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A eletricidade e o catolicismo do espetáculo

1.4 Mídia e Religião IV: A religião da eletricidade

1.4.4 A eletricidade e o catolicismo do espetáculo

É importante destacar, ainda, que o papel ativo da mídia elétrica e eletrônica no campo do cristianismo não se verifica apenas no chamado neo-pentecostalismo, mas, também no catolicismo. Primeiramente, é importante ressaltar que a mesma relação ambígua e ambivalente que a Igreja protagonizou em relação à tipografia, isto é, ao mesmo tempo exortar a imprensa como um dom de Deus para a tarefa evangelizadora e combater a mesma mídia em seus efeitos nefastos, pode ser observada em relação a cada uma das inovações da revolução elétrica e eletrônica2, refletindo uma óbvia concepção instrumental da mídia.

Algumas resistências do clero católico são marcantes na história da relação da igreja com a Mídia, a destacar: a não validade da confissão por telefone (salvo em casos de emergência) e da missa televisiva (exceto para os inválidos). Em ambos os casos o que está em jogo é a questão da legitimidade dos sacramentos que, tradicionalmente, para serem efetivados exigem a presencialidade. No ato de confissão, o penitente deve estar presente diante do padre, numa relação de segredo absoluto, o que, para o clero, não é possível através do telefone. Do mesmo modo, a missa assistida pela TV não tem valor sacramental, apenas espiritual; o sacramento só é valido com a participação presente e física do fiel. Entretanto, o catolicismo soube definir as fronteiras de sua resistência, condenando apenas o que poderia enfraquecer sua posição. Assim sendo, é inegável que os aparatos midiáticos eram amplamente utilizados para divulgar a doutrina católica. O catolicismo, em geral, não só se inseriu na lógica do espetáculo como também a eletricidade torna-se cada vez mais um elemento importante para essa tradição. Por exemplo, os velários eletrônicos, que são a ultima moda nas paróquias, substituindo o tradicional trio da cera, pavio e fogo. Trata-se de um equipamento que foi desenvolvido supostamente para garantir maior segurança aos usuários, evitando riscos de incêndios e queimaduras. O acionamento das velas é pela inserção de

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moedas e, quanto maior o valor depositado, maior o tempo de duração das ―chamas‖, que também são oscilantes. Alguns velários possuem um módulo de voz, para reprodução de mensagens diferentes (orações), acionadas por sorteio no momento da inserção de moedas. A cultura da eletricidade substitui a luz e a fumaça da vela, com todos seus tradicionais simbolismos, pela luz elétrica,o que, conforme Mcluhan (2007), é informação pura, é meio sem mensagem. A luz da vela elétrica é cronometrada e acionada pelo dinheiro.

Os velários eletrônicos são apenas um exemplo de um amplo contexto de transformações no catolicismo, sobretudo aquelas provocadas propriamente pelas mídias eletrônicas. Trata-se de uma virada da igreja católica que pode ser situada pelas mudanças promovidas pelo concílio Vaticano II e a conseqüente criação tanto do conselho pontifício das comunicações sociais, como da celebração anual de um Dia Mundial dedicado às comunicações sociais, mas, sobretudo a virada é visível com o anterior pontificado, do Papa João Paulo II. Assim, ―A Igreja encara estes

meios de comunicação social como dons de Deus, na medida em que, segundo intenção providencial, criam laços de solidariedade entre os homens, pondo-se assim ao serviço da Sua vontade salvífica.”(INSTRUÇÃO PASTORAL,1971,p.2).

O próprio Papa coloca que o grande desafio da igreja na época das comunicações generalizadas é “... encontrar linguagens de comunicação melhores para obter o maior impacto possível da mensagem evangélica‖ (JOÃO PAULO II,1989,p.5). O papa João Paulo II era tido como o papa midiático, viajava por todo o globo e congregava milhões de fiéis em suas missas mundo a fora, como uma grande banda de rock em uma turnê mundial. Até o seu funeral foi um espetáculo midiático à parte. Entretanto vale destacar que apesar de uma influência geral da eletricidade e das mídias eletrônicas no catolicismo alguns setores da igreja foram influenciados de modo mais particular e decisivo. Dentro eles destaca-se, sobretudo, a chamada renovação carismática católica, que é um movimento tido como o grande trunfo para reavivar o catolicismo frente ao avanço evangélico (Souza, 2005), pois procura adotar uma liturgia mais alegre e intimista, uma linguagem mais simples, valorizando a emoção, os cantos e as preces comovidas. Trata-se – como no caso dos neo-pentecostais – de uma expressão religiosa fruto da lógica do espetáculo que tende a ligar a fé ao entretenimento:

82 O que se começou a fazer nos últimos anos foi assimilar coreografias, práticas e ritmos mundanos, de modo mais intenso, tal como tem sido feto em algumas igrejas evangélicas, explicitamente. A assimilação de elementos profanos, neste contexto, se refere sobretudo ao caráter de show, de espetáculo que as missas dos chamados padres cantores assumiram. (Souza, 2005,p.36)

É um movimento que não só empresta elementos da cultura do espetáculo no seu agir religioso, como utiliza amplamente e de modo eficaz as mídias de massa:

No campo editorial, fonográfico, radiofônico e discográfico é igualmente notável (e lucrativo) o avanço obtido por diversos grupos carismáticos católicos. Seus programas de televisão e rádio, por exemplo, atingem quase todo o território nacional. As emissoras carismáticas apresentam uma imagem quase uniforme do novo catolicismo que apregoam. A imagem que o grande público faz hoje da igreja católica se identifica e se confunde com o que diz, faz e vende a RCC. (VALLE, 2004, p. 103)

Figura emblemática desse movimento no Brasil é o Padre Marcelo Rossi, que muito mais que um padre, é cantor, apresentador, animador, ator, etc. Trata-se um padre em consonância com a cultura elétrica que comanda missas espetáculos, usando frases curtas e evitando longos discursos em suas pregações. É uma figura carismática de grande prestigio midiático, afinal tem grande inserção na mídia de massa, como programas de auditório, telejornais, etc. Como lembra Souza (2005, p.39) “... esta era a forma de atingir mais pessoas com sua mensagem, entrando na casa delas através da mídia eletrônica”. Marcelo Rossi é o exemplo do padre

espetáculo que revigora a igreja católica no enfrentamento com os neo-pentecostais. É, como lembra Valle (2004.p.103), um padre que atravessa as tradicionais fronteiras das paróquias e dioceses.

