A International Ergonomics Association (IEA, 2018), descreve ergonomia (ou fatores humanos) como sendo a disciplina científica preocupada com a compreensão das interações entre o ser humano e outros elementos de um sistema, e é a profissão que aplica a teoria, princípios, informação e métodos de design de forma a otimizar o bem estar das pessoas e o desempenho global dos sistemas. Pheasant (2003) diz que ergonomia é a ciência do trabalho, das pessoas que o executam, das formas que é executado, das ferramentas e equipamentos utilizados, dos locais onde é executado e dos aspetos psicossociais do contexto do trabalho.
Antropometria é um importante ramo da ergonomia e das ciências sociais que lida com as medições do corpo, nomeadamente o tamanho do corpo, a forma, a força e a capacidade de trabalho, e de acordo com Pheasant (2003), num documento da Ergonomics Society, para reconhecer um produto ergonomicamente desenvolvido é necessário experimentá-lo, pensar em todas as formas em que poderemos utilizá-lo e perceber se dá resposta a várias questões relacionadas com dimensões, utilização, conforto, manutenção, flexibilidade, adaptabilidade, entre outros. Para isso, é fulcral perceber o produto, qual a sua utilização, quais as necessidades dos potenciais utilizadores, e recolher medições não só do corpo humano, mas também dos movimentos executados nos momentos de utilização do produto. Com este levantamento de dados observáveis e mensuráveis é possível perceber os constrangimentos ergonómicos e antropométricos, que terão consequências no desenvolvimento de produto (Pheasant, 2003). Pheasant (2003) categoriza três tipos de informação a partir dos quais é possível otimizar as decisões do produto:
a) As características antropométricas dos utilizadores;
b) As formas em que estas características poderão impor constrangimentos no design; c) Os critérios que vão definir uma combinação efetiva entre o produto e o utilizador;
Nos últimos 60 anos a ergonomia tem evoluído como uma disciplina independente que se foca na natureza das interações entre ser humano e objetos a partir de uma perspetiva partilhada entre ciência, engenharia, design, tecnologia e gestão (figura 6) (Salvendy, 2012).
Figura 6 - Dimensões da ergonomia. Adaptado de Salvendy (2012).
Já a antropometria relaciona-se diretamente com a estatística, na medida em que as dimensões das pessoas variam de forma considerável. A ergonomia trabalha estas dimensões em contexto de trabalho com
Dimensões da Ergonomia Filosofia (necessidades sociais) Teoria Ensino e educação Gestão Design Tecnologia / ambiente
o objetivo de alcançar produtos e espaços ajustados às necessidades do máximo de pessoas possível (Littlefield, 2008).
No que se relaciona ao design, a abordagem da ergonomia pode ser definida pelo princípio do design centrado no utilizador, na medida em que se um objeto, um sistema ou um ambiente é projetado para ser utilizado pelas pessoas. Nesta situação o design e desenvolvimento dos produtos deve ser baseado nas características físicas e mentais de forma a alcançar a melhor relação entre o produto e os seus utilizadores no contexto de execução das respetivas tarefas (figura 7) (Pheasant, 2003).
Figura 7 - Ergonomia na perspetiva do design centrado no utilizador. Adaptado de Pheasant (2003).
Pheasant (2003) caracteriza ainda o design centrado no utilizador através dos seguintes atributos: a) Empírico: o processo de design baseia-se nas informações sobre características físicas e mentais
obtidas através da observação dos comportamentos e dos relatos das experiências, colocando em segundo plano as teorias convencionais que podem servir de base para os estudos empíricos. b) Iterativo: processo cíclico onde após os estudos empíricos se dá seguimento a uma fase de design
para se procurarem soluções que possam ser avaliadas empiricamente.
c) Participativo: onde se procura incluir o utilizador final como participante ativo do processo de design.
d) Pró-ativo: tem como objetivo adaptar o produto ao utilizador e não o contrário.
e) Consideração pela diversidade humana, tentando corresponder os produtos ao máximo número de utilizadores possível.
f) Considera as tarefas dos utilizadores, preocupando-se em contribuir para a utilização do produto em contexto de execução das tarefas.
g) Orientação a sistemas: reconhece que a interação produto-utilizador acontece em contexto de sistema sociotécnico, que por sua vez opera dentro de um sistema económico, político, ecossistemas ambientais, entre outros.
h) Pragmático: reconhece os constrangimentos e particularidades que podem existir durante todo o processo de design e desenvolvimento.
O desenvolvimento de produtos orientados a espaços de trabalho está devidamente regulamentado em diversos standards ISO, de forma a uniformizar os aspetos que mais influenciam o bem-estar dos utilizadores assim como o melhor desempenho dos produtos. O ISO 9241-303 e ISO 9241-5 representam os princípios ergonómicos orientados a escritórios pelas diretivas de avaliação da conformidade dos espaços de trabalho em relação aos trabalhadores, embora não incluam as dimensões especificas, pois estas variam largamente nos diversos países (BIFMA, 2013).
Utilizador
Tarefa Produto
Um dos principais requisitos abordados no guia BIFMA G1-2013 (BIFMA, 2013) é o conceito de adequação descrito no ISO 9241-5 que defende que a seleção e design de mobiliário e equipamentos devem considerar a adequação dos objetos às tarefas a executar, às necessidades dos utilizadores e à acomodação individual dos utilizadores de acordo com as suas necessidades.
