Diversas questões cercam no debate acerca do uso da ABP. O método é eficaz? Os alunos formados neste sistema se tornam bons profissionais, dotados das competências e habilidades necessárias para cumprir de maneira adequada seu papel na sociedade? A ABP favorece a formação de “práticos”, com menor conhecimento teórico do que o desejado?
Em busca do esclarecimento das dúvidas acerca da eficiência da ABP diversas pesquisa foram conduzidas para estabelecer o real desempenho da metodologia centrada no estudante frente aos métodos tradicionais.
Vernon & Blake (1993), conduziram um estudo de meta-análise a partir de estudos comparativos entre a ABP e os métodos tradicionais conduzidos entre 1970 e 1992. No total foram avaliados 35 estudos envolvendo 19 instituições. A análise dos resultados mostrou um desempenho significativamente superior dos alunos da ABP na avaliação dos estudantes sobre o programa e nos testes de desempenho clínico. Não houve diferenças significativas entre os métodos em testes de conhecimentos factuais e clínicos.
Os alunos de métodos tradicionais obtiveram desempenho significativamente melhor na primeira etapa do Exame de Licença Médica dos Estados Unidos (NBME I). Observaram que os estudantes do currículo tradicional apresentavam média ponderada 0,18 mais alta nas ciências básicas no NBME I e média ponderada 0,26 mais baixa no NBME III (predominantemente clínico) quando comparados com estudantes da ABP. O estudo de Vernon & Blake (1993) conclui que os resultados gerais apontam para a superioridade da ABP sobre os métodos tradicionais.
Segundo Toledo Júnior et al. (2008) avaliaram os resultados de 21 estudos que comparavam ABP e os métodos tradicionais, encontramdo resultados semelhantes aos descritos anteriormente. Eles concluíram, com base nos resultados apresentados, que a ABP é uma abordagem educacional
que parece trazer respostas a algumas necessidades atuais, consideradas centrais no processo de reforma do ensino médico no Brasil.
Blake et al. (2000), compararam o desempenho dos alunos da Faculdade de Medicina da Universidade de Missouri – Columbia (UMC), Estados Unidos, no United States Medical Licesing Examination (USMLE) antes e após a implantação do currículo ABP. O instrumento de comparação adotado foi a nota obtida pelos alunos no USMLE 1 (área básica) e USMLE 2 (área clínica). Foram avaliadas duas turmas do currículo tradicional (1995 e 1996) e quatro turmas do novo currículo – ABP (1997 a 2000). Historicamente, os alunos da UMC apresentavam notas um pouco abaixo da média americana no exame de admissão em escolas médicas. Os resultados demonstraram melhor desempenho das turmas do ABP no USMLE 1 e 2, quando comparadas com as turmas tradicionais. Houve aumento estatisticamente significativo da nota média em comparação com a média nacional. As turmas de currículo tradicional apresentaram nota média abaixo da média nacional e as turmas do ABP apresentaram notas médias superiores à média nacional.
Essas diferenças foram estatisticamente significativas para as turmas de 1997 a 2000.
Em um artigo recente, Gomes et al. (2009) analisam estudos que comparam a utilização da ABP na formação médica com o desenvolvimento de currículo tradicional de Medicina.O desenho metodológico, caracterizado como uma revisão da literatura sobre o assunto, realizada a partir de uma abordagem qualitativa, apóia-se na busca de artigos embases de dados e bibliotecas virtuais,publicados de 1998 a 2008, com os termos medicina, graduação, aprendizagem baseada em problemas e ensino tradicional.O material foi estudado a partir da técnica de análise de conteúdo temática.A discussão se desenvolve a partir dos resultados acerca do uso da ABP na graduação médica em comparação aos resultados de cursos de currículo tradicional.
Em geral, observa-se que os resultados dos cursos com ABP são mais positivos do que os dos cursos como currículo tradicional. Dos dez estudos avaliados, apenas em três observou-se que os cursos com ABP tiveram
resultados piores do que os do currículo tradicional, mesmo assim em poucas competências e habilidades. No que se refere aos resultados positivos dos cursos com ABP, observa-se que os graduados se sentiram mais preparados ou foram avaliados mais positivamente por seus supervisores do que os graduandos dos cursos tradicionais, principalmente na dimensão social. Nessa dimensão, destacam-se de forma recorrente as competências de: comunicar-se de forma eficiente; efetivar relacionamento interpessoal; lidar com pacientes de culturas diferentes; levar em conta os aspectos psicossociais no adoecimento e no tratamento; atuar em equipe e lidar com questões éticas. No conjunto dos resultados dos cursos de ABP mais bem avaliados que os cursos tradicionais destacam-se também competências relacionadas à prevenção de doenças e promoção da saúde e à compreensão da articulação entre a atenção primária e o hospital. Essas competências, de certa forma, contribuem para que a atuação médica não se reduza à intervenção, nem ao sistema hospitalar.
