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A tuberculose, à luz das ciências sociais, tornou-se nas últimas décadas deste século, um importante objeto de pesquisa enfocada sob múltiplas abordagens analíticas. A doença tornou- se objeto de investigação por ter estado, e ainda hoje permanecer presente no cotidiano de diferentes grupos sociais de maneira muito extensa, possibilitando a formulação e o aprofundamento de amplo leque de interrogações. (FERNANDES et al., 1993, p. XXI)

No período da descoberta do Brasil, não havia tuberculose entre os índios. A doença teria chegado ao país por conta dos colonizadores europeus. A Companhia de Jesus, em sua missão, trouxe ao país inúmeros padres, que padeciam de tuberculose. O contato direto deles com os indígenas, na busca da catequização, haveria propagado o bacilo que dizimou inúmeras aldeias. Sabe-se que naquela época, os índios, já costumavam isolar seus doentes. (HIJJAR, 1985)

A doença propagou-se rapidamente entre os escravos, uma vez que estes aqui chegavam debilitados pela longa viagem, além de posteriormente terem mínimas condições de saúde (alimentar e higiênicas) e de trabalho. (VAGUETTI, 1999)

A partir dos últimos anos do século XVIII, associou-se a tuberculose pelo menos a duas representações. A primeira definia-a como “uma doença romântica”, idealizada, como uma característica de poetas e intelectuais. A segunda, gerada em fins do século XIX que a qualificava como “mal social” e firmou-se claramente no decorrer do século XX, tendo convivido nas primeiras décadas com a visão romântica. Estas duas concepções apresentaram-se de forma significativa no imaginário social, expressando-se de forma estigmatizante.

A identificação do bacilo de Koch,em 1882, como agente etiológico da tuberculose foi um marco fundamental para o conhecimento da doença. Esta contribuição levou ao fortalecimento da teoria da transmissibilidade da doença, ao controle e tratamento específico da tuberculose, porém não foram apresentados, neste momento histórico avanços terapêuticos significativos.

Como terapêutica para a tuberculose, prevaleceu desde o século XIX, o tratamento higieno-dietético. Este tinha, como pressuposto, a cura espontânea do

doente, especialmente quando este era colocado em condições favoráveis, traduzidas por uma boa alimentação, repouso e incorporando o clima das montanhas, como um fator fundamental no tratamento. Sua indicação envolvia o isolamento dos doentes, viabilizadas por meio da criação de sanatórios e preventórios. (ORNELLAS, 1987).

No início do século XIX, um inquérito propagou que um terço da população morreu de tuberculose. Na metade deste século, o 2o Império adotou a higienização das cidades com o objetivo de modernização da sociedade, mediante a modificação da conduta física, intelectual, moral, sexual e social de cada membro das famílias, sendo a mulher responsabilizada pela conduta dos preceitos de higiene. Relaciona- se a tuberculose, as alcovas, a escrava doméstica, a masturbação, a transmissão hereditária de doenças, a vida mundana, a libertinagem, ao homossexualismo e às paixões. (BARREIRA, 1993).

No Brasil, a percepção da tuberculose como doença social firmou-se no século XX, estando presente no discurso médico, respaldado pelos dados estatísticos. Estes indicam, de forma incontestável, desde o início do século, uma maior incidência de tuberculose junto às classes populares, em virtude das precárias condições de vida, aspecto obscurecido na “tísica romântica”. Apesar da associação da doença às condições de vida, percebe-se que as orientações para o controle da tuberculose, ao longo deste século assumiram o fator biológico como seu principal determinante, sustentadas por um saber técnico-científico que se desenvolveu progressivamente. (ORNELLAS, 1987)

