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A elevação do salário mínimo e seus efeitos

CAPÍTULO 2 Fortuna

3.2 A centralidade da massa trabalhadora

3.2.3 A elevação do salário mínimo e seus efeitos

Instituído no Brasil em 1940 por Getúlio Vargas, o salário mínimo alcançou seu maior valor histórico em outubro de 1961, logo após João Goulart assumir a Presidência da República do país. Segundo a série elaborada pelo Ipea (IPEADATA, 2016a) o seu valor em termos reais correspondia àquela altura a R$ 1.238,30 (a preços de julho de 2015). Depois disso, como bem ilustra a trajetória da curva apresentada no gráfico (figura 3.11), o salário mínimo foi perdendo poder aquisitivo, sofrendo quedas mais expressivas durante os primeiros anos da ditadura militar (1964 a 1967) e entre fins da década de oitenta e início da década de noventa, quando, por conta da escalada inflacionária, caiu ao menor patamar da históira, atingindo em agosto de 1991 o valor de R$ 241,87 (em reais de julho de 2015). Isto é, em trinta anos (vinte um dos quais sob a ditadura) o salário mínimo reduziu-se a menos de 1/5 do que era em 1961.

Entretanto, com a estabilização monetária alcançada a partir de meados dos anos noventa, teve início no Brasil uma trajetória de gradativa recuperação do poder de compra do salário mínimo, a qual ganha especial intensidade depois de 2004, vindo alcançar no último mês da série em análise (agosto de 2014) o valor de R$ 793,56 (em reais de julho de 2015), ou seja, o equivalente a 64% daquele máximo histórico ou ¼ do valor do salário mínimo

necessário calculado pelo DIEESE102 (DIEESE, 2016).

102O cálculo é feito com base no custo apurado para a cesta básica da cidade de São Paulo, levando em consideração a determinação constitucional que estabelece que o salário mínimo deve ser suficiente para

A despeito de ainda estar longe de seu patamar constitucional ou mesmo dos valores que possuía nos governos Vargas, JK e Jango, a persistência das taxas de crescimento real do salário mínimo ao longo das últimas duas décadas é um feito da maior importância, cuja dimensão é impossível de ser plenamente capturada por meio do instrumental econométrico ou estatístico. Dados os múltiplos efeitos de propagação do valor do salário mínimo sobre a estrutura da renda das famílias mais pobres, a sua valorização tem o potencial de transformar a vida social, dinamizando regiões geográficas que são negligenciadas pelos negócios tipicamente capitalistas e alterando a dinâmica das famílias de baixa renda de forma definitiva.

Ao longo desse longo ciclo de vinte anos de recuperação do salário mínimo, além dos ganhos decorrentes do fim do imposto inflacionário, foi relevante a determinação política dos governos petistas de instituir e manter uma fórmula que garantisse aumentos reais regulares do valor do salário mínimo. Desde a campanha vitoriosa de Lula em 2002, havia uma grande expectativa a respeito do tema, inclusive porque em sua plataforma eleitoral prometia-se dobrar o valor do salário mínimo ao longo do mandato presidencial. Além disso, como se tratava de um governo de um partido com fortes ligações com os sindicatos e com os movimentos sociais, assistiu-se desde o seu início a uma intensa pressão social para que fosse implementada uma política de longo prazo de valorização do salário mínimo. Desta feita, em especial depois da marcha realizada pelas principais centrais sindicais do país em dezembro de 2004103, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva se comprometeu, em audiência pública realizada com as lideranças sindicais, não apenas a conceder aumentos reais em todos os anos de seu primeiro mandato, como também acatou as sugestões das centrais sindicais e institui, em abril de 2005,

suprir as despesas de um trabalhador e sua família com alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência.

103A “Marcha por um Salário Mínimo Digno, Correção da tabela do Imposto de Renda e Valorização dos Servidores Públicos” ocorreu entre os dias 13 e 15 de dezembro de 2004 e contou com a presença de cerca de 3 mil sindicalistas filiados a distintas centrais sindicais (CUT, CGTB, FS, CGT, SDS e CAT), culminando com uma audiência com o presidente da república e a definição da elevação do salário mínimo para R$ 300,00 da época e da correção de 10% dos valores da tabela do imposto de renda.

a Comissão Quadripartite do Salário Mínimo104, cuja atribuição foi discutir e apresentar uma

proposta de política permanente de reajuste anual do salário mínimo.

Figura 3.11

Evoluçao do salário mínimo real.

Brasil, 1961 a 2014.

