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1 A ORIGEM DA ORGANIZAÇÃO DOS TRABALHADORES NO BRASIL

1.2 A “Era Vargas” e o movimento operário: 1930-

O momento que se descortina após a crise vivenciada pelo capitalismo mundial em 1929 representa um novo processo econômico no Brasil. Nesse período, eram gestadas as condições para o avanço da industrialização no Brasil. Nesse sentido, já nos primórdios da chamada “era Vargas”, a ação do Estado era pautada pelo dirigismo estatal, cujo objetivo era, em última instância, a reorganização da ordem burguesa. Na verdade, antes mesmo da implantação do Estado Novo, o governo Vargas adotava o dirigismo estatal, interferindo cada vez mais na esfera econômica como forma de responder às questões colocadas pela nova realidade do mercado externo e interno. Nesse contexto, através de uma série de manifestações concretas, a burguesia empresarial delegava ao Estado as tarefas básicas que expressavam a consolidação de seus interesses político-econômicos.

Estamos atravessando um período em que a economia dirigida vem sendo vitoriosamente adotada como a maneira mais prática e mais eficiente de serem

atendidos os interesses econômicos, que não podem e devem ficar sujeitos às vicissitudes e percalços de situações possivelmente graves, afetando de forma indesejável os verdadeiros e superiores interesses do país. (Circular da FIESP n.º 810, de 9 de março de 1937 apud BARROS E FARIA, p. 173)

Como se percebe, a utilização de expressões como “os verdadeiros e superiores interesses do país” constituem-se em ardil que oculta os interesses de classe. Na verdade, a ação do Estado, nesse momento, corresponde à efetiva materialização da força burguesa em seu interior. Por outro lado, a criação do Ministério do Trabalho e a Lei de Sindicalização (1931), quanto ao processo jurídico e político de construção de uma legislação sindical e trabalhista que culminaria na Consolidação das Leis do Trabalho em 1943, são elementos constituintes de uma cadeia que expressa, em seu conjunto, as teias de dominação sobre os trabalhadores. Nesse sentido, o reconhecimento dos trabalhadores como categoria política não surgiu no abstrato, nem foi produto de uma engenharia política do Governo Vargas. Portanto, não se tratava apenas de controlar o “mercado”, mas também as “classes subalternas”.

Na verdade, a crise do Estado oligárquico nos anos 20 potencializou os conflitos de classe. De um lado, o movimento operário procurava reaglutinar suas forças, baseado nas experiências acumuladas pelas lutas travadas no período anterior. De outro lado, para as classes dominantes em luta interna pela hegemonia sobre o aparelho de Estado, tratava-se de preservar seus interesses a qualquer custo, ou seja, impedir a livre organização dos trabalhadores.

As classes populares sempre foram percebidas como “problema” pelos setores dominantes. A transferência gradativa da resolução dos conflitos produzidos pelas relações Capital-Trabalho, da esfera policial (e dos embates diretos patrão-empregado) para o campo do direito social constitui o primeiro passo na tentativa de ampliar o controle e o disciplinamento jurídico das relações sociais e de trabalho. Esse tipo de controle caminha na direção, de se produzir um novo conceito de “cidadania”, trabalho que fortemente articulado à política e às reformas educacionais do período pós-1930. Este novo conceito pode ser chamado de “cidadania regulada pela estratificação ocupacional do trabalho”, que passa a ocupar o lugar da “cidadania abstrata” pautada no liberalismo clássico. (NORONHA, 2004, p. 15-16)

Não é por acaso, portanto, a promulgação de um conjunto de leis sociais promulgadas a partir de 1930 pelo Estado24. As “concessões” tinham como finalidade controlar a organização do mercado da força de trabalho, o que possibilitaria incrementar os mecanismos de acumulação do capital. Em outras palavras, partia-se do pressuposto de que a intervenção direta do poder público era peça fundamental para amortecer os conflitos entre capital e trabalho presentes no mundo

24 O período inaugurado com a Revolução de 1930 representou uma nova fase do ponto de vista das relações do Estado com o proletariado, pelo surgimento de um caráter paternalista e corporativo diante dele e pela criação de órgãos institucionais de mediação e controle dos conflitos de classe.

moderno. No entanto, dialeticamente, tal legislação significava não apenas uma “concessão” do Estado, mas os efeitos do conjunto das lutas travadas pelo proletariado nos anos anteriores.

