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A efetiva descentralização do poder politico

Capitulo IV CENTRALIZAÇÃO E DESCENTRALIZAÇÃO DO PODER POLÍTICO

1. A efetiva descentralização do poder politico

Politica Regional e a Federação; 2. a. São Paulo e a Federação; 2.b. Minas Gerais e a Federação; 2.c. Rio

Grande do Sul e a Federação; 2. d. Pernambuco e a Federação; 2.e. Outros Estados; 3. O coronelismo e a "Politica dos Governadores"; 4. Os Militares e o Poder.

1. A efetiva descentralização do poder politico

Efetivamente houve uma descentralização da atividade politica, que antecedia a própria República, e que se expressou pela existência de interesses próprios de regiões. Estes núcleos locais eram municipios, provindas, conjuntos de provindas ou apenas parte destas. A economia diferenciada no Pais, voltada para a exportação, já caracterizava o Brasil no Império^°^ .

As elites locais tinham já reivindicações de natureza autonomista. São Paulo, por exemplo, via como entrave a organização politica centralizada do Império, que atingia a sua dinâmica economia. A descentralização era vista pela elite paulista como necessária para a consolidação e ampliação da atividade cafeeira. 0 federalismo era central na pregação republicana^“^ .

103 Carta Constitucional Republicana parece ter vindo propiciar os meios juridicos para o funcionamento de uma estrutura que a precedia" Maria do Carmo Campeio de SOUZA, ob. cit., p. 164;

104 ideologia que aparece na análise de conteúdo de A Provincia de São

Paulo pode ser resumida em uma série de aspectos. Primeiro, o tema do

federalismo era central e, não raro, mais importante que a própria idéia republicana" Simon SCHWARTZMAN, ob. cit., p. 110;

As idéias federalistas chegaram ao Brasil desde cedo, importadas dos Estados Unidos. Mesmo antes da independência aparecem inspirações federalistas, e na Constituinte de 1823 o tema foi debatido. 0 Federalismo já contava, antes da proclamação da República, com um bom número de simpatizantes. Joaquim Nabuco e Rui Barbosa preconizaram a adoção da forma de Estado, tendo Nabuco apresentado projeto nesse sentido^°^ .

A primeira Constituição republicana do Brasil teve forte inspiração norte-americana, ao contrário da forte tendência ã influência do constitucionalismo francês vigente no Império. A sociedade e o Estado nascidos da independência das colônias inglesas na América encantavam alguns de nossos teóricos, ao ponto de realizarem os constituintes uma simples transferência de alguns institutos da Constituição dos Estados Unidos para o Brasil. 0 Estado Federal foi um desses institutos, constituindo uma grande inovação para o Brasil, já que contrastava com uma tradição consolidada de centralização politica e administrativa.

A designação mais apropriada para o tipo de República projetada pela Constituição de 1891 é a de "República Liberal". Os institutos nascidos com o Documento Constitucional eram, como já frisados, de natureza democrática, de matiz liberal. Ocorre que as características politicas do periodo justificaram que os estudiosos lhe dessem outra designação, a de "República das Oligarquias", dado o poder que os grupos regionais adquiriram na época.

Francisco IGLÉSIAS, ob. cit., p. 183; Cf. Paulo BONAVIDES. 0 Caminho para um Federalismo das Regiões;

A participação popular nas eleições era bastante reduzida. Apesar de ter alimentado em 400% a participação eleitoral entre a última eleição parlamentar do Império e as primeiras eleições presidenciais, a parcela da população que comparecia às urnas era reduzida, variando entre o minimo de 1,4% da população do Pais, nas eleições presidenciais de 1906, quando foi eleito Afonso Pena, e o máximo de 5,7% verificados nas eleições de 1930, vencidas por Júlio Prestes^°® .

0 quadro partidário que seguiu ã proclamação da República denuncia a oligarquização da política^°^ . As elites regionais predominaram, sendo os partidos expressões de interesses particulares de grupos economicamente dominantes em cada região. Os partidos eram estaduais, poucas foram as tentativas de organização de uma agremiação politica de expressão nacional, fracassando sempre as iniciativas.

A inexistência de partidos nacionais facilitava a perpetuação das oligarquias na direção da politica local. As decisões nacionais não eram tomadas frente ao confronto de ideologias distintas, mas sim através de acordos nos quais eram sempre pesados os interesses dos dirigentes do Estados^°® . Pouco representavam as oposições nos Estados e os membros do Congresso Nacional eram, via de

Boris FAUSTO, ob. cit., p. 262;

"Organizações partidárias com base estadual monopolizaram a atividade politica em suas zonas até os anos 30, e partidos politicos coerentes e perduráveis na República Velha só existiam em nivel estadual; até nos primeiros anos de Vargas organizações politicas que se intitulavam 'nacionais' encontravam o grosso do seu apoio nos Estados" Josef LOVE, John WRHIT, Robert LEVINE, In: Boris FAUSTO(org.), História Geral da Civilização Brasileira, p. 56;

"Num sistema onde estavam ausentes os partidos nacionais, o encaminhamento sucessório assumia uma forma bastante complexa. A estrutura partidária de cada Estado tornava-se ponto fundamental na determinação da importância que competia a cada um deles" Maria do Carmo Campeio de SOUZA, ob. cit., p. 187;

regra, representantes das elites regionais. Duas experiências partidárias de dimensões nacionais fundaram-se em torno das lideranças de Pinheiro Machado e de Francisco Glicério.

0 Partido Republicano Federal, liderado por Glicério, surgiu em apoio a Floriano. A sua importância ficou reduzida pelo rompimento de Glicério com o Governo de Prudente de Morais, que sucedeu Floriano, levando-o ao desaparecimento.

Já o Partido Republicano Conservador, criado sob a direção de Pinheiro Machado, surgiu com o objetivo de consolidar a liderança do Senador gaúcho no momento em que cresciam as pretensões anti-oligárquicas dos militares ligados ao Governo de Hermes da Fonseca, tendo ocupado importante lugar na vida nacional, mas desaparecendo com a morte do seu fundador. Nos dois casos não havia uma estrutura orgânica fundada em lam projeto para o Pais, mas meros ajuntamentos de interesses.

Não foram poucos, conforme já vimos, os episódios em que se formaram duplicatas de governos ou de legislativos nos Estados. As eleições eram feitas com métodos precários, sendo comum as contestações dos resultados. A fraude era um instrumento utilizado em todo o Pais, de forma generalizada.