No que se relaciona com o presente projeto, é importante compreender as necessidades ergonómicas e antropométricas dos assentos. Pheasant (2003) afirma que todos os assentos acabam por se tornar desconfortáveis quanto maior for o tempo de utilização, no entanto é possível ter um maior ou menor tempo de conforto durante a utilização dependendo da combinação das características dos assentos, das características dos utilizadores e das características das tarefas (tabela 4).
Características dos assentos Características dos utilizadores Características das tarefas Dimensões Dimensões do corpo Duração
Ângulos Dores ou limitações físicas Necessidades visuais Perfil do assento Circulação Necessidades físicas Estofo Estado mental Necessidades mentais
Postura
Tabela 4 - Determinantes do conforto dos assentos. Adaptado de Pheasant (2003)
Segundo a BIFMA (2013), suportando-se no ISO 9241-5 e atendendo às diversas posturas (figura 8) deve-se considerar para uma cadeira de trabalho as seguintes características (figura 9):
Figura 8 - Posturas usuais. Adaptado de BIFMA (2013).
a) A altura do assento, que se deve adequar à altura do poplíteo (altura desde a parte traseira do joelho até ao chão) mais a altura do calçado, e é importante para o posicionamento do corpo em relação à superfície de trabalho, assim como para assegurar o conforto dos membros inferiores. As recomendações indicam que a altura deve ter entre 376mm e 512mm;
b) A profundidade do assento que deve ser adequada ao comprimento entre a nádega e o poplíteo de forma a suportar as coxas e permitir que o utilizador se sente para trás sem criar pressão sobre as costas dos joelhos. As recomendações indicam que a profundidade do assento não deve ser superior a 415mm, e acomodar o 5º percentil feminino;
Figura 9 - Características antropométricas a considerar (Panero & Zelnik, 2016).
c) A largura do assento, que deve ser superior à dimensão da parte mais larga do quadril e deve permitir aos utilizadores uma distribuição de pressão confortável em todo o assento e permitir que ajustem facilmente a sua postura. As recomendações indicam que a largura deve ter pelo menos 489mm, para acomodar o 90º percentil feminino e o 95º percentil masculino;
d) O ângulo do assento, que deve proporcionar conforto nas variadas posturas. As práticas industriais sugerem que o assento deve ter entre 0º e 4º na parte traseira do assento;
e) A altura do encosto, que deve proporcionar um suporte adequado às costas dos utilizadores nas diversas posturas e uma curvatura aceitável para a coluna de forma a minimizar sobrecarga musco esquelética. Quanto mais alto for o encosto melhor será o suporte em posições de inclinação para trás. As recomendações indicam que a altura mínima de um encosto deve ser de 354mm; f) A largura do encosto, em que à semelhança da altura deve proporcionar suporte em diversas
posturas e conforto para a coluna. As práticas industriais sugerem que a largura do encosto deve ter no mínimo 360mm;
g) O suporte lombar, que permita manter a curvatura natural da coluna, que incite a posturas que distribuam a pressão de forma igual entre os discos intervertebrais e minimize a tensão nas costas. As práticas industriais sugerem que o suporte lombar tenha entre 150mm e 250mm, além de uma forma semelhante à da coluna humana;
h) A altura dos apoios dos braços, que é definida normalmente pela altura dos cotovelos acima do assento. A altura destes apoios está relacionada com a posição dos cotovelos, com a espessura das superfícies de trabalho e com a altura das coxas. Uma altura correta nos apoios dos braços proporciona um importante suporte ao sistema muscular do pescoço e dos ombros. As recomendações indicam que a altura deve ter entre 195mm e 289mm;
i) O comprimento e posição dos apoios dos braços, que permite que o utilizador possa ter um melhor alcance às superfícies de trabalho e permite uma melhor experiência, quer seja em execução de tarefas ou em descanso. Não existem recomendações em termos de dimensões ou de posicionamento, mas devem ser consideradas outras recomendações (por exemplo, a profundidade do assento) para definir estas variáveis;
j) O ângulo do encosto, que permita manter as diversas posturas e permita executar naturalmente as tarefas. As práticas industriais sugerem uma inclinação entre os 95º e os 105º;
Para perceber as dimensões a aplicar no produto é necessário considerar as seguintes dimensões antropométricas:
1. Altura sentado;
2. Altura a meio do ombro; 3. Largura do ombro;
4. Largura cotovelo a cotovelo; 5. Largura quadril;
6. Altura descanso cotovelo; 7. Altura poplítea;
8. Comprimento nádega-poplíteo;
Posteriormente a seleção de materiais e a forma irão conferir a adaptabilidade e o conforto do produto em relação aos utilizadores e em relação às tarefas que serão executadas. Variando de produto para produto algumas características assumem uma preponderância maior ou menor consoante a experiência de utilizador pretendida. Também outras dimensões do corpo humano poderão ser necessárias dependendo do fator inovação e diferenciação aplicado ao produto, que interfira com o natural movimento do ser humano, de forma a não criar limitações.
5 DESENVOLVIMENTO PROJETUAL