Os instrumentos utilizados para garantir a subordinação dos trabalhadores foram a repressão aos seus setores mais combativos e a intensificação da linha de aproximação paternalista junto às camadas populares em geral. Assim sendo, o mito da “doação” dos direitos sociais como obra da “generosidade” de Vargas cumpriu, entre outros, o papel de amortecedor da luta de classes, ou ainda, de conciliação entre o capital e o trabalho. Dito de outra forma, significou a tentativa de apagar da memória política dos trabalhadores as lutas, que desde o alvorecer da República, vinham sendo travadas pelo reconhecimento de seus direitos, lutas essas que deixaram marcas profundas na ação do proletariado urbano ao longo da chamada República Velha.

Sem ignorar a mistificação ideológica a que foram submetidos os trabalhadores, nosso entendimento é de que isso só foi possível devido ao atendimento de certas aspirações e interesses das camadas populares, mais precisamente, através da progressiva implantação da legislação trabalhista. A partir daí é que se pode compreender a realidade dialética: ela surge no interior da própria dominação burguesa que se constituía a partir do Estado que se configurava na chamada “Era Vargas”, os elementos de sua própria negação. Sob esse aspecto, dominação e contra-dominação convivem, inter-relacionadas, mesmo que com pesos diferenciados. Exatamente por não haver predomínio incondicional, abre-se caminho para a gestação de novos horizontes históricos. E foi sobre essa base real – a legislação trabalhista e a recepção parcial de certos interesses das classes dominadas – que se lançou a mistificação da realidade via ideologia do trabalhismo.

A conjuntura do período é, sob este aspecto, bastante sugestiva. Apesar da ofensiva do Estado em direção ao enquadramento do proletariado nos moldes do sindicalismo oficial, a rebeldia surgia no cotidiano dos trabalhadores em oposição, por exemplo, à Lei de Sindicalização de 1931. Porém, foi a luta contra o integralismo e suas aproximações com o Estado surgido em 1930 que congregou diferentes tendências do movimento operário, em um momento de reformulação do modelo econômico, sem no entanto, alterar as relações de dependência com o capital estrangeiro. Posto nesses termos, as considerações de Carlos Nelson Coutinho sobre o tema são pertinentes:

Não seria difícil documentar também nas principais transformações “pelo alto” que ocorreram no Brasil a presença dos dois movimentos apontados por Gramsci: como

reações a movimentos populares, reais ou potenciais, as classes dominantes emprenharam-se em “restaurações” que, em última instância, produziram importantes modificações na composição das classes e prepararam caminho para novas transformações reais. Irei me deter aqui num único exemplo, que me parece bastante emblemático: a instauração da ditadura Vargas em 1937, culminação do agitado período que se inicia em 1922, ano da fundação do PCB e da primeira revolta militar tententista. Naquele período, o movimento operário lutava pela conquista de direitos políticos e socais, enquanto as camadas médias urbanas emergentes exigiam maior participação política nos aparelhos de poder. Essas pressões “de baixo” (que não raramente assumiam a forma de um “subversivismo esporádico, elementar, desorganizado”) fizeram com que um setor da oligarquia agrária dominante, o setor mais ligado à produção para o mercado interno, se colocasse à frente da chamada Revolução de 1930. O triunfo dessa Revolução levou à formação de um novo bloco de poder, no qual a fração oligárquica ligada à agricultura de exportação foi colocada numa posição subalterna, ao mesmo tempo em que se buscava cooptar a ala moderada da liderança político-militar das camadas médias (os tententes). Mas o caráter elitista desse novo bloco de poder fazia com que os setores populares permanecessem marginalizados. Eles ainda não estavam suficientemente organizados; eram, representados pelo débil Partido Comunista e por um pequeno grupo de tenentes de esquerda, entre os quais Prestes, que haviam se recusado a participar da Revolução de 1930. Nessas condições, o resultado do protesto contra o caráter elitista da Revolução mais evidente foi o putsh de 1935, uma desastrosa iniciativa comum dos comunistas e dos tenentes de esquerda.

Reprimido com extrema facilidade pelo governo, esse putsh será o principal pretexto para a instauração da ditadura de Vargas. Contudo, apesar de seu caráter repressivo e de sua cobertura ideológica de tipo fascista, o “Estado Novo” varguista promoveu uma acelerada industrialização do País, com o apoio da fração industrial da burguesia e da camada militar; além disso, promulgou um conjunto de leis de proteção ao trabalho, há muito reivindicadas pelo proletariado (salário mínimo, férias pagas, direito de aposentadoria, etc.), ainda que ao preço de impor uma legislação sindical corporativista, copiada diretamente da Carta Del Lavoro de Mussolini, que vinculava os sindicatos ao aparelho estatal e anulava sua autonomia. Portanto, a ditadura de Vargas pode ser definida, gramscianamente, como uma “revolução passiva” ou uma “restauração progressita”.(COUTINHO, 1999, p. 199- 200) (o grifo é meu)