No país, ao longo do século XX, a formulação e implementação das políticas de controle da tuberculose foram sendo assumidas por instituições estatais e filantrópicas, que atuaram de forma diferenciada no decorrer do período. Nas duas primeiras décadas, as instituições filantrópicas tiveram papel relevante na difusão e aplicação das idéias preconizadas para o combate à tuberculose. Destacou-se no Rio de Janeiro, a Liga Brasileira Contra a Tuberculose, fundada em 1900, como resultado de um movimento de médicos e intelectuais convencidos de que não podiam se omitir no combate à doença que causava tão alta mortalidade na capital federal. A Liga, até 1907, criou dois dispensários e desenvolveu um intensivo trabalho de propaganda sobre o problema da tuberculose e os meios para minimizá- lo. Neste sentido, em 1913, passou a veicular publicações científicas como: revistas, almanaques, boletins entre outros e no ano de 1927, criou o Preventório Rainha

Dona Amélia, destinado aos filhos de tuberculosos. Em vários estados brasileiros criavam-se também as ligas contra a tuberculose, que foram, durante este período as únicas instituições que implementaram uma política de controle da doença. (ORNELLAS, 1987)

A Reforma Carlos Chagas, em 1920, que deu origem ao Departamento Nacional de Saúde Pública, inaugurou uma fase de maior intervenção do estado no combate à tuberculose, criando a Inspetoria de Profilaxia da Tuberculose. No Distrito Federal, sediado à época no Rio de Janeiro, tanto o poder público com as entidades filantrópicas ampliavam a disponibilidade de atendimento, organizando dispensários e enfermarias exclusivas para tuberculosos. Houve a participação das primeiras enfermeiras de saúde pública que se ocupavam com visitação domiciliar e entrevistas nos dispensários. (NASCIMENTO, 2005)

Em 1930, criou-se o Ministério da Educação e Saúde Pública, ampliando a intervenção estatal no combate a tuberculose, mas convivendo com as iniciativas filantrópicas. Um dos fatos marcantes da participação e de importância dos enfermeiros no combate a tuberculose em 1923, foi através da implantação da Escola de Enfermeiras do Departamento Nacional de Saúde Pública, hoje Escola de Enfermagem Anna Nery. Esta Escola foi organizada a partir do Sistema Nightingale, já implantado nos hospitais americanos e à prática americana de saúde pública, baseada na visita domiciliar e no acompanhamento dos doentes com tuberculose e dos comunicantes. (NASCIMENTO, 2005)

O Brasil na década de 40, sob a égide do Estado Novo, guiado por Getúlio Vargas, tinha forte influência autoritária e fascista e, com a ditadura instaurada, criou, em 1941, o Serviço Nacional de Tuberculose, e, em 1946, o Estado criou a Campanha Nacional contra a Tuberculose, que desempenhou um papel singular em razão de sua constituição administrativa financeira e flexível. Entre os anos de 1942 e1945, o Serviço Nacional de Tuberculose criou vários sanatórios e hospitais pelo país, com uma forte idéia de interiorização e uniformização do atendimento e normatização das ações de saúde e formação de recursos humanos de nível médio e superior. A descoberta da quimioterapia específica, alterou o perfil epidemiológico, a ação institucional e o conhecimento científico, com relação à tuberculose além de repercutir nas representações sociais da doença. (ORNELLAS, 1987)

A Campanha Nacional de Tuberculose configura-se como fator importante no aumento de enfermeiras, pelo apoio financeiro dado às escolas. A enfermagem

desenvolveu-se atuando no planejamento em equipes multiprofissionais, supervisão, educação continuada e assessoria técnica. (BARREIRA, 1993)

A enfermeira representava o papel de agente da ordem institucional, seu espaço profissional era amplo, permanente e decididamente ocupado, o que representava uma presença extremamente forte e vigilante. A valorização da presença da enfermeira da Campanha nos estados correspondia à sua função de representação e não à sua própria pessoa que enquanto mulher solteira e enfermeira, da pequena classe média, era pressionada pelo pessoal local, a conformar-se ao papel tradicional da enfermeira, no qual se reproduziam as relações sociais de gênero vivenciadas no âmbito familiar.

