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CAPÍTULO 2 – O CAMPO MUSICAL CEARENSE: ENCONTROS E PARCERIAS

3.1 A educação informal e a música independente

Após a exposição de parte da trajetória formativa dos sujeitos e o campo musical ao qual eles estiveram inseridos, parte-se para a compreensão do que o CD Compositores e

Intérpretes Cearenses representou para a cena cearense e as reflexões que seus participantes

trazem sobre a produção do citado CD. Para isso, realiza-se a aproximação entre a educação informal e a música produzida de forma independente.

A educação informal é constituída de relações de trocas que resultam em aprendizados: trocas de experiências e significados que agregam novos sentidos ou se somam ao habitus do indivíduo. Tais experiências podem ocorrer por meio de uma mera viagem sem grandes objetivos. Rogério (2011, p.22) fala de como os deslocamentos podem receber uma interpretação do ponto de vista pedagógico. De como as viagens podem indicar rotas de aprendizagem:

Decorre desse aspecto [a viagem] inerente à atividade do músico, sua importância formativa. No percurso social das aprendizagens no campo artístico, o músico se lança em viagens e segue como as águas de um rio que, conforme os eventos, os obstáculos, necessita reorientar sua rota. (ROGÉRIO, 2011, p.24)

Essa formação por meio dos deslocamentos ocorreu com o Pessoal do Ceará, com os músicos do Massafeira e com integrantes do NUCIC. A trajetória formativa está presente nas diversas viagens feitas individualmente e/ou acompanhando familiares e, depois, enquanto grupo. As irmãs Ana e Zezé Fonteles saíram da Parnaíba-PI para Fortaleza; André Lopez saiu de Quixadá no Ceará, foi até o Rio de Janeiro onde morou alguns anos e conheceu Cristina Francescutti. Cristina saiu do Rio Grande do Sul e antes de morar do Rio e encontrar André já havia vivido em Curitiba e em Pirassununga, São Paulo. Depois de se conhecerem, os dois viajaram para Brasília, onde moraram por um tempo. Seguiram viagem para Belém, onde também ficaram um determinado tempo para somente depois se fixarem em Fortaleza; Eugênio Leandro saiu de Limoeiro do Norte, Ceará, e veio para a capital; Luis Fidélis veio do Crato, também do interior do Ceará; e Parahyba veio do interior da Paraíba para Tauá, Ceará e somente depois Fortaleza.

Vale lembrar que, após se constituírem enquanto músicos, fizeram juntos várias viagens para realizar apresentações no interior do Estado, nas caravanas promovidas pela

UFC e pelo SEBRAE67, além de se apresentarem enquanto NUCIC, na Paraíba, Recife, Rio Grande do Norte e Piauí, como cita Francescutti ao falar sobre a divulgação do CD

Compositores e Intérpretes Cearenses:

[...] teve posteriormente várias viagens pelo Nordeste, a gente viajou para o Piauí, Rio Grande do Norte, Pernambuco, procurando organizar o NUCIN – Núcleo de Compositores e Intérpretes Nordestinos. A gente chegou a partir desse movimento para esse ampliado. (Cristina Francescutti)

A ideia de ampliar o NUCIC para NUCIN – Núcleo de Compositores e Intérpretes Nordestinos – foi facilitada em algumas cidades devido às relações de amizade que os membros do NUCIC possuíam em alguns estados. Tais relações favoreceram a intenção do grupo em ampliar as possibilidades de fazer shows e se fortalecerem enquanto músicos:

Em Teresina, como a Ana Fonteles e a Zezé Fonteles são piauienses, então a gente teve um acesso bom lá. Em João Pessoa também, porque já conhecíamos alguns músicos de lá como o Milton Dornelas. E Recife já foi mais difícil porque é muito grande, a gente teve mais dificuldade pra se articular, mas conseguimos alguma coisa, fizemos um show no teatro do parque lá. Lá nesse show do Teatro do Parque tinha músicos de Recife, tinham músicos de João Pessoa e tinham músicos do Ceará se apresentando lá. (Cristina Francescutti)

Todo esse percurso entre os integrantes e essas trocas entre cidades fortaleceram a formação desses indivíduos em diversos sentidos. Tais características de formação dizem respeito à educação informal. O efeito do deslocamento geográfico e a imersão em outra cultura causam interferências que são inevitáveis, como explica Lahire:

Por outro lado, a vida de um indivíduo em uma sociedade, não só fortemente marcada pela divisão do trabalho, mas pela multiplicidade dos espaços ou dos princípios de socialização concorrentes, faz com que cada indivíduo singular raramente se proteja do contato mais ou menos duradouro com pessoas, situações e instituições, cujas crenças e disposições para agir não são a que ele incorporou até o momento. (Lahire, 2004, p.43)

Esses contatos com pessoas, situações e instituições com uma determinada frequência atribuem aos sujeitos disposições das quais eles não poderiam evitar. Tais experiências formativas se aproximam do modelo de uma produção musical independente. “Tais disposições se exteriorizam nos percursos individuais e estabelecem opções estratégicas em busca da legitimação das suas criações artísticas.” (Rogério, 2011, p.32). A escolha por não esperarem por uma gravadora e seguirem produzindo o próprio trabalho de forma independente remete ao habitus de cada integrante do NUCIC:

O efeito de campo exerce-se em parte por meio do confronto com as tomadas de posição de todos ou de todas as parcelas daqueles que também estão engajados no campo (e são outras encarnações distintas, e antagônicas, da relação entre um habitus e um campo): o espaço dos possíveis realiza-se nos indivíduos que exercem uma “atração” ou uma “repulsão”, a qual depende do “peso” deles no campo, isto é, de sua visibilidade, e da maior ou menor afinidade dos habitus que leva a achar “simpáticos” ou “antipáticos” seu pensamento e sua ação. (BOURDIEU, 2010, p. 55)

Esta reflexão de Bourdieu fornece explicação sobre como o habitus dos sujeitos possuem dispositivos semelhantes, que contribuíram para a aproximação dos indivíduos para a formação do coletivo. A produção independente aproxima-se da educação informal, ou mesmo da não-formal, na medida em que existe uma troca abundante de vivências e informações que não estão explícitas muitas vezes, mas que interferem nos comportamentos e na maneira de fazer dos indivíduos, como explica Rogério:

Essa pluralidade social tem relevância tanto no período de formação inicial das pessoas como nos novos contextos em que implementam suas ações, o que nos fornece uma compreensão mais ampla e flexível sobre como os agentes fazem suas escolhas no caminho. (ROGÉRIO, 2011, p. 35)

À medida que a sociedade se movimenta e se reorganiza a cada tempo, interfere em maior ou menor grau nas escolhas dos sujeitos. Pode-se dizer, assim, que a formação do

habitus de cada um dos integrantes do NUCIC apresenta mais semelhanças do que diferenças,

dessa maneira, é possível perceber uma aproximação dentro do contexto musical da década de 1980 em Fortaleza.

3.2 A cena independente no Ceará: alternativas para a crise de oitenta e a