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2 O MERCADO DE ENERGIA EÓLICA E O PLANO DE NACIONALIZAÇÃO

2.1 O mercado de energia eólica e de aerogeradores

2.1.1 A energia eólica e os principais fabricantes no Brasil

O Brasil é o oitavo maior produtor e o quarto maior investidor mundial em energia eólica30 (AROEIRA et al., 2017, p. 39). Dados recentes (AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA, 2020) demonstram que aproximadamente 15 GW de energia elétrica são produzidos a partir dessa fonte. Em termos comparativos, isso equivale a algo em torno de 8,6% da matriz energética nacional (170 GW), enquanto que a fonte predominante, hídrica, corresponde a 61% (109 GW). Em segundo lugar, encontram-se os combustíveis fósseis31, representando 14,7% da matriz brasileira. A biomassa, em suas diversas formas32, disputa o terceiro lugar com a energia eólica, com um número bem aproximado: 8,4%. 4,5% da demanda brasileira é atendida a partir da importação de energia elétrica de países vizinhos, como Paraguai, Argentina, Venezuela e Uruguai. Por fim, as energias fotovoltaica e nuclear representam 1,49% e 1,11%, respectivamente.

29 Mais precisamente, a chinesa Guodian United Power é estatal. A Goldwind é uma sociedade de economia mista, parcialmente pertencente ao Estado chinês.

30 Fato interessante é o de que o investimento brasileiro é predominantemente nacional, em contraste a outros países da região. Conforme levantamento de 2016, 77% do investimento em energias renováveis no país partiu do capital nacional e o restante do estrangeiro. De forma inversa, países como Chile e México contaram com 90 e 98% de investimento estrangeiro, respectivamente. Essa discrepância pode ser explicada pelo fato de que tais países permitem a indexação de contratos dessa natureza em moeda estrangeira, não ficando submetido à volatilidade do câmbio, o que não é o caso brasileiro. Consequentemente, afastam-se investidores externos. Nesse sentido, ver Aroeira et al. (2017).

31 Carvão mineral, gás natural, petróleo e outros fósseis.

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GRÁFICO 2 – COMPOSIÇÃO DA MATRIZ ENERGÉTICA BRASILEIRA (MARÇO DE 2020)

Fonte: adaptado de Agência Nacional de Energia Elétrica (2020).

A evolução da energia eólica no país ocorreu em ritmo análogo ao da expansão mundial, tendo apresentado a partir dos anos 2000 um crescimento moderado. Não obstante, é a partir da década de 2010 que se observa um maior investimento no setor. Com efeito, nessa época, houve uma grande expansão do mercado de energia eólica no país a partir das políticas de incentivo do governo33, conforme demonstram resultados obtidos nos leilões de energia de 2009 a 2015 (BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL, 2017, p. 174; ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENERGIA EÓLICA, 2019, p. 5). Outro fator que contribuiu para esse fenômeno foi a crise financeira de 200834 nos países centrais, que fez com que migrasse para cá parte dos investimentos globais no setor35 (GOUVÊA; SILVA, 2018). Atualmente, a energia eólica, exclusive a hídrica, pode ser considerada a fonte renovável mais competitiva do país, tendo atingido seu menor preço histórico em 2017, quando foi inferior até ao da geração hídrica de grande porte. Nesse ano, o Brasil tem o terceiro menor custo médio de geração global dessa fonte de energia, atrás apenas de China e EUA, que são os maiores

33 Para uma síntese da relevância estratégica atribuída à energia eólica durante o Governo Dilma (2010-2016), bem como de outras fontes, ver Schutte (2014).

34 A crise financeira de 2008 iniciou no setor de títulos imobiliários do setor financeiro americano e tornou-se a mais grave crise econômica desde a Grande Recessão dos anos 1930, especialmente nos EUA e na Europa.

35 Não obstante, isso deve ser considerado um fator pertinente com a devida cautela, tendo em vista o baixo grau de internacionalização do setor de energia eólica no país, conforme já exposto na Nota 30. 61,00% 14,70% 8,60% 8,40% 4,50%1,49% 1,11% Hídrica Combustíveis fósseis Eólica Biomassa Importação Solar Nuclear

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mercados mundiais (ARAÚJO; WILLCOX, 2018, p. 214; ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENERGIA EÓLICA, 2020).

