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A educação para o trabalho no chão da escola

No documento CLÁUDIO FARIAS DE SOUZA JÚNIOR (páginas 20-24)

CAPÍTULO 1: AS PRÁTICAS DE ENSINO NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E

1.1 A educação para o trabalho no chão da escola

Provavelmente, uma das maiores barreiras impostas no cotidiano de boa parte dos professores de História no curso de seu ofício é o de despertar o interesse dos alunos para os conteúdos das aulas. Mesmo com o esforço de muitos profissionais, ainda persiste a resistência por parte dos discentes com relação à disciplina. Além do pouco interesse que desperta, existe a ideia de que a aprendizagem dos seus conteúdos pode se dar por meio da simples memorização. O desinteresse é, em muitas vezes, originado pelo fato de os alunos terem dificuldade em se perceber como sujeitos históricos, o que torna os assuntos propostos pelos materiais didáticos algo distante e nada atrativo. Pensando a partir dessa perspectiva, temos uma possibilidade de intervir nesse contexto do ambiente escolar, fazendo com que os alunos não só se entendam como sujeitos no processo histórico, mas que também passem a entender o lugar em que vivem como um espaço de constantes transformações e múltiplos significados.

E se tratando do ensino durante o período noturno, seja em turmas dos anos finais do ensino médio ou na educação de jovens e adultos, surgem daí demandas e desafios específicos para os professores dessas modalidades da educação. Já de início, torna-se necessário estarmos atentos aos interesses específicos desses alunos, assim como para suas experiências. Para Thompson, essas singularidades não deveriam passar despercebidas, como também deveriam ser elementos norteadores do processo educacional.

Toda educação que faz jus a esse nome envolve a relação de mutualidade, uma dialética, e nenhum educador que se preze pensa no material a seu dispor como uma turma de passivos recipientes de educação. Mas, na educação liberal de adultos, nenhum mestre provavelmente sobrevivera a uma aula - e nenhuma turma provavelmente continuará no curso com ele - se ele pensar, erradamente, que a turma desempenha um papel passivo. O que é diferente acerca do estudante adulto e a experiência que ele traz para a relação. A experiência modifica, às vezes de maneira sutil e às vezes mais radicalmente, todo o processo educacional; influencia os métodos de ensino, a seleção e o aperfeiçoamento dos mestres e o currículo, podendo até mesmo revelar pontos fracos ou omissões nas disciplinas acadêmicas tradicionais e levar a elaboração de novas áreas de estudo (THOMPSON, 2002, p. 13).

Partindo da ideia de equilíbrio entre o rigor intelectual e o princípio da experiência, Thompson defende uma maior proximidade do meio acadêmico com outras práticas de conhecimento, criticando a forma unilateral como as instituições lidavam com as práticas extramuros (THOMPSON, 2002, p. 45-46). Trazendo essa discussão para o ensino médio, e

levando-se em consideração o perfil dos alunos da EJA, podemos perceber como os saberes dos alunos inerentes ao lar, à família, à escola, às formas de trabalho e quaisquer outros espaços de sociabilidade podem vir a ser contemplados e dialogarem em consonância com os conteúdos estudados pelos docentes com suas turmas. E foi a partir de noções preliminares sobre as características e interesses dessa modalidade específica, que busquei expor a possibilidade de uma proposta de ensino que referencie as experiências dos alunos com um tema que desperta bastante interesse entre eles: as transformações do mundo do trabalho.

A ideia surgiu no decorrer das aulas ministradas nas turmas dos anos finais da Educação de Jovens e Adultos. Nos primeiros anos em que tive a oportunidade de trabalhar nesta referida modalidade de ensino, houve momentos do curso do ano letivo, em que tive a necessidade de expor o tema da Revolução Industrial e das significativas mudanças nas relações de trabalho na Inglaterra do século XVIII. Abordando aspectos como o surgimento das fábricas e os impactos que estas proporcionaram para os trabalhadores do período estudado, percebi que houve um pouco mais de atenção dos alunos a esses conteúdos, em especial dos mais velhos, que regressaram para a escola depois de muitos anos ausentes. Ficou evidente que a proximidade da idade adulta junto às experiências de vida desses alunos os inclinaram a demonstrarem interesse por assuntos referentes ao mundo do trabalho e suas transformações. A possibilidade de trabalhar essa temática em diálogo com as relações laborais do tempo presente nos proporcionaram boas discussões em sala, promovendo também a fala dos alunos, tanto dos que já possuíam experiências no mercado de trabalho, quanto dos que almejavam o primeiro ou um novo emprego, e de como a escola se insere no contexto da busca por essas oportunidades (onde o fato de muitos deles terem retomado os estudos se deu pela dificuldade de terem mais chances no mercado de trabalho, já que não haviam concluído o ensino médio).

