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A educação profissional privada: SENAI e SENAC

3 EDUCAÇÃO PROFISSIONAL: UMA TRAJETÓRIA HISTÓRICA

3.2 A educação profissional privada: SENAI e SENAC

Visto que trouxemos o surgimento da Educação Profissional pública no Brasil, se faz necessária a inserção desta de cunho privado, uma vez que possuem semelhanças nas ofertas e modalidades de cursos, porém diferem no currículo e tratamento metodológico.

A Educação Profissional privada tem seu surgimento em 22 de janeiro de 1942 com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI por meio do Decreto nº 4048, mas teve seu início oito anos antes em 1934 a partir do Centro Ferroviário de Ensino e Seleção Profissional, o qual se configurou a partir da junção de industrias ferroviárias Este centro realizava tanto o treinamento de aprendizes menores, como o aperfeiçoamento de operários adultos e de engenheiros com base em processos metódicos de ensino e aprendizagem a partir dos graus de dificuldade. Com o passar do tempo, e a partir da disseminação em 1937 das escolas ferroviárias em todo o território nacional, incluindo a “Central do Brasil”, o Centro Ferroviário procurou desenvolver seus funcionários trazendo professores e instrutores técnicos para garantir que estes além e aprenderem as técnicas, se

tornassem também multiplicadores nas 25 escolas existentes em 1972. Cabe ressaltar que essa disseminação dos Centros Ferroviários, foi uma determinação do Governo Federal na posição do Ministério da Educação e do Trabalho, para que as empresas que tivessem 500 funcionários ou mais oferecessem cursos de aperfeiçoamento e/ou qualificação com certificação. Para que isso ocorresse, foi constituída uma comissão para visitas de acompanhamento e validação dos mesmos e que culminou com a substituição do Decreto Lei nº 1238 de 02/05/1939 (constituição da comissão), por uma criação de um sistema nacional de aprendizagem que corroborava inclusive com uma recomendação do Bureau Internacional do Trabalho em Genebra (CASTANHO, 2009).

O acompanhamento do Sistema Nacional de Aprendizagem teve seu acompanhamento entre 1939 até 1941 realizado por alguns membros da comissão constituída, entre eles Roberto Simonsen e Euvaldo Lodi que sugeriram ao então Presidente da República Getúlio Vargas, que os órgãos sindicais de segundo grau, fossem os responsáveis pela operacionalização e instrução da aprendizagem, o que se efetivou pelo Decreto-Lei nº 4.048, o qual criou o Serviço Nacional de Aprendizagem dos Industriários (SENAI) em janeiro de 1942, porém o Decreto-Lei nº 4936, de 7 de novembro de 1942. O SENAI enquanto planos e objetivos possuía alguns compromissos, entre eles, uma preparação, instrução sistemática dos fazeres de forma comum – dessa maneira, em todos os Centros seriam iguais na operacionalização mesmo sendo que essa formação fosse descentralizada e a obrigatoriedade das empresas em ter sempre aprendizes, outro compromisso seria que a indústria fizesse a administração dos Centros bem como a contribuição compulsória de 1% sobre as folhas de pagamento de todos os empregados e a possibilidade caso cada diretor quisesse de manter ou criar em suas empresas, um centro ou escola de aprendizagem.

Em seu regimento Interno (2014), o SENAI se constitui como uma entidade de direito privado de natureza educacional sem fins lucrativos.

O SENAI é, desde sua fundação, financiado com recursos públicos:

contribuição parafiscal de 1% sobre o total da folha de pagamento mensal das empresas, vinculadas por lei à instituição. Empresas com mais de 500 empregados recolhem um adicional de 0,2% sobre a folha de pagamentos diretamente ao Departamento Nacional do SENAI. (MORAES, 2000, p. 83)

Com relação à sua organização:

Ela organiza-se em dois blocos fundamentais: de um lado, os órgãos normativos da instituição, compostos pelo Conselho Nacional e pelos conselhos regionais; de outro lado, os órgãos de administração, representados pelo Departamento Nacional e 27 departamentos regionais.

É função de o Departamento Nacional coordenar a execução da política e das normas definidas pelo Conselho Nacional, organizando/orientando o conjunto dos departamentos regionais que, por sua vez, são os responsáveis diretos pela implementação dos programas de educação profissional. (MORAES, 2000, p.83).

