALATAI; STREIECHEN, 2012).

De acordo com Kuntze (2014), a Comunicação Total surgiu com o ideal da utilização de todos os meios possíveis para transmitir vocabulários e conceitos entre o ouvinte e o sujeito surdo. Segundo Kalatai e Streiechen (2012, p. 7), desta forma “o método não surge para fazer negação ao Oralismo, que até então vigorava na educação de surdos”. A Comunicação Total não está em oposição à utilização da língua oral, mas apresenta-se como um sistema de comunicação complementar que pretende reforçar a educação dos Surdos (MARCHESI, 1995).

De acordo com a concepção de Moura (2000) a Comunicação Total não é um método de ensino, mas uma filosofia que dá suporte à Cultura Surda. De acordo com Santos (2011), essa filosofia educacional de Surdos surge no Brasil na década de 1980 e tem por finalidade

[...] unir o gestualismo, língua de sinais, com o oralismo. Apesar do método de comunicação total ter sido importante para o reconhecimento da língua de sinais como parte do processo da aprendizagem dos surdos, houve uma desvalorização da língua de sinais em detrimento à língua oral. A língua de sinais passa a ser um mero suporte para o aprendizado da língua oral, sendo reconhecida como língua superior (SANTOS, 2011, p. 5).

Pereira (2008) explica que essa metodologia visa a construção e o desenvolvimento do Surdo como pessoa, e tem como maior preocupação os processos de estreitamento da comunicação entre os sujeitos Surdos e os ouvintes, e também entre os próprios Surdos. Na Comunicação Total a interação precisa acontecer de fato (PEREIRA, 2008). Sua principal meta é o uso de qualquer estratégia que pudesse permitir o resgate na comunicação das pessoas Surdas. Este modelo combinava à língua de sinais: gestos, mímicas, leitura labial, entre outros recursos que colaborasse com o desenvolvimento da língua oral (SCHELP, 2008).

Esta outra forma de pensar a educação dos Surdos, se preocupa com a aprendizagem da língua oral pela criança Surda e defende a utilização de qualquer recurso espaço-viso-manual como facilitadores da comunicação (GOLDFELD, 2002). De acordo com Moura (2000), para alcançar os objetivos educacionais deve-se usar recursos tais como “gestos naturais, Ameslan (American Sign Language – Língua Americana de Sinais), alfabeto digital, expressão facial, tudo acompanhado com fala ouvida através de um aparelho de amplificação sonora individual” (MOURA, 2000, p. 57).

Sob a proteção da filosofia educacional liberal da Comunicação Total, os diversos sistemas de sinais criados de fato conseguiram aumentar a visibilidade da língua falada, para além da mera leitura labial, e assim lograram auxiliar a compreensão da língua falada em certa medida. De fato, o valor dos recursos educacionais da Comunicação Total para viabilização da língua falada em uma série de área da aplicação para o ensino da língua escrita não pode ser negado (CAPOVILLA, 2000).

2.3.2.3 O Bilinguismo

O modelo metodológico chamado de Bilinguismo consiste em ensinar duas línguas ao mesmo tempo. No caso da educação dos Surdos, as línguas em questão são a Libras e a Língua Portuguesa. A metodologia Bilíngue é utilizada atualmente com Surdos em algumas instituições educacionais brasileiras (KALATAI; STREIECHEN, 2012). Klaus (2012) defende a educação na perspectiva bilíngue, tendo a Libras como a primeira e mais importante língua para os Surdos, obtendo condição fundamental para o desenvolvimento linguístico, cognitivo e social desses indivíduos.

Segundo Quadros (2008), a metodologia Bilíngue é usada por escolas, tendo em vista a possibilidade da criança poder utilizar duas línguas. A autora acrescenta afirmando que essa filosofia de comunicação é a mais adequada, pois considera a naturalidade da língua de sinais

e dá suporte para a viabilização do ensino da língua escrita. Segundo Moura (2000), a implantação do Bilinguismo foi uma grande vitória para o movimento cultural dos Surdos que lutava pelo reconhecimento de sua língua materna, cultura e sistema de educação.