Além das experiências acima descritas, tive também a oportunidade de ministrar nas escolas do Estado do Ceará a disciplina de Núcleo de Trabalho, Pesquisa e Práticas Sociais (NTPPS)1 em anos letivos anteriores. Devido ao fato de se tratar do turno da noite, essa

1 O projeto Núcleo de Trabalho, Pesquisa e Práticas Sociais (NTPPS) é uma iniciativa conjunta do Instituto Aliança (IA) e da Secretaria de Educação do Estado do Ceará (SEDUC), iniciada em 2012. Tem como objetivo promover, em articulação com a política pública de educação do Ceará, uma reorganização curricular do ensino médio, de modo a garantir ao adolescente e jovem acesso equitativo e qualificado a programas que permitam a aquisição de conhecimentos e de competências ligadas à vida cotidiana e à integração entre a educação geral, a educação básica para o trabalho e a educação profissional no ensino médio. A proposta tem por base a metodologia desenvolvida no Com.Domínio Digital (CDD), adequada às indicações da UNESCO para o desenvolvimento de "Protótipos Curriculares de Ensino Médio e Ensino Médio Integrado". O NTPPS funciona como um elemento articulador do currículo na escola, que trabalha competências socioemocionais dos estudantes, de forma transdisciplinar, através de oficinas, e articula as áreas do conhecimento de modo interdisciplinar e contextualizado, por meio de projetos de pesquisa desenvolvidos pelos estudantes. O Núcleo trabalha com o desenvolvimento de competências pessoais, sociais, produtivas e cognitivas, no sentido de estimular o protagonismo estudantil e a autonomia intelectual do educando. A carga horária é distribuída durante o ano letivo em 4h/a por semana, contando sempre

disciplina sofria alterações para se adequar à carga horária, sendo rebatizada como “Formação para o Trabalho”. Ao contrário do período diurno, onde havia um melhor acompanhamento da gestão da escola no andamento da disciplina, na condição de professor no turno da noite, tive a liberdade em selecionar os assuntos a serem trabalhados pelo material didático. A princípio, busquei seguir o conteúdo programado pelos livros da disciplina fazendo a seleção de alguns textos, porém o desenrolar das aulas não foi satisfatório. Além do material não se apresentar adequado para a faixa etária, alguns tópicos se mostraram muito distantes da realidade dos alunos. O material didático em si, que tinha uma melhor aceitação e desenvolvimento nas séries do ensino médio regular, não se encaixava de forma proveitosa no perfil dos alunos da EJA, principalmente por questões de carga horária. Divididos em três manuais, os conteúdos propunham discussões inerentes à escolha de uma profissão e questões afins sobre o mundo do trabalho, e os planos de aula propostos contavam com uma coletânea de textos específicos sobre questões de autoestima, pertencimento ao meio e técnicas de pesquisa, que seriam desenvolvidas mediante a realização de atividades lúdicas e debates gerados pelas leituras. Por conta das limitações de tempo do turno da noite, a maioria dessas atividades se tornavam impossíveis de serem realizadas.

Voltando à experiência, com um menor tempo de carga horária e a dificuldade de se encaixar esses conteúdos dentro do curso da EJA (que até então ainda tinha a duração de dois anos) exigiam a escolha de temas mais sucintos e próximos da realidade desta modalidade de ensino. Procurei, então, selecionar por conta própria outros conteúdos e temáticas para as aulas da disciplina, no intuito de despertar um interesse maior dos alunos durante os debates em sala.

