CAPÍTULO I FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
1.1. A educação inclusiva como processo a ser construído
A educação escolar dos surdos é concebida como um processo a ser construído em direção à democratização das oportunidades sócio-educativas, com o direito que têm todos os cidadãos, de desfrutar de espaços comuns da vida em sociedade, para aprender a conviver na coletividade e terem garantida uma sólida educação. Idéia que se reveste de grande incongruência pois jamais se imaginou tanta receptividade a esse novo pensar e também tanta resistência.
Estima a ONU que por volta do ano 2010, o processo de construção da inclusão social culminará com o apogeu da sociedade inclusiva sob o esforço coletivo, para interagir exitosamente com a diversidade humana, numa contextualização de aprendizagens múltiplas e saberes diversificados. Enfim, a inclusão nos remete a
enxergarmos para além das cercanias da individualidade e do egoísmo, ante a convicção de que é preciso formar novos círculos de amizade, ampliando o universo das relações. Saber administrar as diferenças é compreender que tudo está interligado no planeta e, cada um de nós está conjugado à imensa cadeia ecológica. No mundo globalizado, deve-se reconhecer que não há espaço para exclusões discriminações e/ou preconceitos.
Se a inclusão escolar é importante, a inclusão social é fundamental para o desenvolvimento de cada país e sua inserção no contexto da prosperidade mundial. Este despertar de idéias coroa a grande revolução sociocultural, irradiando o senso de cidadania consciente exercida na evolução dos próprios talentos. A inserção, introdução e envolvimento de pessoas que apresentam necessidades educacionais especiais ao sistema escolar, favorecem as oportunidades de equalização, para usufruírem com direito e liberdade dos bens e serviços culturalmente disponíveis, tendo assegurado o poder de acesso, permanência e terminalidade dos níveis de escolaridade, através da investigação das adequações que contemplem o desenvolvimento de suas eficiências. As pessoas surdas são parte integrante da população em geral e, como tal, devem ter o mesmo acesso aos bens sociais e aos serviços e recursos aos quais tem direito, a coletividade.
Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs (1998), a inclusão consiste na “inserção de todos sem distinção de condições lingüísticas, sensoriais, cognitivas, físicas, emocionais, étnicas, sócio-econômicas ou outras e, requer sistemas educacionais planejados e organizados que dêem conta da diversidade dos alunos e, ofereçam respostas adequadas às suas características e necessidades”. (p.8)
Uma sociedade que traga todas as crianças para a vivência comum da igualdade, do respeito mútuo, com a promoção da cidadania construída sob uma nova ordem a ser proposta. É a lógica que mexe com os novos paradigmas da contemporaneidade. Ela é incondicional, pressupõe a valorização do homem na luta por uma nova escola. A escola do alvorecer dos milênios, apta a concretizar idéias que
correspondam às necessidades de uma instituição aberta à filosofia da heterogeneidade, onde a presença da diversidade sensorial, física, motora ou superdotação, entre as tantas que a sociedade vem absorvendo, representa o eixo catalizador e ao mesmo tempo a grande alavanca da mudança social.
Trabalhar com a inclusão significa trabalhar com as ineficiências da escola, num contexto de pluriculturalidade. Portanto, a inclusão assinala para a construção de experiências de solidariedade entre os alunos, que se expressam como altamente educativas e favorecedoras de seu desenvolvimento individual e social.
O movimento inclusivista constitui-se numa nova força cultural poderosa de pensamento e ação frente à diversidade, cujos resultados beneficiam todos os indivíduos, a sociedade e a humanidade em geral, através da qualidade das relações que se estabelecem, para procurar atender ao pluralismo cultural que estará beneficiando a todos. Trata-se de um novo paradigma capaz de elevar a consciência dos cidadãos, aprofundando as relações sob um inter-relacionamento amplo e produtivo. Movimento que tenta resgatar a valorização da cultura da diversidade no currículo escolar, devendo a escola adequar-se ao aluno, respeitando suas especificidades, providenciando os aportes de que necessita, para garantir seu desenvolvimento integral nos diferentes níveis como: o cognitivo, o afetivo, o social, o psicomotor, entre outros.
Segundo ERICH FROMM (1970), o homem está perdendo a capacidade de independência, amor e razão, desenvolvendo em seu lugar, forças destruidoras muito perigosas.
O homem moderno sente-se ameaçado por um mundo criado por ele próprio. Desse modo, conviver bem, de modo inteligente com as diferenças, representa uma habilidade saudável que necessariamente será incorporada à cultura de novos milênios. Conforme FROMM (1970), “ O homem não está interessado exclusivamente na sobrevivência biológica e sociológica, mas também em valores, no desenvolvimento daquilo graças ao qual ele é humano”. (p.97)
que incide tanto na individualidade como na educação familiar e na educação escolar. Segundo esta reflexão, a escola poderá contribuir mais e melhor na medida em que ressignificar o seu papel que é político e pedagógico.
A inclusão, portanto, deve ser concebida como uma questão social, política e cultural que se assenta na constituição coletiva do conhecimento e, na habilidade para a eletividade de novas relações, operacionalizando ações competentes que permitam alçar perspectivas humanizadoras e revidem as ameaças da vida contemporânea. A ousadia, a credibilidade devem ser o contraponto da perplexidade no movimento inclusivo, pois na sociedade contemporânea, o imprevisível, o inusitado fazem parte do contexto e, as perplexidades estão ligadas aos desafios, que se sobrepõem à conformação. São fatores que impulsionam à busca de novos rumos, à tomada de novas decisões e à releitura do valor da ética.
Segundo STAINBACK (1999), “Para nossas sociedades e comunidades serem ética, moral e legalmente justas, a inclusão é uma necessidade”. (p.30)
O convívio proximal possibilita uma interação equilibrada, desprovida das expectativas e ansiedades conflitivas, que o desconhecimento do outro provoca nas relações, sob a angústia de não ter o controle do que poderá vir a suceder. Todos precisam superar-se, sair do próprio medo e construir sua ousadia, criar novos espaços. O que não se pode esquecer é que existem variáveis que interferem no desenvolvimento dos indivíduos, mas não são determinantes.
Como qualquer fato histórico, a inclusão acontece testando nossa inteligência relacional e o nosso talento para a inovação à modernidade. Cabe portanto, explorar tudo aquilo que pode reverter-se em benefício das relações humanas, orientando as pessoas a interagirem na sociedade globalizada com espírito solidário, respeito à individualidade e à identidade cultural, priorizando o bem-estar social; enfim, educando-se ao educar.
O compromisso com o bem-estar do cidadão é o fundamento que deve sustentar a inclusão educacional para viabilizar a inclusão social. Certamente a
consolidação de um procedimento educativo capaz de promover e incorporar as forças do relacionamento social, será o sustentáculo para a difusão de princípios que despertam a consciência do ideal de crescer.
A diversidade precisa passar a ser vista não como um problema, mas como fato capaz de tornar mais fraterna e afetiva a aproximação entre os homens, transformando o respeito mútuo e a solidariedade humana, no imperativo das relações sociais. Assim, a escola torna-se responsável pela formação de cidadãos mais éticos e além disso, poderá favorecer a todos que tenham a oportunidade de conhecer a vida humana em toda a sua dimensão.
É preciso entender como compromisso de todos, a educação de todos os cidadãos. Isto envolve um processo persistente de desestabilização da inércia sociocultural a que foi submetida a sociedade. Cada indivíduo exercendo a cidadania, poderá não apenas detectar as carências existentes na educação do surdo mas sobretudo contribuir com projetos alternativos favorecedores da causa.