Quadros (2008, p. 54) ainda ressalta esclarecendo que, “quando se refere ao bilinguismo, não está estabelecendo uma dicotomia, mas sim reconhecendo as línguas envolvidas no cotidiano dos surdos, ou seja, a Língua Brasileira de Sinais e o Português no contexto mais comum do Brasil”. “A proposta bilíngue surgiu baseada nas reivindicações dos próprios surdos pelo direito à sua língua e pelas pesquisas linguísticas sobre a língua de sinais” (GUARINELLO, 2007, p. 45-46).

Lacerda (1998) afirma que levando em consideração essa perspectiva, a metodologia Bilíngue se opõe ao modelo de ensino Oralista e a Comunicação Total, pois

[...] considera o canal viso gestual de fundamental importância para a aquisição de linguagem da pessoa Surda. E contrapõe-se à comunicação total porque defende um espaço efetivo para a língua de sinais no trabalho educacional; por isso advoga que cada uma das línguas apresentadas ao surdo mantenha suas características próprias e que não se ‘misture’ uma com a outra (LACERDA, 1998, p.10).

Em complemento a Lecerda (1998), Goldfeld (2002) orienta que na perspectiva de ensino Bilíngue, primeiramente deve ser ensinada e desenvolvida a língua de sinais (L1), que é a língua natural do Surdo e a única que pode propiciar a sua projeção cognitiva, social e linguística. Após a aquisição da língua de sinais, os Surdos poderão, assim, adquirir uma segunda língua, no caso do Brasil, a Língua Portuguesa (L2).

Goldfeld (2002) reforça o seu argumento em defesa do bilinguismo, afirmando que esta corrente de ensino tem

[...] como pressuposto básico que o surdo deve ser bilíngue, ou seja, deve adquirir como língua materna a língua de sinais, que é considerada a língua natural dos surdos e, como segunda língua, a língua oficial de seu país. Os autores ligados ao bilinguismo percebem o surdo de forma bastante diferente dos autores oralistas e da Comunicação Total. Para os bilinguistas, o surdo não precisa almejar uma vida semelhante ao ouvinte, podendo aceitar e assumir sua surdez (GOLDFELD, 2002, p. 42).

Com relação à aquisição da segunda língua (L2), ainda existem polêmicas. Santana (2007) destaca que há uma falta de consenso entre os autores e educadores que praticam o bilinguismo: alguns defendem a ideia de que a língua de sinais deve ser aprendida antes do português, devido à diferença estrutural das duas línguas e visando ao desenvolvimento linguístico e cognitivo do Surdo.

Outros defendem que as duas línguas podem ser aprendidas simultaneamente sem nenhum problema. Outros ainda defendem que se deve ensinar apenas a modalidade escrita da língua portuguesa, e não oral. E, por fim, há aqueles que acreditam que se deve ensinar ao Surdo ambas as modalidades do português, o ensino da oralidade podendo ou não ser feito por meio da leitura e da escrita (SANTANA, 2007).

Segundo Santana (2007), a prioridade no ensino do Bilinguismo, que muitos autores defendem, tem como base dois argumentos centrais: O primeiro é “a presença de um período crucial para a aquisição da linguagem. E o segundo, é a existência de uma competência inata, na qual para aprender uma língua, bastaria estar imerso em comunidade linguística e receber dela inputs linguísticos cruciais” (SANTANA, 2007, p.166). Santana (2007) ainda destaca que o Bilinguismo inaugura um novo ciclo de importantes debates para a área da surdez no Brasil, pois essa metodologia defende fortemente a primazia da língua de sinais sobre a língua portuguesa, que antes era aprendida simultaneamente na Comunicação Total, ou isoladamente no Oralismo.

2.4 Surdez: estigma e representação

A pessoa com deficiência ainda é vista por uma parcela da sociedade como um incapaz, um sujeito que apresenta atributos diferentes dos demais membros da sociedade. Goffman (1988) afirma que é a própria sociedade que estabelece os meios de classificar e categorizar as pessoas e o total de atributos considerados comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias.