Fonte: IPEADATA (2016a) – Elaboração própria.

Nota: valores em reais de julho de 2015 calculados pelo Ipeadata utilizando como deflator o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do IBGE.

Assim, com base em uma fórmula previamente pactuada na referida comissão, a partir de 2007 o governo federal adotou uma nova regra para o reajuste do salário mínimo, por meio da qual o seu valor passou a ser definido pela correção da inflação anual, calculada pelo IBGE (INPC), acrescida de um aumento real correspondente à variação do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos anteriores105 (SOUEN, 2013, p. 103-126; DIEESE, 2010, p.14-19) -

104 Composta por representantes do governo, dos trabalhadores na ativa, dos trabalhadores aposentados

e dos empresários.

105 Em 2011, por iniciativa do poder executivo, essa regra foi definida em lei (Lei Federal 12.382/2011)

por meio da qual o governo fica autorizado a estabelecer por decreto o valor anual do salário mínimo, tomando por base aqueles critérios de correção da inflação e de aumento real.

OUT/1961= R$ 1.238,30

AGO/1991= R$ 241,87

AGO/2014= R$ 793,56

além disso, o governo se dispôs a antecipar em um mês a cada ano a data-base de correção do salário mínimo, de tal forma que, desde 2010, essa foi fixada em definitivo no mês de janeiro

Tendo já se passado alguns anos de vigência daquela nova regra para os reajustes do salário mínimo e quase duas décadas de aumentos reais, é possível perceber que houve uma recuperação substancial de seu valor, tanto em termos reais, como em termos de paridade de poder de compra ou ainda como proporção do salário mínimo necessário. Conforme demonstrado na figura 3.12, a valorização real do salário mínimo ao longo de todo o período (1994 a 2014) foi de 155,5%, sendo que, entre 1994 e 2002 o reajuste acumulado foi de 40%, enquanto no período seguinte, isto é, ao longo dos 12 anos que se passaram entre 2002 e 2014, o aumento real total alcançou 82,5%.

Quando contrastado ao valor do salário mínimo necessário, o salário mínimo oficial também registra uma elevação substancial, embora um pouco inferior àquela registrada em termos de valorização real (67,7% contra 82,48%). Contudo, ainda assim o avanço é de grande monta, pois, enquanto em dezembro de 1994 o salário mínimo oficial correspondia a apenas 9,9% do salário mínimo necessário, em dezembro de 2014 alcançou 24% desse valor (DIEESE, 2016).

Além disso, dado que durante a maior parte do período a moeda brasileira manteve- se sobrevalorizada, quando se mede a variação do poder aquisitivo do salário mínimo brasileiro em dólares - ponderados pela paridade de poder de compra106 - percebe-se que seu crescimento foi ainda mais intenso, chegando em dezembro de 2014 a um valor quatro vezes maior do que era no mesmo mês de 1994 (cf. figura 3.12).

106 Portanto, seu valor representa, em cada mês correspondente, qual era o preço nos Estados Unidos da

mesma cesta de bens que se podia adquirir com um salário mínimo no Brasil. A conversão foi feita pela taxa de paridade de poder de compra (PPC) observada pelo Banco Mundial em 2005, corrigida pela inflação ao consumidor nos Estados Unidos e no Brasil. Para a inflação americana, o Ipeadata utilizou o IPC do Bureau of Labor Statistics (BLS). Para a inflação brasileira, foi utilizado o INPC/IBGE.

Figura 3.12

Evolução do salario mínimo em termos reais(1), em paridade de poder de compra(2) e como proporção do salário mínimo necessário(3).

Brasil, 1994 a 2014. (Índice: 2002=100)

Fontes: IPEADATA (2016a; 2016b) e DIEESE (2016) – Elaboração própria.

Notas: (1) Série em número-índice elaborada pelo autor a partir dos valores reais do salário mínimo de dezembro de cada ano calculados pelo Ipeadata utilizando como deflator o INPC do IBGE. (2) Série em número-índice elaborada pelo autor a partir dos valores do salário mínimo denominados em U$ (PPC) de dezembro de cada ano calculados pelo Ipeadata. Seu valor representa o preço nos Estados Unidos da mesma cesta de bens que se podia adquirir com um salário mínimo no Brasil. A conversão foi feita pela taxa de paridade de poder de compra (PPC) elaborada pelo Banco Mundial em 2005, corrigida pela inflação ao consumidor nos Estados Unidos (IPC/BLS) e no Brasil (INPC/IBGE). (3) Série em número-indice a partir da relação entre o valor nominal do salário mínimo em dezembro de cada ano e o valor nominal do salário mínimo necessário tal qual calculado pelo DIEESE.