Em relação às capacidades que não mostraram diferenças significativas entre os cursos de ABP e os de currículo tradicional, as de maior concordância entre os estudos foram: lidar comas próprias limitações; usar laboratório e outros serviços de diagnóstico; elaborar registros exatos; realizar ressuscitação cardiopulmonar e usar oxigenoterapia com segurança. Ainda quanto a diferenças estatisticamente não significativas entre o curso com ABP e o de currículo tradicional, destaca- se a não observação de diferenças na primeira e segunda fase do Exame de Licença Médica dos Estados Unidos. Isto significa que o novo formato de formação médica, embora não tenha resultados superiores aos do formato tradicional, não pesou negativamente na certificação profissional de seus egressos.
A opinião dos docentes sobre o programa também pode traçar um interessante retrato da ABP. Ferreira Filho et al. (2002), elaboraram um questionário para conhecer a visão dos docentes do curso de Medicina da UEL a respeito do processo de implantação e do momento atual do novo currículo em ABP. De um total de 268 docentes, 220 responderam o questionário, sendo 31,4% são doutores e 40,5% são mestres. Somente 31,6% dos docentes
avaliaram a qualidade do currículo anterior de primeira a quarta séries como boa, mas 83,3% consideram o internato bom. Sentem-se bem informados sobre as mudanças curriculares 55,5% dos docentes, porém somente 28,9%
consideram que elas foram suficientemente discutidas. Apenas 32,7% tiveram boa participação na fase de planejamento e implantação. A maioria dos docentes (63,6%) já foi tutor. A ABP é considerada um avanço em relação ao método anterior por 64,8% dos docentes; 69,8% acham que ela facilita o aprendizado dos alunos e 70,9% consideram que eles ficam mais motivados.
Assim, podemos perceber que embora tenha havido certa reticência inicial e que não tenham participado adequadamente da fase inicial de discussão e execução dos trabalhos, a maioria dos docentes considera a ABP vantajosa em relação ao método anterior e vem aumentando seu grau de inserção no processo, apontando para a consolidação das mudanças propostas.
CONCLUSÃO
Ao longo deste trabalho, foi possível perceber que o mundo atual se apresenta como um ambiente cada vez mais dinâmico, no qual as diversas mídias e tecnologias disponíveis estimulam uma crescente interação entre diferentes culturas, religiões e áreas do conhecimento humano. Em tal contexto, fica claro que as exigências da sociedade contemporânea são diretamente influenciadas por esta nova realidade.
Em 2010, o ensino da medicina veterinária no Brasil está completando 100 anos, nos quais pouco se fez para que sua metodologia acompanhasse a evolução da sociedade em que vivemos.
A Aprendizagem Baseada em Problemas se apresenta como uma alternativa promissora para o ensino da medicina veterinária no Brasil. Com sua busca pela integração de prática e teoria em um cenário diretamente ligado às demandas da sociedade para a profissão, esta metodologia pode claramente preencher algumas das lacunas presentes hoje na realidade de nosso país, como, por exemplo, a inserção do médico veterinário no sistema único de saúde e sua atuação nos campos do controle de zoonoses e da vigilância sanitária, na pecuária tanto com grandes como pequenos produtores, e no crescente, e em constante evolução tecnológica, mercado da clínica médica de animais, onde a formação de profissionais com o hábito do aprendizado autodirigido é uma grande vantagem da ABP.
Há experiências nacionais bem sucedidas tanto no âmbito das instituições privadas (FAMEMA) como das públicas (UEL), demonstrando com clareza que a ABP é viável no Brasil.
Por fim fica evidente que o modelo pedagógico da Aprendizagem Baseada em Problemas caminha alinhado à formação de profissionais com formação generalista, humanista, crítica e reflexiva, apto a compreender e traduzir as necessidades de indivíduos, grupos sociais e comunidades, com relação às atividades inerentes ao exercício profissional, conforme o determinado pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para o ensino da medicina veterinária.