Ao longo dos anos a partir de 1942, foram nomeados os diretores para todos os SENAIs, desde a criação de um departamento nacional, até os departamentos regionais. Em 1962, o Decreto nº 494, o qual aprova o regimento do SENAI, estabelece em seu Cap. 1:

Art. 1º O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), organizado e administrado pela Confederação Nacional da Indústria, nos têrmos do Decreto –lei nº 4048 de 22 de janeiro de 1942 tem por objetivo:

a) realizar, em escolas instaladas e mantidas pela Instituição, ou sob forma de cooperação, a aprendizagem industrial a que estão obrigadas as emprêsas de categorias econômicas sob sua jurisdição, nos têrmos de dispositivo constitucional e da legislação ordinária;

b) assistir os empregadores na elaboração e execução de programas gerais de treinamento do pessoal dos diversos níveis de qualificação, e na realização de aprendizagem metódica ministrada no próprio emprêgo;

c) proporcionar, aos trabalhadores maiores de 18 anos, a oportunidade de completar, em cursos de curta duração, a formação profissional parcialmente adquirida no local de trabalho;

d) conceder bôlsas de estudo e de aperfeiçoamento e a pessoal de direção e a empregados de excepcional valor das emprêsas contribuintes, bem como a professôres, instrutores, administradores e servidores do próprio SENAI;

e) cooperar no desenvolvimento de pesquisas tecnológicas de interêsse para a indústria e atividades assemelhadas.

Art. 2º O SENAI funcionará como órgão consultivo do Govêrno Federal em assuntos relacionados com a formação de trabalhadores da indústria e atividades assemelhadas.

Todos os recursos que o SENAI arrecada fez com que seus dirigentes se organizassem e criassem ao longo dos anos, dois campos de atuação: uma voltada para os serviços educacionais, a qual caminhava desde a Educação Básica até a Educação Profissional e Tecnológica e a outra atuação de voltada aos serviços técnicos e tecnológicos, que contemplava pesquisas, desenvolvimento e inovação tecnológica, serviços técnicos especializados, assessoria técnica e tecnológica, informação tecnológica e a certificação de processos e produtos, o que culminou em 2013 com a criação de 26 institutos de inovação, além das parcerias institucionais.

Embora o SENAI atualmente seja reconhecido como uma potência no ensino de cursos voltados à indústria, cabe ressaltar que inicialmente, a formação dada aos

aprendizes não era realizada por um profissional da Educação e sim por trabalhadores mais experientes.

Já o SENAC surge a partir dos decretos-lei nº 8.621 e 8.622, de 10 de janeiro de 1946, pelos quais o governo federal autorizava a Confederação Nacional do Comércio (CNC) a instalar e a administrar, em todo o país, escolas de aprendizagem comercial para trabalhadores entre 14 e 18 anos por meio dos cursos “Praticante de Comércio e Praticante de Escritório”.

Assim como o SENAI recebe a contribuição educacional da indústria, o SENAC recebe uma contribuição dos empresários do comércio para fins educacionais para o desenvolvimento do trabalho.

O SENAC possui cursos em diversas áreas, porém seu foco está voltado para formação profissional em comércio de bens, serviços e turismo. A instituição ainda possui um programa de “Serviços Nacional de Aprendizagem Comercial – Programa Aprendizagem”, que é uma ação de inclusão social que tem como objetivo a transformação da vida de pessoas por meio da oferta de uma Educação Profissional de qualidade, ligada as necessidades do mercado de trabalho.

Quando a instituição foi criada em 1946, seu público era o jovem de baixa renda que estava à procura de seu primeiro emprego com carteira de trabalho assinada, assim como adultos que buscam de alguma forma gerar renda para abrir seu próprio negócio – o empreendedor, e pessoas que já atuam no mercado e desejam se requalificar para crescer profissionalmente.

Em 1947, o SENAC inicia seu curso Técnico em Comércio através da

“Universidade do ar”, que eram cursos ministrados pelo rádio. Em 1953, o SENAC inicia o “Gabinete de Orientação Profissional e o Serviço de Colocação”, voltado para os menores que gostariam de iniciar em atividades comerciais e ainda em 1953, numa “educação à distância” à moda antiga, o SENAC grava em disco aulas da Univeridade do Ar (Unar) com objetivo de aperfeiçoar as práticas de trabalho para balconistas e gerentes de lojas in company que atendeu 91.537 alunos até sua extinção em 1962. Ainda em acordo com o Centro de memória do SENAC, em 1957, em convênio com o Ministério da Educação e Cultura, cria a “Organização do Setor de Assistência Didática ao Ensino Comercial” com vistas a fornecer assistência didática, incluindo material, a todos os professores de Ensino Comercial do Estado e um treinamento mais próximo de uma situação real de trabalho. Em 1959, implementa seus cursos técnicos de Contabilidade e Secretariado, equivalentes, na

época, ao segundo grau, com duração de três anos, destinados aos alunos que concluíram o Curso Comercial Básico.

