Capítulo 1 | O tema racial e os estudos psicológicos
2.2. A Era Vargas e a eugenia constitucionalizada
A Primeira República, como mantenedora das grandes desigualdades sociais que afligiam principalmente a população negra, indígena e feminina, foi permeada de revoltas como reação necessária à miséria, fome e doenças. É a época dos movimentos sociais de caráter messiânico, lideradas por religiosos críticos à República, como em Canudos, no sertão baiano, massacrado pelas tropas de coronéis locais e pelo exército do governo federal. Outros movimentos e revoltas aplacavam o interior do Brasil e as principais capitais brasileiras, como a Guerra do Contestado, a Revolta da Vacina, a Revolta da Chibata, entre outros, além da formação de grupos armados, como no Cangaço.
Culminando no movimento denominado Tenentismo, a insatisfação de jovens oficiais das forças armadas com o tradicional sistema oligárquico envolveu grande parte das classes médias urbanas, dos produtores rurais que não estavam no poder e certos empresários da indústria na luta pela hegemonia. A Revolta do Forte de Copacabana, em 1922, as Revoltas de 1924, a Coluna Prestes, de 1924 a 1926, não produziram mudanças imediatas na estrutura política brasileira, mas marcaram um espaço de revolta contra o governo. Em agonia pela
crise do café e do capitalismo no final da década de 1920, a Primeira República viu a
desestruturação de suas bases políticas e o crescimento da Aliança Liberal, que lançou o nome de Getúlio Vargas para presidente da República e João Pessoa para vice. Ao lado desse
movimento dos renovadores, das facções burguesas não vinculadas ao café, e certos políticos tradicionais, das classes médias urbanas e dos militares ligados ao tenentismo, ganhavam força os movimentos sociais negros, operários, camponeses e feministas, com suas
reivindicações específicas. A derrota da Aliança Liberal nas eleições e a consequente vitória da oligarquia paulista, com Júlio Prestes “eleito” (em época de eleições fraudulentas e quase
nenhuma participação popular) para presidente, acirraram o clima de tensão desses movimentos; para assumir o comando do processo político, as elites da Aliança Liberal depuseram Washington Luís antes do fim do mandato e entregaram a Getúlio Vargas o poder. Instaurou-se, com a chamada Revolução de 1930, o período getulista.
Entre as primeiras medidas de Vargas esteve a suspensão da Constituição de 1891. Um novo Código Eleitoral em 1932 passa a permitir o direito ao voto e à elegibilidade de
mulheres funcionárias públicas com atividade remunerada. Carlota Pereira de Queiroz foi a primeira mulher eleita para uma Assembleia Constituinte, participando da elaboração da Constituição de 1934 (Teles, 1993).
A nova Constituição teve por principal influência a Constituição alemã de Weimar de 1919, e ainda a da Espanha (1919) e da Áustria (1920) (Cerqueira, 1993). A concepção de intervenção do Estado na economia substitui a política liberal radical do modelo anterior, como na implantação do new deal dos Estados Unidos e o planejamento dos países socialistas (Pinho, 2002), tendo, contudo, também fonte direta no corporativismo fascista e na
constituição anterior de 1891, adotando, particularmente, um novo sistema de reforma constitucional (Cerqueira, 1993).
O Título referente aos direitos fundamentais é nomeado Declaração de Direitos, abrangendo os direitos políticos e civis. Os direitos econômicos, sociais e culturais seguem-se nos próximos títulos (Da Ordem Econômica e Social e Da Família, da Educação e da
Cultura), numa progressão do reconhecimento jurídico e teórico aos direitos humanos em forte discussão na sociedade internacional da época.
Avança-se quanto aos direitos políticos com a extensão do direito de voto às mulheres (art. 108), mas ainda apenas aquelas que exercessem função pública remunerada (art.109), o que ainda restringia sua participação política, em especial das mulheres negras, que pouco ocupavam tais funções públicas, estando a maioria nos trabalhos domésticos (Gonçalves & Silva, 2000; Santos, H.,2003); mantinha-se a exclusão dos mendigos e analfabetos aos direitos políticos.
O direito à igualdade formal, pela primeira vez no Brasil, é situado em relação às raças, explicitado no artigo 113, 1: “Todos são iguaes perante a lei. Não haverá privilégios,
nem distincções, por motivo de nascimento, sexo, raça, profissões próprias ou dos paes, classe social, riqueza, crenças religiosas ou ideas políticas”. Ou seja, a Constituição de 1934 é a
primeira a referenciar a questão racial, de gênero e classe no Brasil, decorrente do
fortalecimento dos movimentos sociais nesses campos. Mas, se por um lado anunciava uma suposta igualdade racial, por outro formalizava textualmente a teoria do embranquecimento através do processo de eugenia:
Art. 121. A lei promoverá o amparo da produção e estabelecerá as condições do trabalho, na cidade e nos campos, tendo em vista a proteção social do trabalhador e os interesses econômicos do paiz.
§6º A entrada de imigrantes no território nacional soffrerá as restricções necessárias á garantia da integração ethnica e capacidade physica e civil do immigrante (...).
(...) Omissis
Art. 138. Incumbe á União, aos Estados e aos Municípios, nos termos das leis respectivas:
a) (...) Omissis;
b) Estimular a educação eugênica (...)
A disposição referente à entrada de imigrantes trazia, implícita, mas inegavelmente, as restrições quanto aos africanos, semitas e asiáticos, de acordo com as propostas anteriores vindas desde a década de 1920. Nei Lopes (1988) relata a discussão legislativa a respeito. Em 1921, os deputados Andrade Bezerra e Cincinato Braga apresentaram tal proposta, referindo- se à proibição “...de colonos da raça preta no Brasil e, quanto ao amarelo, será ela permitida, anualmente, em número correspondente a 5% dos indivíduos existentes no país”. O projeto encontrava apoio em Oliveira Vianna, que assim se justificava: “Também sou contra a
imigração de quaisquer outras raças que não as raças brancas da Europa (...) teria sido infinitamente melhor que eles [os negros] não se tivessem constituído num dos grandes fatores da formação da nossa nacionalidade” (apud Lopes, 1988, pp. 182-183). A proposta
encontrou continuidade em 1933, já na Constituinte, pretendendo determinar a proibição da entrada no país de pessoas negras e orientais.
O processo de legitimação institucional da eugenia é acentuado na Era Vargas. Em 1935, o Congresso aprovou modificações na lei de segurança nacional, de inspiração fascista, e outras emendas que conferiam poderes ditatoriais ao presidente da República. A
Constituição de 1934, com sua extensa declaração de direitos e a enunciação, mesmo contraditória aos dispositivos seguintes, do princípio da igualdade racial, durou apenas três anos, sendo substituída pela Constituição de 1937, imposta por Getúlio Vargas na instauração do Estado Novo (Duarte, 2004).
Conhecida como Polaca, por sua semelhança à constituição polonesa, a carta
constitucional de 1937 reduziu os direitos antes ampliados, inclusive perdendo a referência da igualdade racial e de gênero que havia na de 1934.