Embora esse fato também denote uma mudança dos termos de troca na economia brasileira, em prejuízo dos bens comercializáveis e em especial dos manufaturados, é necessário compreender o seu significado em termos de percepção do bem-estar na sociedade brasileira, além de seus impactos sobre o consumo e sobre outras variáveis econômicas relevantes (BALTAR, 2014; KERSTENETZKY, 2015). Apesar dos conhecidos efeitos negativos sobre a estrutura industrial e todas as possíveis consequências da chamada “doença holandesa”, a apreciação cambial, como bem revela a experiência brasileira recente, afeta a economia nacional também por outras vias, contrabalançando em alguma medida os seus efeitos negativos. Nos termos de Carolina Baltar,

[...] a valorização da moeda nacional ajuda a baixar a inflação e, juntamente com a acumulação de reservas, é criado um ambiente favorável, estimulando o consumo e o investimento. Sob essas condições, o sistema financeiro

66,2 167,7 71,41 182,48 59,09 2002=100,00 236,86 SM/NECESS Em R$ Em U$ (PPC)

modifica a composição dos seus portfólios, reduzindo os ativos da dívida pública e aumentando os empréstimos a empresas privadas e especialmente para as famílias. Assim, a taxa de crescimento do PIB é impulsionada, ainda que parte da demanda efetiva vaze para o exterior através de importações (2014, p.29-30).107

Assim, ao lado da expansão das políticas sociais, a apreciação do câmbio, a despeito de promover o vazamento da demanda doméstica para o mercado externo, funcionou também como uma política de renda por vias tortas, na medida em que amplificou o poder de compra daqueles estratos sociais que, pela via do emprego, dos salários ou das ações de transferência de renda, já percebiam maiores níveis de renda ao longo do período (BALTAR, 2015, p.29).

Portanto, mesmo que com o decorrer dos anos o desequilíbrio estrutural em conta corrente possa tornar cada vez mais incerta a reprodução desse arranjo macroeconômico, durante mais de uma década foi possível viabilizar um ciclo de crescimento com inclusão social que, deve-se frisar, constitui uma novidade nada desprezível na história do Brasil (BALTAR, 2014; KERSTENETZKY, 2015, MEDEIROS, 2015). Outrossim, ao lado da vigência de uma política de reajustes anuais do salário mínimo ancorada no crescimento do PIB, o efeito combinado daqueles fatores sobre a renda dos trabalhadores situados na base da pirâmide social foi expressivo, resultando, por um lado, na redução dos níveis de pobreza e, por outro, no estabelecimento de um mercado de consumo de massa de proporções inéditas no país (MEDEIROS, 2015, p.51-76; MEIRELLES e ATHAYDE, 2014).

Na seara acadêmica e em especial entre os economistas do trabalho, esse processo de paulatina recuperação do salário mínimo promoveu o recrudescimento no Brasil do debate a respeito de sua relevância e de seus impactos sobre a economia e a sociedade108. Em um primeiro momento, isto é, a partir da implantação do Plano Real, a motivação desse debate decorria tanto da necessidade de se repensar o valor ideal ou desejável do salário mínimo, quanto porque o ideário neoliberal em voga naquela época postulava uma série de efeitos

107 Tradução minha.

108 Desde o início da década de 1970 o salário mínimo e sua relação com o nível geral de salários foram

objeto de um profícuo debate no Brasil, do qual destacam-se os textos de Bacha et al (1972); Macedo, Garcia (1978); Souza, Baltar (1980), Velloso (1990), Cacciamali et al (1994).

indesejáveis decorrentes da elevação de seu valor ou até mesmo de sua existência (CARDOSO, 1993; RAMOS, REIS, 1994).

Entretanto, a despeito de alguns estudos e prognósticos mais céticos (BARROS et

al, 2000; CORSEUIL, CARNEIRO, 2001; ULYSSEA, FOGEL, 2006; GIAMBIAGI,

FRANCO, 2007; AFONSO et al, 2011), a evolução dos indicadores econômicos e sociais no período em tela veio revelar resultados muito positivos. Não por outra razão, reconhecidas instituições internacionais, como a OIT (2013), PNUD (2013), FMI (2015), Oxfam (2014), bem como especialistas brasileiros de distintos centros de pesquisa (KERSTENETZKY et al, 2013; LAVINAS, 2013; DALDEGAN, 2014; MANZANO et al, 2014; BRITO et al, 2015; BALTAR, 2015,) destacaram em um amplo e diverso leque de estudos que a redução da pobreza e da desigualdade no Brasil guardou relação direta com a política de valorização do salário mínimo. Mais do que isso, há razoável consenso na literatura sobre o tema109 que esse processo foi intensificado não apenas pela maior amplitude dos reajustes desde 2004, mas sobretudo porque, num contexto de crescimento do emprego e de avanço dos níveis de formalização do trabalho, seu efeito sobre a renda dos mais pobres foi ainda mais efetivo110. Nos termos de Carlos Medeiros