Ou seja, em outras palavras, aqueles que não apresentam atributos considerados “normais” são excluídos e marginalizados. De acordo com Melo (2011), alguém que pertence a uma categoria com atributos incomuns ou diferentes é pouco aceito pelo grupo social, o qual sente dificuldades de lidar com o diferente e, em situações extremas, converte o diferente em uma pessoa má e perigosa.

Sobre o preconceito que envolve a pessoa com deficiência, Omote (1994) explica que:

[...] não é algo que emerge com o nascimento de alguém ou com a enfermidade que alguém contrai, mas é produzida e mantida por um grupo social na medida em que interpreta e trata como desvantagens certas diferenças apresentadas por determinadas pessoas. Assim, as deficiências devem, a nosso ver, ser encaradas também como decorrentes do modo de funcionamento do próprio grupo social e não apenas como atributos inerentes às pessoas identificadas como deficientes. A deficiência e não deficiência fazem parte do mesmo quadro; fazem parte do mesmo tecido padrão (OMOTE, 1994, p. 68).

Assim, observamos que apesar dos esforços feitos para erradicar de uma vez por todas a discriminação com relação às pessoas com deficiência, ainda existe um forte preconceito, que tenta imprimir nesses indivíduos um estereótipo de incapacidade, mas esse preconceito cristalizado, que ainda observamos nos dias atuais, foi construído e desenvolvido historicamente, passando por períodos históricos e fases distintas.

Como por exemplo, com relação ao Surdo. Na “Antiguidade, acreditava-se que o pensamento não podia se desenvolver sem a linguagem e que a fala não se desenvolvia sem a audição: quem não ouvia, portanto, não falava e não pensava” (STELLE; STRIEICHEN, 2013, p. 19921). Na Idade Média, a Igreja Católica teve um papel importante na discriminação da pessoa com necessidades especiais, pois para essa instituição o homem foi criado de maneira perfeita e instituído como a “imagem e semelhança de Deus e a doença representava punição” (HONORA; FRIZANCO, 2009, p.19-20), e essa “falta” caracterizada como uma punição, logo separava o homem do seu criador.

Durante anos, simplesmente não existia a possibilidade dos Surdos desenvolverem suas faculdades intelectuais e, por isso, eram impedidos de frequentar a escola e a convivência com as outras pessoas era impossibilitada. Em alguns países, os Surdos eram lançados ao mar, jogados do alto dos rochedos, abandonados em praças públicas, trancados em asilos ou oferecidos em sacrifício aos deuses (STELLE; STRIEICHEN, 2013). “Algumas culturas simplesmente eliminavam as pessoas com deficiência, outras adotaram práticas de interná-las em grandes instituições de caridade, junto com doentes e idosos” (SASSAKI, 2006, p. 30).

Louro (2013a) corrobora a discussão ao afirmar que:

A postura da sociedade perante uma pessoa com deficiência passou por diversas fases no decorrer da história da humanidade. Em culturas antigas, como a espartana por exemplo, as crianças que nasciam com algum tipo de deficiência eram atiradas do monte Taigeto. Na Idade Média, tais pessoas começaram a fazer parte da sociedade, mas como "bobos da corte" ou mendigos. Com o advento do Renascimento, a sociedade passou a se preocupar mais com elas e a partir de então, iniciativas em prol da educação e reabilitação das pessoas com deficiência aumentaram gradativamente (LOURO, 2013a, p. 01).

Buscando desconstruir esse preconceito, Freire (1996, p. 60) afirma que “qualquer discriminação é imoral e lutar contra ela é um dever, por mais que se reconheça a força dos condicionantes a enfrentar”, que insistem em perpetuar a discriminação. E com relação à pessoa com deficiência essa discriminação é evidente, pois esse sujeito visto com preconceito pela sociedade está inserido nesse contingente. De acordo com a concepção de Pfeifer (2003), o problema é tão grave que chega a um ponto em que tentar conscientizar a sociedade sobre a

“normalidade da diferença das pessoas com deficiência” transforma-se em um ato quase sem eficácia, pois o tema ainda é ignorado por muitos.

