Nos ciclos das doenças transmissíveis as pessoas são importantes porque é a sua ação, ou não ação, em um ambiente particular, que irá permitir a sua transmissão ou controle. Contudo, as ações de tratamento, prevenção ou controle dessas enfermidades foram formuladas para dar pouca ênfase às pessoas. A resistência dos seres humanos na adoção de comportamentos preventivos pode requerer uma mudança em programas de controle de doenças e sua monitorização. Uma coisa importante a considerar aqui é a educação, mas uma educação que visa não apenas superar a resistência dos indivíduos, mas incentivá-los a participar ativamente das ações de prevenção e controle.
Segundo Briceño-León (1996), dois princípios devem nortear qualquer ação de educação para a saúde: a) conhecer o ser humano; b) contar com os seres humanos. Conhecer o ser humano envolve a compreensão de suas crenças porque, para efeito do entendimento do comportamento das pessoas, a realidade é como as pessoas pensam e, o que elas pensam nem sempre coincide necessariamente com o que outra pessoa também pensa ou com aquilo que foi cientificamente comprovado. Este conhecimento de crenças requer explorar seus hábitos e
formas tradicionais de vida, ou seja, circunstâncias em que vivem as pessoas. O outro princípio envolve contar com a participação dos seres humanos, este princípio parte da premissa que ninguém pode proteger a saúde de outra pessoa, se esta não quer fazê-lo por si mesmo. Assim, há que se considerar que os programas de saúde não podem ser impostos à comunidade, sem ou apesar da vontade dos indivíduos.
De acordo com essas premissas, surge então o questionamento: por que as pessoas atuam desta ou daquela maneira? Há muitas teorias diferentes nas ciências sociais. Existem várias abordagens na chamada Teorias da Ação, algo que durante anos tem motivado estudos de sociólogos, psicólogos e cientistas políticos. Destes estudos emergiram duas correntes de pensamento: aqueles que dizem que as pessoas agem pelas circunstâncias e a outra que leva a crer que as pessoas agem em função de seus valores e crenças. Segundo Briceño-León (1996), a tendência é buscar trabalhar com ferramentas para promover a combinação das duas linhas e propor modelos de transformação de seres humanos e suas circunstâncias.
Então como é possível compreender o homem e suas circunstâncias guiando-se por duas linhas de pensamento diferentes? Como saber o que pode induzir uma pessoa a assumir responsabilidades e agir nos programas de saúde, seja na família ou comunidade? Segundo Briceño-León (1996) quando falamos de educação para a participação da comunidade em programas de saúde, estamos pensando em como é possível usar o conhecimento de teorias de ação individual e social para a mudança no comportamento dos indivíduos. Para este autor, será a educação para a participação comunitária a estratégia que permitirá usar o conhecimento que deriva da pesquisa científica, para promover as mudanças de comportamento do ser humano de modo a contribuir para o controle das doenças. Para tanto, segundo o autor, são sete as premissas que envolvem a educação para a participação: I- A educação não é apenas o que é ensinado em programas educacionais, mas em toda a agenda da saúde; II- A ignorância não é um buraco a ser preenchido, mas uma plenitude de ser alterada. III- Não existe um que sabe e outro que não sabe mas, dois que sabem coisas distintas; IV- A educação deve ser dialógica e participativa; V- A educação deve reforçar a confiança das pessoas em si mesmas; VI- Educação deve procurar reforçar o modelo de conhecimento esforço-resultado porque se você quiser obter as pessoas envolvidas e motivadas a agir, você deve acreditar que esta ação terá um resultado; VII- A educação deve estimular a responsabilidade individual e a cooperação coletiva.
Aprofundando a análise da Tese II, relativa a ignorância e transformação dos indivíduos, Briceño-León (1996) ressaltou que o objetivo da educação não é preencher a lacuna da ignorância, mas transformar o conhecimento anteriormente existente no indivíduo
(cognitivo e comportamental). É muito importante explorar saberes e práticas, para assim identificar claramente a matéria-prima sobre a qual iremos desenvolver o trabalho educativo. Não é só a informação que faz com que as pessoas mudem as suas atitudes e posteriormente o seu comportamento. Existem várias evidências de que isso não ocorre desse jeito. O que faz as pessoas agirem de uma ou de outra maneira é muito mais complexo do que as simples informações que elas possuem sobre um determinado campo do saber.
O exemplo do que foi mencionado, foi descrito por Koppart e Raju (1995) em estudo realizado com 1199 membros de duas comunidades da Índia, Andhra Pradesh e Orissa. Os autores exploraram o impacto do conhecimento sobre as atitudes em relação a hanseníase. Os resultados mostraram que, em geral, um nível elevado de conhecimento não necessariamente gerou atitudes positivas. Houve uma atitude geral negativa, apesar de 35% a 50 % dos participantes com elevado nível de conhecimento.
Nicholls, Wiens e Smith (2003) realizaram estudo no Paraguai com o objetivo de explorar os fatores que contribuem para o atraso retardo na identificação dos casos de hanseníase. Os autores evidenciaram que as crenças tradicionais, que persistem em relação à saúde não estão dentro do controle próprio de um indivíduo.
As crenças tradicionais diminuem a importância dos primeiros sintomas da hanseníase e faz com que as pessoas permanecem inconscientes da necessidade de ajuda. O estigma continua a impactar as pessoas afetadas pela hanseníase e muitas pessoas preferem os tratamentos oferecidos pelos terapeutas naturais. Os resultados sugerem que a educação em saúde deve desempenhar um papel central na difusão do conhecimento e lidar com as atitudes da comunidade em geral para conseguir mais avanços substanciais nas atitudes e comportamentos tradicionais relacionados à doença.
Em outros estudos, a exemplo a pesquisa desenvolvida com a prevenção de câncer de pele (LOESCHER et al., 1995) evidenciou que, apesar do aumento do conhecimento do público em geral sobre os perigos da excessiva exposição aos raios solares, os programas educativos não obtiveram efeito na alteração de comportamentos relativos ao uso de protetores solares, ou de vestuário protetor.
Estudo desenvolvido no Brasil por Lira et.al. (2012) mostrou que os pacientes que afirmaram conhecer a doença e seu tratamento não estavam realmente conscientes dos princípios da terapia e evidenciaram nível baixo de adesão ao tratamento. Ressaltaram que a identificação das principais razões pelas quais os pacientes não aderem corretamente ao tratamento vai ajudar os profissionais da saúde a encontrar soluções rápidas e eficazes para resolver esta importante questão.
4.8 AS INTENÇÕES PREVENTIVAS E SUA IMPORTÂNCIA PARA AS AÇÕES