Em síntese, à medida que se desenvolvem a industrialização e as transformações nas relações de classe, potencializam-se os conflitos de classe. O surgimento da Ação Integralista Brasileira (AIB)25, em 1932, que foi precedida por outros movimentos de caráter autoritário na década anterior, e da Aliança Nacional Libertadora (ANL), em 1935, não podem e nem devem ser encarados como fatos isolados. Antes pelo contrário, os surgimentos dessas agremiações somente podem ser apreendidos na medida em que considerarmos as modificações por que passou a sociedade brasileira naquela conjuntura histórica, marcada pela crise de hegemonia do setor agrário-exportador, centralização do poder e ampliação da margem de manobra do Estado que representava os interesses emergentes da burguesia industrial.

25 As bandeiras do integralismo expressavam a incoerência ideológica das camadas médias urbanas. Embora fosse “contrário ao capitalismo internacional”, em nenhum momento questionou a propriedade privada dos meios de produção. Apesar de levantar a bandeira do nacionalismo, inspirou-se no fascismo italiano, misturando autoritarismo, catolicismo e nacionalismo.

Sem a pretensão de nos determos aqui na análise da AIB e na ANL, vale a pena lembrar, por alto, alguns traços gerais das instituições que surgiram naquele período. De um lado, as origens do “fascismo tupiniquim” devem ser buscadas nas transformações ocorridas na sociedade brasileira ao longo da República Velha. A mudança do regime político, de Monarquia a República, não transformou profundamente o panorama social a ponto de alterar a relação das classes dominadas com as dominantes, e das relações de submissão do país ao capital estrangeiro. No âmbito da atividade política e cultural, os anos 20 indicavam claramente movimentos de afirmação nacional, como demonstraram a Semana de Arte Moderna e o Movimento Tenentista a partir de 1922. Além dos movimentos citados, é possível detectar com clareza o processo de desintegração da ordem oligárquica nos padrões de dominação estabelecidos.

É justamente nesse ambiente, marcado pelo questionamento da ordem política e social que verificamos o surgimento dos ideais autoritários e antiliberais, inspirados na experiência fascista italiana, que estariam presentes no movimento integralista dos anos 30. No entanto, ao contrário do que ocorreu na Alemanha e Itália, o movimento não contou com o apoio de uma forte burguesia nacional, já que seus militantes e intelectuais pertenciam, fundamentalmente, às chamadas camadas médias, ou ainda, aos grupos de famílias das oligarquias, mas sem acesso aos cargos de maior prestígio econômico e político.

O movimento, desde seu nascimento, teve uma característica fundamental que o acompanhou até o fim: a estreita relação com a repressão de Estado26. Segundo os princípios defendidos pela AIB, a direção do “Estado integral” caberia às “elites esclarecidas”, com objetivo principal de extinguir os conflitos de classe. No Manifesto de Outubro, “a certidão de nascimento do Integralismo”, a defesa da “harmonia” entre as classes e do princípio de autoridade constituem-se em pontos fundamentais.

De outro lado, o ano de 1935 foi emblemático em nossa história. Pela primeira vez os comunistas brasileiros tentaram conquistar o poder pela força das armas. A difusão do Integralismo, o agravamento da situação econômica dos trabalhadores e as tendências autoritárias presentes no Governo Vargas tiveram como um dos reflexos a união de setores de oposição. Portanto, a situação política do país era extremamente tensa no início de 1935. Foi dentro desse ambiente marcado pela polarização que a Aliança Nacional Libertadora começou a ser

26 Os Integralistas conquistaram certo prestígio por constituírem-se como delatores e pela perseguição aos comunistas, fato que lhes valeu muito apoio dos setores conservadores da sociedade.

organizada. A primeira notícia pública de sua existência ocorreu em 17 de janeiro de 1935, quando a organização foi mencionada por Gilberto Gabeira, em discurso na Câmara Federal. Porém sua história remonta ao segundo semestre de 1934. Nesse período, diferentes setores da vida social, ainda que de forma diferenciada, encontravam-se sob a bandeira do antifascismo: ex- tenentes, lideranças sindicais, liberais excluídos da máquina de governo, socialistas e comunistas buscaram entendimento através de alguns pontos em comum. Assim sendo, a ANL não se definia como um partido político, mas como uma frente popular à semelhança das frentes antifascistas e antiimperialistas formadas na Europa. No Manifesto de Luís Carlos Prestes lê-se27:

Para a Aliança Nacional Libertadora precisam vir todas as pessoas, grupos, correntes, organizações e mesmo partidos políticos, quaisquer que sejam os seus programas, sob a única condição de que queiram lutar contra a implantação do fascismo no Brasil, contra o imperialismo e o feudalismo, pelos direitos democráticos. E a todas as pessoas e correntes, que queiram, por quaisquer motivos, restringir essa frente única nacional revolucionária, devemos opor a vontade férrea de sua realização. Todas as pessoas, grupos, associações e partidos políticos, que participaram da Aliança devem impedir, com todas as forças, aquelas tentativas, denunciando os culpados, implacavelmente, como traidores do Brasil e do seu povo.