GRÁFICO 3 – EVOLUÇÃO DA CAPACIDADE INSTALADA DE ENERGIA EÓLICA NO PAÍS EM MW (2005 A 2018)

Fonte: adaptado de Associação Brasileira de Energia Eólica (2019, p. 5).

Em termos regionais, o maior potencial para a produção desse tipo de energia encontra-se na Região Nordeste. Essa propensão pode ser observada pela concentração de parques eólicos na região em comparação ao restante do país. Com efeito, os estados com o maior número de parques, em ordem decrescente, são: primeiramente, o Rio Grande do Norte (RN), com 150; logo após, a Bahia (BA), com 139; o Ceará (CE) e o Rio Grande do Sul (RS), ambos com 8036; o Piauí (PI), com 60 parques; e Pernambuco (PE), com 34. Por outro lado, o Rio de Janeiro (RJ) e o Pará (PA) possuem somente um parque eólico cada, e outros estados, como São Paulo (SP), Minas Gerais (MG) e os da Região Centro-Oeste, não possuem nenhum (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ENERGIA EÓLICA, 2019, p. 6). Assim, estima-se que 85% da capacidade existente para energia eólica do país encontra-se no Nordeste (INTERNATIONAL RENEWABLE ENERGY AGENCY, 2019b) e 12% no RS. Cabe notar que essa configuração regional pode contribuir, junto de outros fatores, para uma diversificação na base da indústria metal-mecânica nacional, que

36 Em termos de potência instalada, o CE está à frente do RS: 2.050,5 para 1.831,9 MW.

0 2000 4000 6000 8000 10000 12000 14000 16000 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018

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mostra uma migração relativa da Região Sudeste para as Regiões Sul e Nordeste, conforme será exposto mais adiante (ARAÚJO; WILLCOX, 2018, p. 214).

Em uma visão geral, a estrutura produtiva brasileira engloba toda a cadeia de valor existente no que se refere à energia eólica, seja em termos de serviços ou produtos. Desenvolve-se aqui: os estudos preliminares sobre as qualidades do vento do local onde se pretende instalar um parque e se obter o licenciamento ambiental e a regularização fundiária do empreendimento; a parte de viabilidade financeira de tal projeto, onde se faz uma análise de se retorno e se busca os contratos com fornecedores do maquinário necessário; contratos de comercialização de energia entre geradores e distribuidores, que podem envolver assessoria aos leilões da ANEEL ou gestão de consumo; o fornecimento dos equipamentos para o parque, sua construção e comissionamento, que envolve o Balance of Plant (BOP)37 civil, a instalação dos equipamentos; e, por fim, sua operação comercial, onde se trabalha com a operação e manutenção (O&M) do parque e o BOP eletromecânico; além de outros serviços complementares, como transporte, logística e P&D (AROEIRA et al., 2017, p. 95).

De todos esses fornecedores de bens e serviços, os que tiveram um desenvolvimento mais expressivo nos últimos anos são os fabricantes de aerogeradores. Em 2010, quando o país atingiu seu primeiro mil MW de potência eólica instalada, a demanda era suprida principalmente por quatro fabricantes: Wobben38 (40%), Suzlon (37,5%), Vestas (10%) e Impsa (10%). Ainda nessa época, o pequeno parque eólico brasileiro importava quase 50% dos aerogeradores, tendo em vista que a Suzlon e a Vestas não possuíam fábricas aqui – isso sem ser considerado o percentual de componentes internos que eram importados, mesmo quando o aerogerador fosse fabricado/montado aqui, como era o caso da alemã Wobben e da argentina Impsa. Ou seja, somente essas duas companhias possuíam fábricas instaladas no país, em Sorocaba (SP) e Suape (PE), respectivamente. Além delas, nesse mesmo ano, a espanhola Gamesa estava com uma fábrica em

37 Termo específico da engenharia referente a todos os equipamentos auxiliares necessários para o funcionamento de uma estação de energia além de sua unidade geradora. Assim, engloba uma vasta gama de aparelhos, como transformadores, inversores, estruturas de suporte etc.

