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A engenharia e a constituição do movimento do ‘works

3.2 O MOVIMENTO DOUTRINÁRIO DO MANAGEMENT

3.2.1 A engenharia e a constituição do movimento do ‘works

De acordo com POLLARD (1965), a função de gerência que caracteriza o Management surge no momento em que o controle dos trabalhadores envolvidos nas atividades produtivas exige um maior número de pessoas, tendo em conta que a especialização da gestão na atividade industrial se dava pela amplitude do comando, mas também devido a maior complexidade das atividades produtivas que emerge com a mecanização da manufatura, um processo tecnológico que, além de possibilitar uma maior racionalização das tarefas, teve por conseqüência um enorme aumento no volume produzido, em comparação com o modelo de produção artesanal.

É por isso que, a partir do advento do sistema fabril, a função do administrador vai deixando de configurar-se exclusivamente pela figura do capataz para gradualmente delinear-se como uma atividade mais sofisticada, que exige um conhecimento especializado. Apesar disto, POLLARD (1965) salienta em sua investigação sobre a gestão nas fábricas inglesas da Revolução Industrial que esta atividade se desenvolve de forma empírica, mais especificamente, à medida que os problemas práticos do controle e da operacionalização do sistema fabril vão exigindo novas concepções da função gerencial.

A função gerencial na empresa fabril inglesa do primeiro período da industrialização naquele país começa a se desenvolver enquanto atividade ad hoc para a solução dos problemas práticos de coordenação das funções operacionais, na medida que a atividade se tornava complexa pelo aumento no número de funcionários e pela sofisticação do maquinário e do processo produtivo. Assim, POLLARD (1965) considera que a administração fabril nestas indústrias estava restritamente focada na alocação eficiente de recursos internos para o processo manufatureiro, processo este que era determinado pelo empreendedor ou empreiteiro, cabendo a este último a responsabilidade pela gestão geral do empreendimento. Tendo em conta que os problemas ad hoc de gestão e organização se confundiam com as exigências técnicas específicas ao tipo de manufatura que a indústria se dedicava, era natural que o profissional que se responsabilizasse por esta nova atribuição (a organização e coordenação do

processo de trabalho) fosse o mesmo que era responsável pelo desenvolvimento do novo aparato tecnológico da empresa: o engenheiro.

Assim, o estudo de POLLARD (1965) sobre a Revolução Industrial inglesa revela que os primeiros esforços de sistematização de um conhecimento sobre a gestão eficiente do processo de trabalho na empresa moderna surgem dentro das escolas profissionais da Inglaterra do século dezoito, dentro dos currículos da formação técnica específica a cada campo de atuação33. Estas escolas, por sua vez, também têm sua origem associada à Revolução Industrial, tendo em conta que o ensino profissional naquele país e período se amplia drasticamente a partir da explosão econômica gerada pelos centros industriais e pela mercantilização do ensino: principalmente voltadas para a classe média e trabalhadora, as escolas profissionais eram financiadas pelos capitães da indústria inglesa. Ainda, estas escolas profissionais eram exploradas como um novo empreendimento capitalista, tendo em conta o potencial econômico deste novo nicho de consumo, ou seja, a procura das classes baixas pelo ensino profissionalizante, visado como uma oportunidade de ascensão social (POLLARD, 1965).

Contudo, é somente na segunda metade do século dezenove e em outra região que a questão da organização do trabalho se apresenta como um assunto de maior interesse para os técnicos da indústria. Assim, nos Estados Unidos, a classe de engenheiros começa a se organizar logo após o fim da Guerra Secessão para tratar de problemas práticos específicos referentes a organização do trabalho industrial naquele país, tendo em conta que este passava por um drástico crescimento industrial e tecnológico que não estava sendo acompanhado no mesmo ritmo pela questão da qualificação da mão de obra (JACQUES, 1996; JENKS, 1960).

Este descompasso gerou o problema denominado por questão do labor, termo utilizado em referência ao surgimento nos Estados Unidos da dicotomia capital-trabalho, dada a partir da intensificação da atividade industrial e com o fim da

33 É assim que POLLARD (1965) aponta que o currículo do curso de engenharia de metais

contemplava a matéria de organização da oficina mecânica, no curso de engenharia civil organização do trabalho no canteiro de obras, etc.

empresa agrícola escravocrata (JACQUES, 1996). Rapidamente o problema do labor foi socializado em instâncias coletivas de discussão, especialmente dentro das associações da classe de engenheiros que se formaram nos Estados Unidos naquele período.

No momento que a intensificação tecnológica eleva a importância do engenheiro dentro do processo fabril34, estas entidades de classe se destacam enquanto um núcleo para a interação e sistematização disciplinar. Assim, além de servir de arena para a discussão dos problemas tecnológicos específicos da indústria (problemas quanto ao maquinário, ao tipo de materiais, etc.), as associações de engenharia foram os primeiros locais para a conscientização coletiva dos problemas de gestão de recursos e processos, especialmente aqueles que ocorriam dentro da oficina fabril. Questões como o custeio de matéria-prima, o salário dos operários, o treinamento, o controle de estoques, eram alguns dos principais problemas enquadrados nesta matéria (JENKS, 1960).

