Refletir, sobre os desafios do povo brasileiro de denunciar a realidade desigual e hegemônica de uma sociedade marcada por lutas de classes que oprimem o seu povo em que a elite dominante, que se faz detentora do mundo do trabalho e do capital, impondo, por isso, uma realidade dura, cruel e desumanizadora e propor um convite a ações mais humanizadoras a partir da educação, convidando o leitor ao debate de nossa realidade educacional.
Considerando a visão de Marx apresentada por Sucholdolski (2010, p. 55) da seguinte maneira:
Marx considera a educação como algo que se realiza através do trabalho e na comunidade dentro dos marcos do desenvolvimento histórico, em cujo transcurso se operam dois processos opostos. Sociedade e trabalho no percurso histórico criam e formam os homens. Todavia, esses processos nas sociedades classistas os desumanizam, ainda que ofereçam ao mesmo tempo grandes possibilidades para o seu desenvolvimento. Na época do capitalismo essa contradição tornou-se particularmente aguda. A divisão crescente do trabalho, o papel crescente da propriedade privada e de opressão de classe chega a ser um fator cada vez mais forte de diferenciação que destrói o vínculo do indivíduo com o trabalho e a sociedade e, por sua vez, aniquila a vida individual.
Tendo como destaque a realidade de um povo sofrido e lutador, marcado pela opressão de uma elite escravocrata e vil, porém este povo continua a sonhar, a buscar e a trabalhar incessantemente e incansavelmente, buscando realizar o “sonho possível” e o
“inédito viável”.
4.1. Um olhar integral numa sociedade marcada pela “inclusão excludente”
Muito tem sido dito sobre a necessidade de inclusão, ou seja, da possibilidade de acesso, a oportunidade e o crescimento; porém, se faz necessário dizer que a inclusão aqui citada não se refere somente à inclusão das pessoas com deficiência. Ao falar em ser humano, não é possível dividir, “departamentalizar” ou “fragmentar”. Falar do humano é compreender que ele é um ser completo. Desta maneira, ao falarmos em educação com o olhar no humano é possível compreender que ela poderá promover o acesso a novas realidades e ao desenvolvimento de suas múltiplas complexidades, gerando assim grandes oportunidades. Contudo, é importante compreender que a educação não se resume a
“competências e habilidades” de uma Base Nacional Comum Curricular (BNCC), ou um Plano Nacional de Educação (PNE), pois é uma construção e não uma “fórmula mágica” a ser preparada para atender “os requisitos do mercado”.
A educação é uma realidade que vai além, é uma construção, um crescer de possibilidades, um encontro de opiniões, um somar de conhecimento, uma expressão cultural de um povo, como definida por Freire (1989, p. 29): “A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa”.
O mesmo autor adverte que “se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda” (FREIRE, 2000, p. 67), pois, “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor” (FREIRE, 2015a, p. 43). Portanto, é fundamental que o educador compreenda o seu papel, no ato de ensino porque “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção” (FREIRE, 2015b, p. 98), pois “o educador se eterniza em cada ser que educa” (FREIRE, 2015a, p. 103).
Sendo assim, educar é mais do que um projeto, é um processo integral de desenvolvimento do ser humano, é um educar como “prática para a liberdade” (FREIRE, 1989), como um ato contínuo de coragem e amor, pois não há um só dia que não se aprenda nesta grande escola o que é a vida.
Porém, a hipocrisia da atualidade nos faz crer que vivemos em uma sociedade que se diz em busca de inclusão ou de acesso ao desenvolvimento, mas sobre a qual Kuenzer (2002, p. 01-17) faz uma importante reflexão, nos convidando a pensar em duas lógicas atuais, a da inclusão excludente e a de exclusão includente.
A “exclusão includente” corresponde a uma lógica equivalente e contraditória a da
“inclusão excludente”, pois do ponto de vista da educação e com relação direta ao mundo do trabalho, foram definidas por ela da seguinte maneira (KUENZER, 2002, p. 12):
A inclusão excludente, ou seja, as estratégias de inclusão nos diversos níveis e modalidades da educação escolar aos quais não correspondem os permitem concluir que está em curso um processo que pode ser caracterizado como “exclusão includente”. Ou seja, no mercado identificam-se várias estratégias de exclusão do mercado formal, onde o trabalhador tinha direitos assegurados e melhores condições de trabalho, acompanhadas de estratégias de inclusão no mundo do trabalho através de formas precárias.
Assim é que trabalhadores são desempregados e reempregados com salários mais baixos, mesmo que com carteira assinada; ou reintegrados ao mundo do trabalho através de empresas terceirizadas prestando os mesmos serviços; ou prestando serviços na informalidade, de modo que o setor reestruturado se alimenta e mantém sua competitividade através do trabalho precarizado. Da mesma forma, as cadeias produtivas se alimentam, na ponta precarizada, do trabalho quase escravo, do trabalho infantil, do trabalho domiciliar ou terceirizado, que têm se constituído em estratégias de superexploração do trabalho.
Uma lógica perversa em curso cada vez mais voraz e destrutiva, em prol deste
“deus” mercado não se trata de uma disfunção, mas um processo de poder e acúmulo de
capital.