(PRESTES apud Carone, 1978, p. 435)

Nesses termos, a participação de diferentes correntes políticas demonstra o caráter frentista da ANL, o que lhe deu a condição necessária para o crescimento surpreendente. Em pouco tempo, milhares de núcleos aliancistas espalham-se por todo o país, com base em uma orientação de luta que tinha três temas centrais: o combate ao imperialismo, ao latifúndio e ao fascismo28. À medida que a ANL crescia, aumentava a tensão política no país, com freqüentes conflitos de rua entre comunistas e integralistas.

Em abril de 1935, sob o impacto de várias greves, o Congresso aprovou a Lei de Segurança Nacional e a ANL foi colocada na ilegalidade em 11 de julho, quatro meses após sua fundação. O fechamento da organização pelo Governo recebeu amplo apoio do Parlamento, dos Integralistas e dos demais setores conservadores da sociedade.

A ANL entusiasmou imensos setores da população. Nos meses de abril, maio e junho de 1935, ou se era aliancista ou se era integralista, e mesmo que isso não significasse

27 Conhecido como Manifesto Luis Carlos Prestes, esse documento foi lido na última manifestação da ANL em 5 de julho de 1935 e utilizado pelo Governo Vargas como pretexto para dissolver a organização.

28 Em seu programa básico, apresentado sinteticamente em cinco itens, os aliancistas indicavam: a) suspensão definitiva do pagamento das dívidas imperialistas do Brasil; b) nacionalização imediata de todas as empresas imperialistas; c) proteção aos pequenos e médios proprietários e lavradores, assim como a entrega das terras dos grandes proprietários aos camponeses; d) garantias das mais amplas liberdades populares; e) constituição de um governo popular.

efetiva adesão à aliança ou à AIB, as simpatias nacionais estavam divididas e radicalizadas. (VIANNA, 2003, p. 38)

Após o fim da legalidade, as facções de esquerda da ANL, nas quais predominavam os comunistas, deliberaram organizar um levante insurrecional sob a direção de Prestes e de dirigentes comunistas estrangeiros. O fracasso da insurreição – conhecido como Intentona Comunista – ofereceu ao Governo o pretexto para desencadear a repressão às forças populares, com a decretação de medidas de exceção, abrindo caminho para a Ditadura do Estado Novo com a aprovação explícita dos setores economicamente hegemônicos. Dessa forma, o Golpe de 1937 foi a resposta do Estado, legítimo intérprete dos interesses burgueses, contra o “perigo comunista”.

1.2.1 A ANL e a luta pelo ensino popular: um projeto abortado

“O governo popular vai abrir para a juventude brasileira as perspectivas de uma nova vida garantindo-lhe trabalho, saúde e instrução.”29

Embora não fosse a prioridade imediata, a luta pela educação popular esteve presente nas fileiras da ANL. Segundo Ghiraldelli, as preocupações aliancistas com a educação expressavam-se em dois pontos: a elevação cultural das massas através da proposição de medidas quantitativas em relação ao ensino obrigatório; em segundo, a valorização da cultura no interior das camadas populares, e para isso a própria Aliança colaborou com entidades de promoção da cultura como o Clube de Cultura Moderna. (2001, p. 46)

As propostas presentes no meio operário foram, no entanto, silenciadas. No âmbito educacional, as ações do Governo Vargas orientaram-se sob os mesmos princípios táticos de sua política trabalhista. Em outras palavras, a política educacional do Estado Novo fez parte de uma estratégia mais ampla de integração das massas “pelo alto”.

Como nenhuma dominação ideológica é incondicional e irrestrita, conclui-se que não há um perfeito instrumento de dominação que imponha à consciência dos trabalhadores o conteúdo das camadas dominantes. Assim, por mais “eficiente” que tenha sido o mito da “doação”, ela não foi inteiramente assimilada por todos os segmentos dos trabalhadores. Na realidade ela sofreu resistências: as greves, os movimentos populares e a reivindicação pelo acesso à escola são

exemplos de que a assimilação da ideologia burguesa pelos segmentos populares sofreu redefinições justamente porque existem, no mínimo, obstáculos ao domínio total.