O SENAC ingressa com o Ensino Superior em 1989 com o curso de Tecnologia em Hotelaria. E em 2000, se iniciam as atividades de Educação a Distância, com o lançamento dos cursos Photoshop, Golive e llustrator e Implantação do “Núcleo de Educação Corporativa”, como resultado do desenvolvimento e aprovação do projeto estratégico voltado para desenvolver funcionários e colaboradores em serviço, com vistas a promover a aprendizagem organizacional e a gestão do conhecimento a partir das competências essenciais para a gestão estratégica dos negócios. Em 2003, depois de um grande período de encontros e reflexões, o SENAC lança sua nova Proposta Pedagógica, que consolida as práticas por meio dos relatos de experiências do SENAC São Paulo. A rede SENAC São Paulo contabiliza 156.255 clientes e 438.398 atendimentos durante o ano. Em 2005, há o Lançamento do primeiro mestrado acadêmico em Moda, Cultura e Arte, inédito na América Latina.

O SENAC recebeu prêmio Melhores Empresas para Trabalhadores com Deficiência em reconhecimento pela relevância e eficiência de seu Programa de Inclusão. Para tal, foram avaliados critérios como a política de direitos da pessoa com deficiência, igualdade de oportunidades, disponibilidade de recursos materiais e psicológicos, autonomia e independência no ambiente de trabalho, além de respeito à legislação. Atualmente, o SENAC conta com mais de 61 unidades além de dois hotéis-escola e da Editora SENAC São Paulo.

Como a instituição atua em vários estados e cidades, o SENAC possui um Diretório Nacional que utiliza como premissas um Projeto de Desenvolvimento Institucional e um Projeto Político Pedagógico – PPP únicos, nos quais são elencadas a visão, a missão e os objetivos da instituição como um todo, sendo a oferta de uma educação de qualidade, garantindo dessa maneira, sua identidade institucional. Cada estado possui uma Diretoria Regional – DR em que no momento da elaboração de seus documentos, garantem não somente a identidade institucional como também as especificidades regionais quando há.

O SENAI e o SENAC possuem parcerias com outras instituições e escolas, desenvolvidas localmente, entre as quais podemos citar as parcerias com os governos estaduais, empresas e instituições públicas e privadas e dessa forma,

auxiliam incentivam o desenvolvimento da sociedade e da economia pela oferta da formação e inserção profissional.

Cabe ressaltarmos que após a pandemia causada pela COVID-19, o SENAC além de aumentar o volume de atendimento de seu Programa SENAC de Gratuidade – PSG, aumentou a oferta de bolsas gratuitas em diversos cursos e modalidades e, para a contenção do desemprego gerado, diminuiu o valor de seus cursos técnicos para que as pessoas pudessem realizar seja de forma remota ou presencial e se realocarem no mercado de trabalho.

Percebemos por meio deste histórico aqui apresentado, o surgimento das instituições de educação profissional e suas principais vocações, ou seja, sua principal característica e contribuição. Podemos verificar que os Institutos Federais por serem as instituições mais antigas tinham como função principal, o acesso e a melhoria das condições das pessoas mais desfavorecidas para que pudessem ser produtivas na sociedade e o SENAI e o SENAC surgiam como o aprimoramento e aperfeiçoamento destes e demais profissionais em cursos específicos voltados para a indústria, comércio de bens, turismo e serviços respectivamente ampliando desta forma “seus fazeres” profissionais.

Atualmente, podemos ressaltar que estas três instituições que traziam o trabalho como seu principal princípio educativo, trazem atualmente a tecnologia, a inovação e a pesquisa como essenciais para a aprendizagem não somente do ofício do fazer profissional, mas também da formação crítica do indivíduo como um sujeito observador, reflexivo e ativo na sociedade em que vive por meio das experiências e metodologias desenvolvidas nestas instituições.

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