Por outro lado, a participação da enfermagem na elaboração de políticas e diretrizes era praticamente nula. Ao contrário, sempre foi muito forte sua atuação normativa e disciplinadora, não só no espaço próprio da enfermagem, mas também no espaço onde o médico exercia sua hegemonia. Esta interferência no espaço médico era, ao mesmo tempo, fonte de permanentes atritos e razão de ser de sua presença no serviço, ou seja, exercer as pressões consideradas necessárias à conformação daquele serviço à orientação da Campanha. Por isto, enquanto no espaço da unidade de internação do sanatório, médico e enfermeira poderiam reproduzir as relações de gênero numa situação harmoniosa, no cenário dispensarial, suas relações quase sempre caracterizavam-se pelo conflito e pelo confronto. Por outro lado, sua função controladora de doentes e funcionários, ao mesmo tempo em que lhe dava a sensação do poder, mobilizava sentimentos de culpa, por ter que excluir muitos deles dos benefícios dispensados pela Campanha, e pôr ela gerenciados. (BARREIRA, 1993).

Esta posição e a postura das enfermeiras da Campanha, na visão de Barreira (1993), mostram como estas participavam do jogo de forças políticas da época, apenas como expectadoras de eventos políticos, os quais não se tornaram referências para suas carreiras. A sua ideologia profissional era a mística da Campanha, pois as enfermeiras acreditavam na sua força de intervenção para resolver o problema da tuberculose, pois conheciam de perto a sua relação com pobreza, mostravam alheamento sobre as questões políticas de estado e sua relação com a saúde, com a construção da cidadania e, principalmente sobre o seu papel enquanto mulher na força de trabalho na sociedade.

ambulatorial e faz com que, em 1961, sejam treinados enfermeiras para os dispensários das capitais. Quando os enfermeiros não podiam ir ao Rio de Janeiro, eram treinados por uma equipe itinerante, que habilitava também pessoal de diferentes níveis. Neste processo a rede dispensarial atinge o mais alto grau de desenvolvimento. (BARREIRA, 1993).

Nas décadas seguintes, são desativados sanatórios e hospitais à tuberculose e, em 1976, é criada a Divisão Nacional de Tuberculose, que se transformou em Divisão Nacional de Pneumologia Sanitária, ocupando-se não somente da tuberculose, mas também de outras doenças pulmonares de interesse da Saúde Pública.

Atualmente a tuberculose apresenta-se associada à AIDS, mostrando-se assustadora e com emergência de ações no país e no mundo, acredita-se que a doença no país atinja, hoje, 50 milhões e no mundo, em torno de dois bilhões de pessoas, correspondendo a um terço da população mundial que está infectada pelo bacilo Mycobacterium tuberculosis, que causa a tuberculose, sendo que 8 milhões desenvolverão a doença e 2 milhões morrerão a cada ano. Este fato exige novamente a participação e o compromisso de ação de todos os profissionais do cuidado à saúde, entre eles a enfermagem, como também políticas públicas eficientes, recursos financeiros e investimentos em recursos humanos de longo prazo. (BRASIL, 2005)

Este avanço da tuberculose no país e no mundo demonstra que, nas últimas décadas, o controle e a falta de políticas públicas efetivas para seu combate foram relegado a segundo plano, sendo ela hoje considerada umas das doenças negligenciadas pelas instituições de estudo e pesquisa no país.

2.4 O CUIDADO HUMANO COMO ACONTECIMENTO FILOSÓFICO

A construção de uma compreensão dos fundamentos filosóficos do cuidado humano leva-nos a resgatar o pensamento de filósofos, que pensaram o cuidado, da antiguidade até a contemporaneidade, os quais expressam que, ao buscar e desvelar o sentido da existência humana, as essências que constituem o humano e sua humanidade no cotidiano do ser e do existir, o cuidado apresenta-se como tema