Diante da alta do nível geral de emprego em relação ao crescimento da população economicamente ativa, o salário mínimo agiu tanto como um farol – irradiando-se para a determinação da renda do trabalho assalariado nas atividades informais –, como um fator de propulsão para as rendas derivadas do trabalho autônomo. (2015, p. 17)

Assim, para melhor avaliar os impactos da experiência brasileira de elevação do salário mínimo no contexto muito particular desses doze anos, apresenta-se a seguir alguns dados a respeito da redução da desigualdade e dos níveis de pobreza. No gráfico abaixo (figura

109 Em revisão da literatura sobre o tema, Brito et al (2015, p. 8-9) apontam que encontraram apenas um

único estudo que aponta no sentido inverso, isto é, um impacto negativo do salário mínimo sobre o nível de desigualdade no Brasil ao longo do período que vai de 1995 a 2012.

110 Brito et al (op cit, p.23) ao analisarem os subperíodos entre 1995 e 2013 assinalam que, enquanto a

redução da desigualdade decorrente de cada 1% de elevação do salário mínimo foi de 0,17% e 0,28% nos respectivos governos de Lula, essa queda foi de apenas 0,05% e 0,14% nos respectivos governos de FHC. Já no subperíodo 2011-2013 (sob a presidência de Dilma Rousseff) a elasticidade da desigualdade em relação ao salário mínimo ficou em 0,11%.

3.13), além da evolução do Índice de Gini, estão registradas as quedas do número de pessoas que viviam em condições de pobreza ou de extrema pobreza no Brasil. Entre 2002 e 2014 (precisamente o período de intensificação da valorização do salário mínimo) mais de 32,8 milhões de brasileiros saíram da condição da pobreza (queda de 21 pontos percentuais), enquanto outros 15,6 milhões deixaram a extrema pobreza (queda de 5,8 pontos percentuais).

Figura 3.13

Índice de Gini e Taxas de Pobreza e Extrema Pobreza.

Brasil, 2002 a 2014.

Fonte: IBGE - Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (IPEADATA; 2016c, 2016d, 2016e)

Notas: 1) Taxa de Extrema Pobreza: calculada como percentual de pessoas na população total com renda domiciliar per capita inferior à linha de indigência (ou miséria, ou extrema pobreza). A linha de extrema pobreza aqui considerada é uma estimativa do valor de uma cesta de alimentos com o mínimo de calorias necessárias para suprir adequadamente uma pessoa, com base em recomendações da FAO e da OMS. 2) Taxa de Pobreza: calculada como percentual de pessoas na população total com renda domiciliar per capita inferior à linha de pobreza. A linha de pobreza aqui considerada é o dobro da linha de extrema pobreza, uma estimativa do valor de uma cesta de alimentos com o mínimo de calorias necessárias para suprir adequadamente uma pessoa, com base em recomendações da FAO e da OMS. Série calculada pelo IPEADATA a partir das respostas à Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/IBGE).

Em grande medida, por conta dessa expressiva redução das pessoas em situação de pobreza ou de extrema pobreza, a desigualdade de renda, quando calculada a partir dos dados

14,0 15,2 13,2 11,5 9,5 9,0 7,6 7,3 6,3 5,3 5,5 4,2 34,4 35,8 33,7 30,8 26,8 25,4 22,6 21,4 18,4 15,9 15,1 13,3 0,589 0,543 0,531 0,518 0,480 0,500 0,520 0,540 0,560 0,580 0,600 0,0 10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 In d ic e d e G in i Tax a d e Pob re za (e m % )

da PNAD111, diminuiu de forma sensível. Tal como revela a trajetória de queda do Índice de Gini, em um período pouco maior que uma década o Brasil conseguiu trazer o seu Gini ao patamar de 0,518 - o que corresponde ao nível que era registrado no país em 1960. Embora esse patamar ainda seja elevado em termos internacionais, a recente evolução merece ser destacada em especial pela velocidade da queda e pelo contraste em relação ao verificado no mesmo período nos demais países do BRICS, cujos estilos de crescimento, apesar de mais potentes em termos de crescimento do produto, resultaram em aumentos da desigualdade de renda, expressas na elevação de seus respectivos Índices de Gini.