A avaliação, que na proposta original dos manuais previa a realização de seminários de apresentação por parte dos alunos ao término de cada bimestre, resumiu-se na EJA a exercícios de interpretação textual sobre o cotidiano do trabalho. Como foi dito acima, o material didático em si, encaixa-se de maneira mais satisfatória nas séries regulares, e acabava por exigir adaptações para melhor ser desenvolvido no ensino noturno. O fato de já estarmos lidando com um público majoritariamente trabalhador era o principal motivo para promover mudanças no planejamento das aulas, o que também demandava a necessidade de se trabalhar em sala outros temas além dos conteúdos inicialmente propostos pela disciplina de Formação para o Trabalho.

O período em que ministrei a disciplina de Formação para o Trabalho também foi o momento de significativas mudanças políticas e econômicas no país. A instrumentalização do

com 2h/a geminadas, nas quais se trabalham diversos temas transversais, em três principais eixos temáticos: 1) Projeto de Vida; 2) Mundo do Trabalho; 3) Iniciação à Pesquisa Científica.

discurso de que um grande número de brasileiros desempregados foi uma das principais justificavas para os grupos que defendiam o impeachment de Dilma Rousseff, fato consumado no ano de 20162. Uma das principais medidas a serem defendidas pelo governo interino, a partir de então, foi a aprovação de uma reforma trabalhista que mudaria significativamente a Consolidação da Leis do Trabalho (CLT) no ano posterior.

Durante o processo, com o auxílio dos professores da Área de Humanidades da escola, procuramos debater sobre a iminência da mudança das leis trabalhistas em sala, buscando com os alunos um debate plural sobre as novas regras e suas consequências, como a Lei da Terceirização3, que mudou drasticamente as regras do trabalho temporário. Na condição de professor da disciplina de História, busquei exemplificar em sala sobre como as leis trabalhistas são resultado de um processo de luta e debate entre os sujeitos históricos, e que não foram conquistadas de forma simples, sendo estas sempre passíveis de mudanças. Alertava, portanto, que cabia aos trabalhadores a vigilância na sua manutenção e cumprimento. O contexto no qual estávamos inseridos no período colaborou bastante para o desenvolvimento da disciplina em sala, proporcionando também a possibilidade de aprimorar esses colóquios em oportunidades futuras, seja na disciplina eletiva de Formação para o Trabalho ou mesmo nas aulas de História.

Além das situações acima descritas, surgiram novas discussões acerca do mundo do trabalho em que novamente pude estabelecer diálogos a partir das aulas do conteúdo da Revolução Industrial: a emergência do trabalho por meio de aplicativos, que muda drasticamente a relação do trabalhador com seus “empregadores”, além de abrir espaço para abordar os conceitos de meio de produção e precarização das atividades laborais. E é a partir dessa realidade vivenciada pelo público atendido pela EJA que tomo como desafio a construção de uma proposta de aula que busque abordar os conceitos do mundo do trabalho em consonância com o ensino de História, estabelecendo um diálogo mais preciso sobre o assunto, e também

2 “Nas classes médias, em seus setores mais conservadores (...) desencadeou-se um verdadeiro ódio ao governo Dilma e ao PT de Lula, particularmente, a partir das rebeliões de junho de 2013. Nas camadas médias baixas, o desencanto e a revolta também se amplificaram, pois os salários começaram a diminuir, a inflação dava sinais inquietantes e o aumento do desemprego começava a inverter aquela que até pouco tempo era a marca dos governos petistas, qual seja, a significativa alta dos empregos” (ANTUNES, 2018, p. 260).

3 “As flexibilizações, as terceirizações, o aumento da informalidade e do desemprego serão consequências imediatas da aprovação da reforma trabalhista (PLC 38/2017). Esta reforma desfigura em definitivo a CLT, ao instituir o preceito do negociado sobre o legislado, que elimina o patamar basal dos direitos, e também ao introduzir o nefasto trabalho intermitente (...) além de restringir em muito a abrangência da Justiça do Trabalho - cuja extinção é o objetivo verdadeiro do empresariado brasileiro -, ente tantos outros aspectos nefastos”

(ANTUNES, 2018, p. 293).

buscando dar conta de trabalhar as respectivas competências no que concernem às propostas pedagógicas da educação básica sobre a inserção dos discentes no mercado de trabalho4.

No documento CLÁUDIO FARIAS DE SOUZA JÚNIOR (páginas 20-24)