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CAP.2 – RELIGIÃO E A REALIDADE MIDIÁTICA

CONTEMPORÂNEA

Introdução ao capítulo

O advento da comunicação digital cujo desenvolvimento vem forjando uma nova realidade midiática é a contemporânea grande transformação na ecologia das mídias no interior da perspectiva histórica das tecnologias comunicativas. Nosso esforço de pesquisa é interpretar essa nova realidade midiática, com vistas a colaborar para as investigações das novas relações simbióticas entre a esfera da mídia e a esfera da representação do sagrado.

A primeira etapa dessa empreitada consiste em situar as atuais transformações midiáticas dentro do processo histórico que começa na comunicação oral, passa pelas comunicações quirográfica e tipográfica, até o anterior paradigma comunicativo, aquele das comunicações elétrica e eletrônica. Marcar essa posição histórica do atual momento da ecologia das mídias colabora para perceber o caráter radical e significativo das rupturas paradigmáticas promovidas pelo digital, e também nos alerta que esse novo ambiente comunicacional – como os paradigmas comunicativos anteriores – traz consigo um ciclo cultural que lhe é próprio:

Assim como a prensa manual no século XVI e a fotografia no século XIX exerceram um impacto revolucionário no desenvolvimento das sociedades e culturas modernas, hoje estamos no meio de uma revolução nas mídias e uma virada nas formas de produção, distribuição e comunicação mediadas por computador que deverá trazer conseqüências muito mais profundas do que as anteriores. (SANTAELLA,2003, p.62)

Essa posição histórica atribuída à comunicação digital, em ultima instância, colabora com nosso esforço contínuo de nos afastarmos da concepção mecanicista e meramente instrumental das tecnologias. As tecnologias digitais – como as demais tecnologias comunicativas – não são um meio e um instrumento que cada um pode empregar como quer, são antes, como define Galimberti (2006, p.724), um mundo:

84 De fato, a ―rede‖, ou como se diz a propósito dos computadores, o ―ciberespaço‖, é um mundo, portanto algo de radicalmente diferente de um meio porque, diferente do ―meio‖ que cada um pode empregar para os fins que escolhe, com o ―mundo‖ não se dá outra liberdade senão aquela de participar dele, ou dele manter-se afastado.

O papel do digital na sociedade contemporânea é sem dúvida ativo. No limite, o ciberespaço, isto é, “... o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores” (LÉVY, 1999, p. 92) é o

nosso próprio mundo, nosso próprio ambiente.

Evidente que o campo da representação do sagrado numa relação simbiótica com a ecologia das mídias é plasmado pelo ciberespaço. Essa conseqüência, independente do uso instrumental das mídias digitais por parte do campo religioso, afinal, tal como destacado por Galimberti, a comunicação digital, como uma mídia, forja uma dada representação de mundo:

Ora, a mídia, colocando-nos em contato não com o mundo, mas com sua representação, entregando-nos uma presença sem dimensão espaço-temporal, porque retesada na simultaneidade e na pontualidade do instante, modificando o nosso modo de fazer experiência, aproximando de nós o distante e afastando o próximo, familiarizando-nos com o estranho e fornecendo-nos códigos virtuais para a interpretação do mundo real, produzem modificações no homem independentemente das modalidades de uso da própria mídia.

Por isso, negamos que os meios de comunicação sejam somente ―meios‖. Se o telefone, o rádio, a televisão, o computador determinam um novo relacionamento entre nós e os nossos semelhantes, entre nós e as coisas, entre as coisas e nós, então os meios de comunicação nos plasmam, qualquer que seja o objetivo pelo qual os empregamos, e antes mesmo que atribuamos a eles um objetivo. (GALIMBERTI, 2006, p.731)

Podemos esperar, portanto, que as conseqüências desse novo ciclo cultural, ou desse novo ambiente por nós habitados, sejam tão profundas no campo religioso quanto à emergência da escrita, dos tipos móveis ou da eletricidade.

O propósito desse capítulo, portanto, é apontar as principais transformações no campo da comunicação com o advento do digital e como essas transformações estão repercutindo nas discussões acadêmicas acerca de sua influência no campo religioso contemporâneo. É um capítulo que se situa tanto como continuação da

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interpretação das transformações históricas da ecologia das mídias, como também como uma análise introdutória de nossas pesquisas empíricas, na medida em que situa nossas análises da presença da religião e da religiosidade nas redes digitais em relação às demais pesquisas de que tomamos conhecimento.

A respeito do amplo leque de questões que abarcam as conseqüências teóricas das novas tecnologias digitais abordaremos aquelas que julgamos mais decisivas na influência no campo religioso, sempre tendo como norte que olhar a história das transformações comunicativas não significa somente perceber as mudanças das formas de armazenar, organizar e comunicar as informações, num sentido evolutivo, mas sim perceber o caráter qualitativo de cada ruptura comunicativa e, com isso, a introdução de uma nova forma de perceber e de sentir o mundo, definir a realidade e conseqüentemente experimentar e representar o sagrado.