38 A Wobben Windpower, subsidiária da já referida alemã Enercon GmbH, é a fabricante de aerogeradores mais antiga no mercado nacional, e da América do Sul, atuando aqui desde 1995. Dessa forma, ela manteve uma posição de monopólio no mercado nacional por certo período. Nesse sentido, ver Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (2018).

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construção em Camaçari, na Bahia. Ademais, fabricantes estrangeiros, como as já mencionadas Vestas, Siemens, Suzlon, além da francesa Alstom e da chinesa Guodian United Power39, haviam anunciado seu interesse de realizar investimentos no Brasil. Para além da política do BNDES de nacionalização da cadeia produtiva, as fabricantes tiveram interesse em iniciar suas atividades aqui em razão de excelentes resultados obtidos nos leilões de energia eólica de 2009 e 2010, expostos mais adiante, o que tornava promissor o investimento no país (GLOBAL WIND ENERGY COUNCIL, 2011, p. 21).

Em suma, entre 2010 a 2013, onze montadoras firmaram acordos com o BNDES de cumprimento das metas de nacionalização para serem credenciadas: Wobben, Gamesa, GE, Vestas, Impsa, WEG, Alstom, Siemens, Acciona, Suzlon e Führlander (ARAÚJO; WILLCOX, 2018; FERREIRA, 2017). Em junho de 2012, seis dessas empresas foram descredenciadas pelo não atendimento das normas compactuadas em seus contratos individuais, conforme auditorias realizadas pelo BNDES nas suas instalações produtivas. Entre tais empresas estão a Suzlon, a Siemens, a alemã Führlander e a espanhola Acciona (AGÊNCIA BRASILEIRA DE DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL, 2014). A Siemens e a Suzlon, embora já tivessem fornecido máquinas ao mercado brasileiro, acabaram por não se adequar ao regramento do BNDES (Id., 2018). A Acciona, por sua vez, reajustou-se às exigências do Banco, tendo retomado o credenciamento (Id., 2014). Dessa forma, em 2014, havia dez montadoras de aerogeradores atuando efetivamente no país: Impsa, Wobben, GE, Alstom, Gamesa, Acciona, Siemens, Suzlon, Vestas e WEG. Dessas, as seis primeiras já estavam credenciadas pelo BNDES, realizando sua produção nacionalmente, enquanto a WEG encontrava-se no processo final de homologação naquele ano. A Vestas assinou uma carta de intenções com o Banco para que se adequasse às regras até o último trimestre de 2015, o que ocorreu a partir da instalação de sua fábrica em Aquiraz (CE) em 2016 (Id., 2018, p. 20; VESTAS BRASIL, 2020). Mesmo com a expansão de montadoras, tal mercado continuava extremamente dependente de importações por meados de 2013. À

39 Até onde foi possível averiguar, aparentemente a companhia chinesa não concretizou esse intento, tendo em vista que nenhuma fábrica sua entrou em operação aqui.

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época, 43% da demanda nacional era suprida por importações da China, Alemanha, EUA e outros países (EUROMONITOR RESEARCH, 2013).

Nos anos seguintes, certos acontecimentos reduziram o número de montadoras instaladas no país: em 2016, ocorreu a fusão entre a Siemens e a Gamesa (59% e 41% do capital, respectivamente), renomeada Siemens Gamesa Renewable Energy, cuja fábrica brasileira localiza-se no polo industrial baiano de Camaçari (AGÊNCIA BRASILEIRA DE DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL, 2018, p. 20). Esse acontecimento deu lugar de destaque à empresa Siemens no mercado brasileiro: não tendo cumprindo as regras de conteúdo local do BNDES, a companhia alemã tinha um papel muito limitado no setor nacional desde 2012, tendo somente fornecido algo em torno de 2% do maquinário utilizado nos parques. Todavia, com a fusão, tornou-se a segunda maior fornecedora nacional de aerogeradores. Isso é devido ao fato de que ambas as empresas possuem competências geográficas complementares: enquanto a fabricante espanhola consolidou seu mercado na América do Sul e na Ásia, a alemã Siemens é forte na Europa e na América do Norte. Também a especialidade dessa é as turbinas offshore enquanto da Gamesa, onshore (AROEIRA et al., 2017, p. 124-125).

