3. REVISÃO DE LITERATURA
3.4 O TRABALHO: REVISITANDO CAMINHOS
3.4.1 A Enfermagem e o trabalho
A Enfermagem, segundo Pires (1998), pode ser entendida como uma prática historicamente estruturada e que existe ao longo da história da humanidade, sendo, porém, constituída por diferentes maneiras de cuidar que, por sua vez, são determinadas pelas relações sociais de cada momento histórico. As relações do indivíduo com seu trabalho acabam por influenciar no estilo de vida dos profissionais que cuidam, e as relações interpessoais na equipe de saúde podem ser fatores contributivos para o estresse oriundo do ambiente onde se desenvolvem as atividades laborais, bem como o ritmo e as exigências de serviços.
Atualmente, o trabalho de Enfermagem é integrante do trabalho coletivo em saúde, sendo comumente especializado, dividido e hierarquizado entre auxiliares, técnicos e enfermeiros de acordo com a complexidade de concepção e execução. A Enfermagem, embora detenha autonomia relativa em relação aos demais profissionais, mantém forte vínculo com o trabalho executado pelos médicos. O processo de trabalho dos profissionais de saúde tem como finalidade – a ação terapêutica de saúde; como objeto – o indivíduo ou grupos doentes, sadios ou expostos a risco, necessitando de medidas de cuidado ou curativas, preservar a saúde ou prevenir doenças; como instrumental de trabalho – os instrumentos e as condutas que representam o nível técnico do conhecimento que é o saber de saúde e o produto final é a própria prestação da assistência de saúde que é produzida no mesmo momento em que é consumida (PIRES, 1998).
Nascimento (2003), afirma que a Enfermagem é responsável pelo maior contingente da força de trabalho dos estabelecimentos hospitalares, com responsabilidade pela assistência e gestão nas 24 horas e, por isso, é o conjunto de trabalhadores que está mais exposto às
condições e inadequações de trabalho e com a insalubridade do ambiente, sensivelmente vulnerável ao estresse.
Esse mesmo autor aponta que pelo prisma da gerência de recursos humanos, o trabalhador e o próprio trabalho são atingidos pelas medidas de redução de custos. Dessa forma, o absenteísmo na equipe de Enfermagem é um problema relevante, considerando-se que a maioria das Instituições, inclusive os hospitais, não prevê cobertura para os dias de falta, fato que acarreta a sobrecarga de trabalho para a equipe de Enfermagem e pode comprometer a qualidade do cuidado prestado aos pacientes.
Mendes (1995) afirma que diversas profissões estão estruturadas em turnos de trabalho, tanto por razões técnicas, sociais ou econômicas, sendo a Enfermagem uma delas. É uma profissão que desenvolve suas atividades de cuidado em período integral, organiza seu trabalho em turnos ininterruptos, acompanhando o indivíduo com problemas de saúde durante as 24 horas do dia, como dito anteriormente. A atividade hospitalar exige uma organização da força de trabalho em equipes e em turnos, a fim de assegurar a continuidade do cuidado e do tratamento. Sendo que as realidades de trabalho, nem sempre ocorrem de acordo com a literatura, mas sim, de acordo com a realidade prática vivenciada. Autores como Mendes (1995) e Nascimento (2003), afirmam que a organização do trabalho em turnos, concentrando atividades em jornadas diurnas e noturnas, pode ser um fator que influencie na escolha da profissão, principalmente, no que tange à Enfermagem, onde predomina o gênero feminino, podendo indicar um interesse em conciliar a vida profissional com a vida pessoal e familiar. A procura dos profissionais pelo trabalho noturno pode estar relacionada com interesses financeiros, pelo acréscimo do adicional noturno, necessidade de conciliar atividades de ensino, vida pessoal e outros empregos. Cada vez mais se sabe que o trabalho noturno é importante para a sociedade e para o desenvolvimento econômico do país, mas torna-se preocupante a forma com que este está sendo organizado e as suas repercussões para a saúde dos profissionais que o desempenha.
Para Marques e Menna- Barreto (2003), os ritmos biológicos associados ao claro e escuro são conhecidos como ritmos circadianos, e, de acordo com a espécie, o período pode variar de 20 a 28 horas. O período de oscilação dos ritmos circadianos nos seres humanos possui uma frequência próxima das 24 horas. Através do ritmo circadiano há uma sincronização interna que vem em resposta ao meio externo, a qual ocorre uma variedade de medidas fisiológicas e psicológicas: o sono, a secreção hormonal, a temperatura corporal, a excreção urinária, o alerta
subjetivo, o humor e o desempenho, produzindo valores máximos e mínimos quase sempre no mesmo horário, ao longo das 24 horas do dia. Esses mesmos autores afirmam que o trabalho no período noturno tem interferência nesses ritmos e sincronização, podendo causar prejuízos aos trabalhadores.
Nessa mesma direção, Régis e Sell (2000), afirmam que os seres humanos possuem uma ritmicidade natural para muitas funções corporais, dentre elas as fisiológicas, as psicológicas e as comportamentais. O trabalhador noturno, por inverter o ciclo sono- vigília, dormir durante o dia e trabalhar durante a noite, induz a uma dessincronização dos ritmos biológicos e cicardianos, tendo com isso, consequências em sua saúde. Por isso a importância de entender esses fenômenos e estudar essa classe de trabalhadores.
Segundo os autores supracitados, o organismo dos profissionais que trabalham a noite passa por uma fase de adaptação, ocorrendo algumas alterações orgânicas, seja na temperatura, nos hormônios, no psicológico, no comportamento ou no desempenho. Com isso, entende- se que o trabalho noturno pode ser um agente causador de desconforto e problemas de saúde, pois acarreta mudanças nos ritmos biológicos, alterando o padrão de sono e vigília. Percebe-se, desse modo, que não se pode exigir o mesmo nível de produtividade deste trabalhador nas 24 horas. As formas de organização do trabalho que não levam em conta a variabilidade do indivíduo conforme essas especificidades podem aumentar o risco de repercussões prejudiciais à saúde do mesmo.
Nesse contexto Costa, Morita e Martinez (2000), destacam que o trabalhador de Enfermagem, em geral, possui mais de um vínculo empregatício, algumas vezes, submetendo-se a jornadas excessivas e desgastantes, e em condições inadequadas, restando pouco tempo destinado ao lazer e repouso, fatores estes que devem ser considerados na análise da qualidade de vida desses profissionais.
Segundo os autores supracitados, o estilo de vida acaba sendo definido muitas vezes, pelas necessidades financeiras e manutenção de um padrão social, fazendo com que o trabalhador estabeleça para si um ritmo rigoroso de atividades envolvendo os vínculos empregatícios e a vida doméstica, desta forma, predispondo ao aparecimento do estresse. Soma-se a isso, o fato de trabalhar em situações adversas impostas pela profissão, onde há grande demanda de atividades variadas - em turnos diferentes – podendo afetar o desempenho físico, gerar distúrbios mentais, neurológicos, psiquiátricos e gastrintestinais. Com isso, torna- se muito importante estudar os trabalhadores de Enfermagem e,
contemplar todas essas especificidades no surgimento do estresse e suas correlações.