Mas, quanto desses resultados auferidos no Brasil podem ser considerados como decorrência da política de valorização do salário mínimo ou de outras políticas sociais?

Alguns estudos importantes se dedicaram especialmente e a essa questão (SABOIA, 2007; BARROS et al, 2010; DIEESE, 2010; SOARES, 2011; KERSTENETZKY et al, 2013; LAVINAS, 2013; BRITO, 2015)112. Dentre eles, destaca-se aqui os trabalhos de Kerstenetzky

et al (Ibid.) e de Brito et al (Ibid.) nos quais se procura não apenas identificar o efeito direto do

salário mínimo, isto é, o seu efeito sobre a remuneração dos empregados assalariados, mas também aferir os mecanismos indiretos por meio dos quais alterações no seu valor afetam a renda domiciliar. Fazendo a decomposição desses efeitos, os dois estudos chegam à conclusão de que, dada a institucionalidade do sistema de seguridade social brasileiro, a maior contribuição do aumento do salário mínimo para a recente redução da desigualdade no Brasil se deu pela via previdenciária113. Ou seja, tal como revelado pelo estudo econométrico realizado por Brito et al (Ibid.), o canal de transmissão do reajuste do salário mínimo para a renda dos

111 É necessário alertar, entretanto, que, embora as pesquisas com base na PNAD indiquem queda

persistente na desigualdade de renda desde 2004 até 2014 (OSÓRIO, 2015), estudos como o de Medeiros e Souza (2015) ou Milá Marc (2015), que utilizam dados disponibilizados recentemente pela Receita Federal do Brasil e, portanto, com a possibilidade de expandir o escopo de análise para além das declarações coletadas pela PNAD (majoritariamente associadas a rendimentos do trabalho) indicam que, na melhor das hipóteses, (MEDEIROS e SOUZA, 2015) a desigualdade de renda no Brasil manteve-se estável no 2006 a 2012.

112 Uma boa revisão da literatura a esse respeito, que sumariza os estudos empíricos nacionais, pode ser

encontrada em BRITO et al (2015, p. 7-10).

mais pobres se deu, majoritariamente, por meio do sistema de aposentadorias e pensões, o qual responderia sozinho por 37,7% da redução da desigualdade da renda domiciliar no período (BRITO et al, 2015., p. 24). De acordo com esses autores

A política de valorização do salário mínimo resultou em uma redução de aproximadamente 72% da desigualdade na distribuição da renda domiciliar nas duas últimas décadas no Brasil (entre 1995 e 2013, mais precisamente), tendo o maior efeito isolado ocorrido via renda previdenciária. (Ibid., p.4)

Já no que se refere especificamente aos efeitos do salário mínimo sobre o mercado de trabalho, a experiência brasileira dos anos 2000 também reforça o entendimento de que aquele exerce um importante papel ao contribuir para a redução da dispersão dos rendimentos do trabalho, tal como já postulavam Bacha et al (1972) ou Souza e Baltar (1980).

Na literatura especializada mais recente, têm-se distinguido múltiplos canais de transmissão da valorização do salário mínimo para o conjunto da estrutura salarial (FAJNZYLBER, 2001; NERI, 2001; DIEESE, 2005; SABOIA, 2007). De um modo geral, tal como sintetizado em DIEESE (op. cit, p. 4-5), seus impactos sobre os rendimentos do trabalho no Brasil se dão fundamentalmente por meio de três efeitos principais, a saber: i) o efeito farol, que decorre da vinculação espontânea das remunerações do setor informal à evolução do salário mínimo; ii) o efeito arrasto, que corresponde ao reajuste dos salários situados entre o velho e o novo valor do salário mínimo; e iii) o efeito numerário, que ocorre quando um múltiplo do salário mínimo serve de referência para o reajuste de remunerações cujo valor supera o do salário mínimo.

Medeiros (2015) chama a atenção ainda para um quarto efeito que teria vigorado no período recente - o efeito propulsão, a impactar especificamente a renda dos trabalhadores

por conta própria. Tal efeito, por sua vez, se daria por duas vias: i) pelo impacto do aumento

do consumo dos assalariados que recebem salário mínimo sobre a demanda por bens-salários ofertados pelo segmento dos trabalhadores por conta própria e ii) pelo deslocamento de parte