Além disso, a GE, que já possuía uma fábrica em Campinas (SP), adquiriu a divisão de energia da Alstom em 2015, investindo também no polo de Camaçari (BA) em razão do potencial eólico daquela região. No âmbito global, essa aquisição foi oportuna para que a empresa se tornasse competitiva face à líder no mercado de turbinas offshore, Siemens (Ibid., p. 124). Em 2016, a Acciona se fundiu com a alemã Nordex, tornando-se a Nordex Acciona Windpower. A argentina IMPSA, por sua vez, tinha a intenção de instalar uma fábrica de aerogeradores no Rio Grande do Sul através de sua subsidiária nacional, Wind Power Energia. No entanto, devido a problemas financeiros, tal empresa fez um pedido de recuperação judicial e paralisou suas atividades em 2014, não tendo se concretizado o plano da fábrica. Por fim, a indiana Suzlon, que jamais se adequou aos regramentos do BNDES, acabou encerrando suas atividades no país em 2017 devido a fatores do mercado

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nacional, fechando a filial (escritório) atuante aqui desde 200640 (AGÊNCIA CANALENERGIA, 2017).

No ano de 2020, está reduzido a seis41 o número de montadoras no país: Siemens Gamesa, General Electric, Wobben, WEG, Vestas e Nordex Acciona (BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL, 2020). Um fato importante é que, exclusive a WEG, todas as demais montadoras no país são multinacionais estrangeiras. Segue a capacidade produtiva das fabricantes atuantes no país, computada através do registro de máquinas produzidas por ano:

GRÁFICO 4 – EVOLUÇÃO DA CAPACIDADE PRODUTIVA DAS FABRICANTES INSTALADAS NO PAÍS EM UNIDADES DE AEROGERADORES PRODUZIDAS ANUALMENTE (2014 A 2017)

Fonte: adaptado de Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (2018, p. 22).

Vislumbra-se que as mudanças que ocorreram em anos recentes na indústria nacional, de um número menor de empresas em atuação, não resultaram em um

40 Essa redução nos competidores do mercado de energia eólica, tornando-se cada vez mais similar a um oligopólio, está de acordo com a tendência já observada em outros ramos do setor elétrico, conforme indicam analistas (AUGER, 2015; WALKER, 2010). Parte disso é devido ao fato de que grandes conglomerados industriais, como a GE e a Siemens, para serem mais competitivos, estão reduzindo cada vez mais o preço de suas turbinas e obtendo seu lucro sobre os serviços de operação e manutenção (O&M) oferecidos, um retorno a longo prazo. Isso torna inviável para empresas menores sustentar os custos de produção de seus aerogeradores, que acabam por vender seus ativos a essas grandes corporações.

41 Isso não significa que não haja máquinas em operação de outras empresas nos parques eólicos brasileiros, e sim, somente que a fabricante não possui fábrica instalada em território nacional. Um exemplo disso é a chinesa Goldwind, que recentemente fechou negócio aqui. Nesse sentido, ver Costa (2018). 0 100 200 300 400 500 600 2014 2015 2016 2017

Acciona Alstom Gamesa GE

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grande incremento nas suas respectivas capacidades produtivas individuais, mantendo-se em um total de 1,5 mil máquinas por ano. Isso se explica pelo fato de que a produção existente já corresponde a uma capacidade muito superior à demanda no país (Ibid.).

Inegável que os polos de atuação das montadoras estão vinculados a certas vantagens comparativas locais: montadoras como Siemens Gamesa, Nordex Acciona e Vestas têm suas unidades para fabricação de cubos e naceles em zonas próximas à concentração de parques eólicos nacionais, atualmente no Nordeste. Isso reduz os custos logísticos que envolvem a entrega de componentes, além de haver apoio ou incentivos oferecidos pelos governos estaduais. Por sua vez, empresas como a GE e a WEG optaram por ficar mais próximas de estruturas fabris já consolidadas, estando a empresa americana localizada em um polo em São Paulo de diversos fabricantes de subcomponentes. Já a base da WEG fica na região de Jaraguá do Sul (SC), local notório por seu potencial metal-mecânico, onde a empresa tem toda sua cadeia industrial para a fabricação de motores e equipamentos (Id., 2014, p. 122).

Dessa forma, é pertinente destrinchar os subcomponentes dessa máquina e seus principais fornecedores no Brasil para clarificar a configuração espacial e organizacional dessa indústria.