A rede de fast-food que estudamos não poupa esforços. Possui engenheiros agrônomos para garantir a reprodução de seus produtos, como também a reprodução dos animais que são abatidos para o preparo. A engenharia química de
alimentos também é responsável pelo enorme sucesso dos sabores das comidas da rede, pois um fato importante que devemos destacar é que alguns fornecedores não são específicos do McDonald’s, atendendo a outras redes de fast-foods. Um exemplo são as próprias batatas, as Russet Burbank, que são fornecidas a outros fast-foods, fritadas em fritadeiras semelhantes e, no entanto, o gosto McDonald’s ainda continua inconfundível. A que devemos atribuir esse paladar, cheiro e sabores inconfundíveis e únicos? Por trás de tantos sabores que atualmente experimentamos, de que nem nos damos conta, estão as denominadas indústrias de sabores.
Peguemos a própria rede McDonald’s e suas batatas fritas. Por um longo tempo, o gosto de suas batatas era diferenciado por serem fritas numa mistura composta por 7% de óleo de semente de algodão e 93% de sebo bovino, a qual dava às batatas McDonald’s seu gosto inconfundível. Saliente -se que os consumidores da Índia, um país onde a vaca é um animal sagrado, revoltaram-se com a descoberta do sebo na fritura das batatas. As críticas não se resumiram a esta, mas houve inúmeras tantas outras apontando a enorme quantidade de colesterol encontrada em seus produtos, o que levou a rede a buscar outra solução.
Em 1990 o fast-food anunciou que suas frituras passariam a ser feitas em óleo vegetal puro. Como, então, explicar a continuação do gosto inconfundível? A rede, na verdade, precisou reinventar aquele gostinho da batata frita, ou seja, o gosto foi recriado pela indústria do sabor – ironicamente , ainda hoje encontramos nas embalagens de alguns produtos McDonald’s, aqui mesmo no Brasil, o seguinte dizer: “sabor natural”. A fabricação dos gostos passa desapercebida por nós, ou seja, habituamo-nos aos sabores, pois já são feitos com esta intenção, mas, mais do que isto, a nova geração não tem acesso ao sabor verdadeiramente natural. Assim, ao beber, por exemplo, um iogurte de morango, acredita mesmo ser este o sabor de um verdadeiro morango, ou outra fruta qualquer que possa ser o sabor do produto, tanto que alguns , ao ingerirem a fruta verdadeira, chegam a estranhar o gosto. Assim:
Abra uma geladeira, um freezer, um armário de cozinha e dê uma espiada nos rótulos dos alimentos. Você vai encontrar “sabor natural” ou “sabor artificial” em praticamente todas as listas de ingredientes (...) ambas são aditivos fabricados que dão gosto a boa parte dos alimentos processados (...) a compra inicial pode estar relacionada à embalagem ou aparência exterior, mas as compras seguintes são
determinadas sobretudo pelo sabor. (SCHLOSSER, 2002, p. 157)
Podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que sem a indústria do sabor a indústria de fast-food – e aqui, em destaque, o McDonald’s – não conseguiria sobreviver por tanto tempo, nem muito menos se espalhar em nível global. Mesmo assim, suas propagandas nos fazem acreditar que todo o sabor e o aroma saem de suas cozinhas, nem de longe divulgando serem sabores químicos. E
o aroma de um alimento pode ser responsável por até 90% de seu sabor. Os cientistas acreditam que os seres humanos adquiriram paladar como forma de evitar o envenenamento. Plantas comestíveis em geral são adocicadas, as letais, amargas. O paladar então supostamente serviria para nos ajudar a diferenciar a comida que é boa para nós da que não é (...) na verdade, o sabor é primordialmente o aroma dos gases sendo liberados pelas substâncias químicas do que acabamos de pôr na boca (SCHOLOSSER, 2002, p. 157).
A partir do esclarecimento acima podemos crer que não só o sabor é importante, como também o aroma, que, na verdade, é o que produz o gosto.
As preferências alimentares de uma pessoa, assim como sua personalidade, se formam durante os primeiros anos de vida, através de um processo de socialização. Crianças pequenas podem aprender a gostar de comidas apimentadas e condimentadas, de comida saudável com pouco tempero ou mesmo de fast-food. (SCHLOSSER, 2002, p. 160)
Assim, podemos entender, na contemporaneidade, a chamada geração fast- food, que não envolve só o hábito alimentar, como também um estilo.
As primeiras indústrias de sabores de que se tem notícia surgiram no século XIX, para ajustar o gosto da comida que estava sendo produzida em grande quantidade, necessitando de aditivos para destacar o sabor. Inicialmente, as primeiras indústrias buscaram referência nas produtoras de perfumes; só mais tarde, já no século XX, os alemães iniciaram a indústria química de sabores. Em 1965 os Estados Unidos já haviam desenvolvido a técnica da indústria de sabores, passando a dominar o mercado até os dias atuais:
a indústria americana de aromatizantes tem atualmente um rendimento de cerca de US$ 1,4 bilhão. Cerca de 10 mil novos produtos alimentícios processados são introduzidos todos os anos no mercado (SCHLOSSER, 2002, p. 162).
Sendo os Estados Unidos os maiores responsáveis pela maioria dos sabores dos alimentos que consumimos, o McDonald’s logicamente está totalmente baseado nesta forma de produzir sabores e odores. Só o percebemos quando passamos em
frente a algum McDonald’s: o cheiro que sentimos é igual em todos. De acordo com algumas pessoas que entrevistamos, que haviam viajado para fora do Brasil, quando entram ou mesmo passam em frente a algum restaurante da rede espalhado por diferentes partes do mundo, o cheiro é igual e inconfundível. Para tirar a dúvida, cheguei a fazer a experiência com minhas filhas, tampando-lhes os olhos bem antes de chegarmos a alguns restaurantes da rede em momentos e lugares totalmente diferentes e lhes pedindo para dizerem, a partir do cheiro que sentiam, perto de onde estávamos. Na quase totalidade das vezes houve acerto: McDonald’s.
Assim, reafirmamos que a maioria dos sabores que provamos hoje tem origem nas indústrias de sabores. Se é assim, por que o discurso da rede de que seus produtos são naturais, que os hambúrgueres são suculentos? Ora, porque a carne é de boa qualidade e o preparo é feito dentro de determinados padrões, e os sabores são como são porque são produtos feitos de matéria-prima de primeira linha e com controle de qualidade desde a agricultura ou pecuária.
Pesquisamos algumas de suas matérias-primas, ou seja, os ingredientes utilizados pelo McDonald’s, desde o cultivo e criação, incluindo o transporte, até a chegada às lojas da rede, para ver o que nos dizem.