Levando em consideração esse fato, Pfeifer (2003, p. 29) diz que “é por este motivo que os grupos minoritários se unem e formam grupos de pressão para que suas diferenças sejam reconhecidas na forma da lei. Este é o único modo de garantir sua cidadania e de garantir uma existência pacífica, para si e para sua diferença” minimizando assim, os efeitos da discriminação.

Todavia o que é preciso realmente compreender é que ter uma determinada deficiência é diferente de ser um deficiente em seu estado pleno. A sociedade precisa saber que o sujeito que possui algum tipo de necessidade especial não necessariamente tem o seu corpo deficiente em um estado pleno, ou seja, o fato de possuir uma deficiência não incapacita o indivíduo por completo. Sobre esse assunto Louro (2013a) explica que:

Portanto, generalizar incapacidades, bem como, transferir determinada incapacidade a outros planos da vida do indivíduo porque ele é incapaz, por exemplo, de andar ou ver, cria uma generalização da deficiência em tal ponto, que a pessoa passa a ser vista em sua totalidade como deficiente, e não como alguém que tem uma determinada deficiência (LOURO, 2013a, p. 2).

Quando voltamos nossa visão especificamente à surdez, Haguiara-Cervellini (2003) diz que essa suposta deficiência é um estigma imposto pela sociedade que precisa ser superado. “O indivíduo estigmatizado não assume os papéis sociais conforme prescritos dentro do que se aceita como normalidade, ele é desviante e, portanto, indesejável” (HAGUIARA-CERVELLINI, 2003, p. 44). Ao tratar sobre estigma, Goffman (1988) afirma que esse termo vem desde os gregos antigos e sua conotação se refere àqueles que na idade antiga possuíam sinais corporais feitos com cortes ou fogo.

Os gregos utilizavam essa nomenclatura para aqueles indivíduos que possuíam atributos pejorativos ou indesejáveis que a sociedade procurava repudiar. Esses sinais eram marcados na pele e identificavam o indivíduo que os possuísse pelo resto de sua vida. Os estigmatizados eram escravos, criminosos, traidores ou indivíduos de má reputação social, esses indivíduos deveriam ser evitados pelos demais membros da sociedade por apresentar tais sinais de rejeição (GOFFMAN, 1988).

Haguiara-Cervellini (2003) afirma que para superar a imagem de estigmatizado, o Surdo procura desenvolver esforços incansáveis para tentar adquirir o que lhe falta, para assim, provar sua humanidade aos ditos sujeitos “normais”. Nessas condições o Surdo se sente incomodado no seio da sociedade, pois

Sua surdez dificulta a aquisição da linguagem, mas esta é fundamental nas relações humanas e na vida em sociedade. Portanto, ele deve empreender esforços muito além do que fazem os ouvintes para se apropriar da linguagem oral. Entretanto, sua fala sempre trará as marcas da surdez e ele continuará a ser discriminado (HAGUIARA-CERVELLINI, 2003, p. 61).

Skliar (2006, p. 23) indica que as diferenças entre os ouvintes e Surdos “não podem ser descritas em termos de melhor e/ou pior, bem e/ou mal, superior e/ou inferior, positivas e/ou negativas, maioria e/ou minoria etc. São simplesmente diferenças,” e todos devem estar conscientes dessas diferenças.

Mas a postura hipócrita adotada por uma parte da sociedade se torna evidente, quando é proposta a integração dos Surdos estigmatizados no seu seio, entretanto, ao mesmo tempo, a mesma sociedade desenvolve artimanhas e mecanismos para afastá-los e evitá-los, já que seus atributos pejorativos ou a falta de atributos desejáveis a incomodam criam aversão e lhe causam dor (HAGUIARA-CERVELLINI, 2003).

Tendo em visa tais contradições o sujeito estigmatizado se auto-isola, desenvolve a desconfiança, a hostilidades, a ansiedade e a depressão (HAGUIARA-CERVELLINI, 2003). Sacks (2010) chama atenção para os constrangimentos que o Surdo pode vivenciar por não se expressar da mesma forma que o restante da sociedade ouvinte, que na maioria das vezes o despreza. O preconceito vivenciado pelos Surdos por não conseguirem se expressar

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