É importante destacar que esta é a lógica das novas relações entre capital e trabalho em tempos de mundialização do capital e reestruturação produtiva, viabilizadas por Estados de tipo neoliberal. Não se trata, portanto, de mera disfunção de efeitos passageiros, mas da própria possibilidade de acumulação do capital, posto que a reestruturação produtiva se alimenta e se dinamiza quanto mais produz o seu contrário: o trabalho precarizado necessários padrões de qualidade que permitam a formação de identidades autônomas intelectual e eticamente, capazes de responder e superar as demandas do capitalismo. (KUENZER p.14, 2002)
O que é alarmante reconhecer que tais afirmações da autora são cada dia mais evidentes. Dados divulgados em 31/10/2019 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), com base nos dados produzidos pela PNAD Contínua49 (Pesquisa Nacional por amostra de Domicílios Contínua) demonstram os números dessa perversidade, ou seja,
“do mercado e a precarização da força do trabalho”, num processo cada vez mais veloz e feroz de um estado neoliberal e desumano.
Vejamos um quadro resumido do estado de precarização. Temos uma taxa de desocupação de 11,8% no trimestre móvel, encerrado em setembro de 2019, o que representa uma população desocupada de 12,5 milhões de pessoas. Trata-se de um número assustador que se mostrava em queda, que serão terrivelmente agravados assim que publicados os dados oficiais no fechamento do trimestre abril, maio e junho de 2020, previsto para 18 de agosto de 2020 em que serão apresentados os números referentes aos impactos da maior crise sanitária e econômica de nossa história, que obrigou ao isolamento social (iniciado em 17 de março de 2020) em diversos estados, desnudou a incompetência de um governo federal e que promete ceifar milhões de empregos e milhares de empresas.
Cabendo aqui um esclarecimento da dificuldade de manter atualizados tais dados, porém se faz necessária a sua publicação neste relatório, de modo a conhecer os sofrimentos de nosso povo. Estamos no viver da história, em meio à maior crise humanitária, social, política e em breve econômica de nossa história. A mercê de líderes nacionais que merecem ser chamados pelos nomes dos cargos que ocupam, sejam eles ministros ou presidente, não sabem o que fazer, mentirosos, alheios às necessidades do povo e negacionistas da ciência, perseguidores do saber humano, amantes de si mesmos com desejos declarados de sabotar a democracia na luta do poder e no esconder de seus crimes. Um grupo de negacionistas acéfalos, genocidas e fascistas e outros adjetivos que poderiam descrever essa caterva que se encontra no obscurantismo, coabita com empresários e corruptos no discurso dito “liberal e conservador”. Enquanto o povo brasileiro
49 A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, PNAD Contínua, é uma pesquisa realizada pelo IBGE com o objetivo de produzir continuamente informações sobre mercado de trabalho, associadas a características demográficas e educacionais. (fonte: www.econ.puc-rio.br › datazoom › pnadc)
sofre as limitações financeiras e no enterrar dos seus mortos que aumenta cada vez dia mais.
No entanto, a fim de conhecermos o que representa uma “inclusão no mercado de trabalho”, que confirma a lógica da “inclusão excludente”, serão apresentados dados com base em publicações anteriores, que demonstram a queda na taxa de desocupação e se dá no aumento da informalidade, do subemprego e do desalento.
GRÁFICO 3 – Taxa de Desocupação Dessazonalizada
Já a população ocupada é de 93,8 milhões, um crescimento 1,6% (mais 1,5 milhão de pessoas) em relação ao mesmo trimestre de 2018 (92,3 milhões).
GRÁFICO 4 – PNADC – População Ocupação Dessazonalizada
No entanto, a população fora da força de trabalho é de 64,8 milhões de pessoas.
Um retrato ainda mais assustador é a da população subutilizada50 que está em 27,5 milhões de pessoas, levando em consideração que a população brasileira é de aproximadamente 200 milhões de habitantes. É possível afirmar que o Brasil tem 13,7% de toda a população nacional subutilizada, o que de fato representa 24% da PEA (População Economicamente Ativa)51 que se estima em 106,3 milhões de pessoas, uma dura realidade que praticamente se mantém nos últimos 3 anos.
50 População Subutilizada: é um conceito que abrange a população desempregada, subocupadas por insuficiência de horas (estão empregadas, mas gostariam e poderiam trabalhar mais) e a força de trabalho potencial (pessoas que não buscam emprego, mas estão disponíveis para trabalhar) Fonte:https://valor.globo.com/brasil/noticia/2017/11/17/mercado-tem-268-milhoes-de-trabalhadores-subutilizados-aponta-ibge.ghtml
51 PEA – População Economicamente Ativa – é um conceito elaborado para designar a população que está inserida no mercado de trabalho ou que, de certa forma, está procurando se inserir nele para exercer algum tipo de atividade remunerada. No Brasil, de acordo com Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a PEA brasileira compreende 63,05% da população, apesar de esse número não considerar aqueles que não trabalham com contrato formal ou carteira assinada. Ainda segundo o IBGE, do total da população ativa no Brasil, pouco mais de 20% encontram-se no setor primário, 21%, no setor secundário; e 59%, no setor terciário – Fonte: PENA, Rodolfo F. Alves.
"População Economicamente Ativa – PEA"; Brasil Escola. Disponível em:
(https://brasilescola.uol.com.br/geografia/populacao-economicamente-ativa-pea.htm ). Acesso em 15 de dezembro de 2019.