• Nenhum resultado encontrado

5.1 Aspectos sociais

5.1.5 A educação e o trabalho da criança e do adolescente

Assim como o trabalho da criança e do adolescente está intimamente ligado com a cultura, a pobreza e a miserabilidade social, a sua abolição está diretamente vinculada à educação. Somente pela educação a criança e o adolescente poderão modificar a sua realidade social e conseguir colocação melhor no mercado de trabalho.

Se a realidade social brasileira é caótica, com grande parte da população percebendo até um salário mínimo, um dado positivo é ser o quadro social brasileiro permeável ou flexível, vale dizer, não há barreiras visíveis para a ascensão social. Pela educação pode-se ascender no quadro social e modificar-se toda uma história familiar.

A OIT, na busca da proteção de jovens trabalhadores, sempre colocou a educação como valor preponderante em relação ao trabalho. Atualmente, existem uma declaração e dois acordos internacionais importantes que oferecem diretrizes na busca da educação como forma de eliminação do trabalho infantil. São eles:

a) A Convenção sobre os Direitos da Criança (no art. 32 trata da garantia contra o trabalho que possa obstar a educação; no art. 28 garante o direito da criança à educação primária, gratuita e obrigatória; no art. 29 define a educação da criança como um desenvolvimento amplo de capacidades e conhecimentos);

b) A Convenção n. 138 da OIT, que reconhece uma relação entre o término da escolaridade obrigatória e a idade mínima para o trabalho; e a Recomendação n. 146 da OIT que orienta os Estados para aumentar a idade mínima laboral para 16 anos, como forma de ampliar a escolaridade e melhorar a qualidade de ensino;

c) Declaração Mundial sobre a educação para todos, elaborada quando da Conferência Mundial sobre a Educação, realizada na Tailândia, que reconheceu em todo o planeta a educação como direito fundamental e condição necessária para o desenvolvimento geral da humanidade e das nações (FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A INFÂNCIA, 1997, p. 5-22).

No Brasil, a política de incentivo educacional pode ser sentida, na CF, no art. 205 que prevê a educação como direito de todos e dever do Estado, da família e da sociedade, com vistas ao preparo para o exercício da cidadania e para a qualificação para o trabalho. O art. 208, inciso I, assevera que o ensino fundamental é obrigatório e gratuito, e o art. 227, inciso III, dá garantia de acesso do trabalhador adolescente à escola e direito à profissionalização, prevista na EC. N° 20/98, na faixa de idade de 14 a 16 anos.

O direito à profissionalização ganhou um novo impulso e passou a ser prioritário, com ampliação das hipóteses legais de aprendizagem, que, segundo o art. 62 do ECA é a “formação técnico-profissional ministrada segundo as diretrizes e bases da legislação de educação em vigor.”

A legislação da educação, materializada na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDBE) – Lei n. 9.394/96 – assevera no seu art. 40: “A educação profissional será desenvolvida em articulação com o ensino regular ou por diferentes estratégias de

educação continuada, em instituições especializadas ou no ambiente de trabalho”. Por sua vez, o Decreto n. 2.208/97, que regulamenta a LDBE, no seu art. 4°, reconhece que a educação pode ser ministrada por instituições federais, públicas ou privadas, sem fins lucrativos.

A nova lei da Aprendizagem, Lei n. 10.097, de 19 de dezembro de 2000, alterou os art. 402, 403, 428 e 433, da CLT, de forma a sintetizar no Diploma Consolidado o novo comando em relação à aprendizagem do adolescente. O art. 428 da CLT, com a nova modificação, conceitua o contrato de aprendizagem como:

o contrato de trabalho especial, ajustado e por escrito e por prazo determinado, em que o empregador se compromete a assegurar ao maior de quatorze anos e menor de dezoito anos, inscrito em programa de aprendizagem, formação técnico-profissional metódica, compatível com o seu desenvolvimento físico, moral e psicológico, e o aprendiz, a executar, com zelo e diligência, as tarefas necessárias a essa formação.

O parágrafo 1° deste artigo exige como pressuposto para a validade do contrato a matrícula na escola e freqüência nas aulas.

Uma das maiores inovações trazidas por esta Lei reside na possibilidade de o contrato de aprendizagem se estabelecer diretamente entre o aprendiz e a empresa ou por qualquer entidade que ofereça um programa de aprendizagem, não necessariamente vinculado ao sistema S.19 Também há previsão de que, na hipótese de insuficiência dos serviços prestados pelo sistema S, o percentual de contratação obrigatória de aprendizes (art. 429 da CLT) nas empresas poderá ser preenchido por meio de terceirização, patrocinada por entidades sem fins lucrativos, cuja finalidade seja a profissionalização.

19

Considera-se sistema S o bloco formado pelo Serviço Nacional de aprendizagem na Indústria (SENAI), Serviço Nacional de Aprendizagem no Comércio (SENAC), Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR) e Serviço Nacional de Aprendizagem no Transporte (SENAT).

Tais inovações foram trazidas como forma de alcançar os adolescentes carentes na faixa de 14 a 18 anos (que como visto no tópico 4.1 é bastante representativo), também em razão da proibição do trabalho a adolescentes na faixa de 14 a 16 anos, salvo na condição de aprendiz. Porém, tal mecanismo não consegue albergar todos os adolescentes carentes, prevalecendo, ainda, a tese da extemporaneidade da modificação da idade para o trabalho.

O contrato de aprendizagem não pode ser aplicado a todos os tipos de trabalho, pois a atividade, objeto da aprendizagem, deve estar especificada pelo Ministério do Trabalho, órgão responsável para determinar as atividades sujeitas ou não ao processo de aprendizagem, cuja relação de atividades encontra-se defasada em relação às atividades desenvolvidas atualmente.

A educação é importante, bem como a formação profissional, mas, diante da realidade social brasileira, não é possível tachar, rigidamente, a proibição de qualquer trabalho a menores de 16 anos, cujo limite de idade anterior (14 anos) vinha atendendo a uma parcela de adolescentes carentes. A legislação deve, primeiramente, vincular o cumprimento da formação escolar obrigatória como parâmetro para o ingresso no trabalho.

Merece ser ressaltada, também, a necessidade de implantar-se nova política educacional nas escolas públicas brasileiras, as quais encontram-se muito aquém do desejado. Não conseguem atender às necessidades das crianças e sequer oferecem alguma perspectiva para o futuro por conterem deficiência em termos qualitativos muito mais que quantitativos. Isso sem falar no professor que ganha muito pouco e, por conseguinte, não consegue qualificar-se ou bem desempenhar sua atividade docente, ante a necessidade de buscar outras fontes de renda.