Nos Estados Unidos de final do século dezenove, as associações de engenheiros foram patrocinadas por empreendedores de jornais especializados, que viam nesta medida uma importante oportunidade de negócio, tendo em vista os ganhos com uma publicidade direcionada 35 . Por outro lado, estes jornais

especializados também representaram importantes fóruns de discussão dos problemas de gestão das oficinas, como sugere o comentário de JENKS (1960, p. 431) sobre alguns destes veículos:

O primeiro entre outros a se tornar um veículo para a discussão foi o American Machinist (Nova York), um jornal semanal com um correspondente internacional, que, sob o comando de John A. Hill se tornou um dos mais destacados jornais comerciais no país. Um de seus editores, F. A. Halsey, inventou um amplo plano de incentivo. O jornal era um fórum ativo de calorosa controvérsia sobre sistemas de salários e matérias relacionadas, mas também se dava considerável

34 Especialmente com o uso de novas tecnologias para o aperfeiçoamento de equipamentos e

processos produtivos, onde se destacam inovações como o petróleo, a eletricidade e o aço, processos estes que remarcam o período que alguns historiadores denominam por Segunda Revolução Industrial (LANDES, 1994).

35 JENKS (1960) informa que a publicidade direcionada aos engenheiros dos setores industriais

era referente a produtos nos quais a opinião dos engenheiros era relevante para a compra, tais como maquinário e outros equipamentos da manufatura.

atenção a outras mudanças nas oficinas mecânicas. O principal jornal britânico semanal Engineering, publicou longas séries de artigos sobre salários e sistemas de custo de forma tão competente quanto os simpósios sobre os métodos americanos de trabalho em oficinas. O autor lista ainda uma série de outros jornais ingleses e norte-americanos da área de engenharia que participaram ativamente da disseminação das novas idéias do movimento works management36. Nos Estados Unidos, um dos mais importantes

fóruns foi o periódico da Associação Americana dos Engenheiros Mecânicos (ASME)37, o Transations, principal veículo de divulgação e debate utilizado pelos principais líderes do movimento, dentre eles Henry Gantt, Frank Gilbreth, Harrington Emerson e Frederick Wislow Taylor38. Foi neste periódico que, na década de 1890, Taylor se inseriu vigorosamente na causa do movimento, e apresentou sua concepção sobre as principais questões dos problemas da gestão de oficinas, como por exemplo, a questão dos salários (WREGE e GREENWOOD, 1991). A partir das discussões deste grupo em particular é que começa a surgir a idéia de que o saber sobre a organização e gestão da empresa fabril deveria corresponder a um campo exclusivo de formação, denominado por engenharia industrial.

Para se diferenciar do movimento original do works management39, Taylor

utilizou a partir da década de 1900 a denominação Scientific Management. Esta nova doutrina foi elaborada por Taylor com a colaboração de um grupo restrito e respeitado de engenheiros e outros profissionais, e nada mais era do que uma poderosa síntese dos principais pontos debatidos no movimento do works

36 Dos jornais ingleses, JENKS (1960) cita o The Engineer e o Practical Engineer. Os outros

jornais norte-americanos citados pelo autor são o Iron Trade Review, Iron Age, Street Railway Journal, Railway Master Mechanic, Machinery, The Engineer (homônimo do jornal inglês publicado em Cleveland), Foundry, Cassier’s Magazine e o jornal de circulação nos Estados Unidos e na Europa Engineering Magazine.

37 A sigla se refere à nomenclatura em inglês, American Society of Mechanical Engineers.

38 Em seus últimos anos de vida, Taylor se tornou presidente da ASME, fato este considerado

importante para a disseminação do taylorismo nos Estados Unidos (WREGE e GREENWOOD, 1991).

39 Solução buscada por Taylor tendo em conta a resistência de muitos dos membros deste

movimento às suas idéias, que viam como polêmica e radical a proposição de que se constituísse uma nova especialidade profissional. É por essa resistência que se observou ter sido a sistematização da gestão fabril na Europa desenvolvida de forma heterogênea e em diferentes esforços nem sempre integrados (MCKINLAY e ZEITLIN, 1989).

management, pontos estes que já haviam sido assimilados por uma audiência interessada40.

O sucesso da doutrina de Taylor foi tão grande que é a ele que se costuma atribuir grande parte dos princípios que, na verdade, haviam sido desenvolvidos dentro do movimento anterior que ele participou (JENKS, 1960). Por outro lado, é preciso admitir que o taylorismo foi o movimento doutrinário responsável pela rápida adoção da administração sistemática nos Estados Unidos e em outras partes do mundo, e que foi dentro deste movimento que surgem duas importantes forças para a consolidação do Management, o setor de consultoria em gestão (KIPPING, 2002) e figura do administrador profissional41 com formação exclusiva, um fato marcante para a consolidação do Management42. Tratemos agora deste movimento.