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A educação para a morte

No documento O luto como questão bioética (páginas 81-84)

IV. APOIO E PREVENÇÃO DO LUTO

1. A educação para a morte

Falar numa nova educação para a morte e numa nova ars moriendi (arte de

morrer)209 significa socializar a morte, devolvê-la ao espaço público e familiar, promovendo a reconciliação com o carácter finito, transitório e mortal do ser humano.

Esta educação envolve a comunicação210 e discussão dos temas associados à morte e ao luto, como a perda de pessoas significativas, as doenças, os acidentes e o confronto com a morte, pois este assunto desapareceu da comunicação entre as pessoas.

Apesar da vulgarização da morte na comunicação social, reina a conspiração do silêncio, mas a realidade apressa-se a desmentir esta suposta invulnerabilidade.

Por um lado, os casos de HIV e de cancros, em idades cada vez mais jovens, com longos períodos de hospitalização e consequente privação da interacção com o meio que lhes era familiar, coloca em causa a capacidade de médicos, pais e professores lidarem e comunicarem nestas situações. Por outro lado, o crescente prolongamento da vida, nos idosos, nem sempre associado à melhoria da qualidade de vida, acarreta o confronto com a perda dos amigos e/ou do cônjuge, sendo motivo de sofrimento e, sobretudo, de constrangimento.

A discussão do tema da morte no meio escolar deverá dirigir-se preferencialmente aos professores, mas também aos demais funcionários, capacitando-os para esta abordagem e contribuindo não para negar, mas para facilitar a expressão e elaboração do luto pela

209 Como adaptação actualizada dos tratados medievais da “boa morte”, sugiro a consulta de

MONBOURQUETE, J.; LUSSIER-RUSSELL, D., El precioso tiempo del final. Aprender a morir. Maliaño: Sal Terrae, 2005.

210 Cf. KOVÁCS, Maria Júlia, «Educação para a morte». In: Psicologia, Ciência e Profissão. 25 (2005), pp.

perda de um aluno. Na escola poder-se-ão abordar as seguintes matérias: “como falar com uma criança que sofreu a perda de pessoas significativas; como integrar uma criança gravemente enferma nas actividades didácticas e de recreação; como lidar com o suicídio de uma pessoa conhecida na escola”211

.

A educação para a morte envolve ainda a simulação teórica de situações de guerra, violências, catástrofes naturais e suas possíveis prevenções, querendo significar, em última instância, um maior respeito pela vida humana.

Esta educação no meio escolar, deverá iniciar-se desde a infância, através de conversas, livros, filmes, palestras e, sobretudo, pela resposta às perguntas das crianças; devendo aprofundar-se na adolescência e juventude, pelo envolvimento de todos os níveis de ensino, desde o Básico ao Universitário. Não falar ou reflectir sobre estas temáticas limita as possibilidades de enfrentar a morte e o luto de forma sadia.

No que respeita à educação para a morte em meio hospitalar, recordemos que estes profissionais são treinados para combater a doença, podendo a morte ser encarada como um erro e um fracasso profissional. Com os agentes de saúde importa desenvolver as seguintes temáticas: como comunicar más notícias; “como lidar com pacientes que apresentam forte expressão emocional: medo, raiva, tristeza; como desenvolver o tratamento de pacientes sem possibilidade de cura, aprofundando a questão da diferença entre curar e cuidar; como cuidar de sintomas incapacitantes que causam muito sofrimento e dor; como abordar a família aquando da aproximação da morte (…); como lidar com a expressão do desejo de morrer por parte do paciente, ou da família, que não suporta ver tanto sofrimento”212.

Este trabalho deverá ser dirigido, em primeiro lugar, a quem lida mais directamente com os temas da morte e do luto, como sejam os médicos, enfermeiros, e psicólogos, mas sem descurar outros profissionais, como os bombeiros, polícias e directores funerários entre outros.

A morte faz parte do quotidiano destes profissionais, sendo a falta de preparação e cultura sobre este tema uma séria limitação no seu trabalho. A formação nesta área

211 KOVÁCS, Maria Júlia, «Educação para a morte», p. 488. 212 KOVÁCS, Maria Júlia, «Educação para a morte», p. 490.

contribui para diminuir a frustração e a desmotivação laboral, permitindo ainda a aceitação e expressão saudável dos conflitos internos associados às fortes emoções.

Uma das tarefas principais incide na facilitação da comunicação, na expressão dos sentimentos e necessidades da pessoa em causa e das outras pessoas afectadas. Pois, nestes profissionais a premência do cuidado dos outros, associada ao confronto contínuo com a morte e o luto em detrimento das suas próprias necessidades, poderá camuflar certos problemas não resolvidos porque não verbalizados, podendo a educação para a morte actuar, também, como dinâmica preventiva da exaustão (burn-out).

A autora refere-se ao aumento exponencial das depressões, sendo este um problema de saúde pública, devido à má elaboração do luto, quando as pessoas “adoecem em função de uma carga excessiva de sofrimento sem possibilidade deste ser elaborado”213.

Lidando os hospitais mais frequentemente com situações de perda e morte, dever- -se-ão abordar estes temas, também, nas comissões multidisciplinares de bioética, a partir das situações concretas; sem descurar uma maior relevância deste tema nos currículos académicos, no que se refere ao ensino universitário e académico214.

Contudo, não basta formar um corpo de especialistas na morte e no luto, a sociedade no seu todo deverá crescer na capacidade de responder às situações emergentes

in loco com maior sentido de humanidade, procurando a melhor formação e informação

sobre a temática da morte e do morrer.

Outro campo de acção, na educação para a morte, prende-se com a formação dos profissionais dos meios de comunicação social. Sabemos como a morte encontra-se omnipresente nos noticiários, novelas, filmes e documentários. Ali, a imagem da morte (guerra, tragédia) surge de forma insistente e repetitiva, para logo depois ser mostrado “um anúncio ou notícia que muda de assunto, levando a uma banalização da morte”215. O desafio consistirá em discutir a possibilidade de um espaço que promova a reflexão dos temas relacionados com a morte, tratando este assunto de forma mais humana, evitando-se o uso inadequado destas imagens com a finalidade de subida das audiências.

213 KOVÁCS, Maria Júlia, «Educação para a morte», p. 494.

214 Em Aveiro, foi criada recentemente a Sociedade Portuguesa para o Estudo e Intervenção no Luto

(SPEIL), com a finalidade de promover a investigação científica sobre o luto e fomentar o debate na sociedade portuguesa. Para conhecer melhor a sua acção e objectivos consultar o site: www.speil.pt

No documento O luto como questão bioética (páginas 81-84)