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CAPÍTULO I – O TRABALHO EM UMA PERSPECTIVA ERGONÔMICA 30 

1.1 A Ergonomia e os conceitos de Trabalho 30

A Ergonomia é considerada por muitos autores uma ciência jovem, de caráter interdisciplinar, por isso suas bases teórico-metodológicas encontram-se em consolidação. Essa ciência ou corrente, como chamamos, fundada oficialmente por Murrel em 1949, tem como objeto teórico e de ação o trabalho. A partir de seu

surgimento, o principal objetivo da Ergonomia era a análise dos problemas de funcionamento dos operadores humanos. Por estar centrada na saúde ou na segurança dos trabalhadores, buscava também amenizar os malefícios causados pelo processo de industrialização da época. Entretanto, foram nos países francófonos que essa corrente passou por mudanças mais significativas em seu paradigma. Surge, assim, a Ergonomia Francesa, que se opôs ao paradigma taylorista, substituindo “a adaptação do homem ao trabalho pela adaptação do trabalho e de suas condições gerais aos trabalhadores” (BRONCKART, 2008, p.97). Segundo Bronckart (2008), essa abordagem geral volta-se para a análise da atividade efetiva do trabalho, tendo como preocupações os problemas concretos em situação e tempo reais de trabalho. No entanto, para que possamos compreender melhor essa explicitação, é preciso entender o que os ergonomistas definem como trabalho real12.

Conforme Daniellou, Laville, Teiger (1983, p.84), não podemos definir trabalho real sem levar em consideração o “conjunto de aspectos das relações entre o operador e as tarefas que ele deve realizar, como ainda, apreender o trabalho do ponto de vista dos operadores”. Ao considerarmos esse conjunto de aspectos, compreendemos que há um distanciamento entre o trabalho prescrito ou pré- definido e o trabalho tal como é vivenciado pelos operadores. É esse distanciamento justamente denominado pelos autores como trabalho real. Nas palavras de Teiger,

[O trabalho prescrito ou esperado dá se] no nível local de organização do trabalho, que fixa regras ou objetivos que levam em conta as especificidades locais;

[O trabalho real dá-se] no nível da atividade de uma pessoa [...] em um determinado tempo [...] em que se revelam o saber-fazer e os conhecimentos dos operadores, em que se opera a ação do corpo inteiro para construir compromissos operatórios, em que se constrói a relação subjetiva com o trabalho (TEIGER, 1993, p.84 [grifo nosso]).

Assim, nessa abordagem ergonômica, a autora centra-se na atividade do operador no trabalho. É importante ressaltar que o termo atividade, para a Ergonomia, está relacionado à atividade dos operadores, isto é, “ao que ele faz e também ao que ele vivencia para realizar essa atividade” (TEIGER apud

BRONCKART, 2008, p. 97). A atividade pode ser apreendida por meio de determinados procedimentos de observação em relação aos comportamentos dos trabalhadores e por outros procedimentos que visam à verbalização deles em relação às suas próprias representações das situações de trabalho e dos vários aspectos vivenciados por eles (BRONCKART, 2008, p.98). O autor, com base em Teiger (1977), ressalta que:

Essa atividade é concebida como um objeto em princípio enigmático, que as teorias buscam (re-) construir ou (co-) construir com os trabalhadores, como também provenientes de um compromisso entre as exigências das tarefas predefinidas e os recursos efetivos que podem ser mobilizados pelos trabalhadores (BRONCKART, 2008, p. 98).

Na conceitualização de Teiger (1992, p.113), o trabalho é visto como “uma atividade finalística, realizada de modo individual ou coletivo numa temporalidade dada, por um homem ou por uma mulher singular, situada num contexto particular que estabelece as exigências imediatas da situação”. Segundo a autora, o trabalho não é uma atividade neutra, pois engaja e transforma aquele que o executa. Para Teiger (1992, p.114), o trabalho é uma atividade mediadora que envolve o sujeito e um contexto singular, isto é, envolve a manifestação da interação entre o sujeito trabalhando e o seu ambiente lato sensu. Representa cada um desses elementos a realidade, a materialidade do trabalho. Nessa perspectiva, destacamos dois aspectos:

1. A interação pode ser compreendida fora de um sentido linear, ou seja, em uma relação direta entre “sujeito e contexto”, em que o sujeito ao agir sobre o meio, de forma direta ou indireta com uso de artefatos, pela atividade de trabalho, é transformado por esta, decorrente dos efeitos e dos resultados de sua ação.

2. Esta interação não se dá por uma estimativa, pois é guiada por objetivos estabelecidos pelo sujeito com seu objeto de ação, “cuja estruturação [...] dá sentido à interação e é resultado de um processo de apropriação do que foi prescrito pela organização de trabalho” (TEIGER, 1992, p.114).

Como evidente, trabalho, para a Ergonomia, segundo Teiger (1992), não é um conceito abstrato, pois toma forma. Nas palavras da autora, é um conceito “encarnado em um corpo”, marcado pela “temporalidade e em um determinado contexto” (TEIGER, 1992, p.114). Por “se encarnar em um sujeito singular”, o trabalho torna-se uma atividade interativa e transformadora, que envolve e engaja

o sujeito em toda sua totalidade (corpos biológico, cognitivo, subjetivo). Isso marca a inserção da história singular desse sujeito na sua relação social com o meio. A autora ressalta, ainda, que, em seu sentido mais amplo, o trabalho é compreendido em seu ambiente, em suas condições, organizações e relações sociais e no contexto socioeconômico no qual está inserido. Portanto, segundo essa concepção, o trabalho é compreendido como uma atividade situada.

Dejours e Molinier (1994, p.61) complementam essa perspectiva, afirmando que “o trabalho é uma atividade coordenada de homens e mulheres para responder ao que não está posto, desde o início, pela organização prescrita do trabalho”. Terssac (1995, p.8) apresenta a relação entre o trabalho prescrito e o realizado:

O trabalho é uma ação coletiva finalística. É uma ação “organizada”, porque ela se situa num contexto estruturado por regras, convenções, culturas. É também uma ação organizadora, porque ela visa, não somente preencher as lacunas provenientes das imprecisões da prescrição, mas produzir um acordo, um espaço de ações pertinentes. É pela ação que se define, de forma interativa, o problema e a solução. É na ação que se operam as trocas de informações e que se constroem as formas de agir.

Segundo Dejours (1992), isso reforça o caráter do trabalho como um objeto de múltiplas dimensões e vários significados, o que permite identificar um elo, ou seja, uma preocupação com o trabalhador quando se demonstra como é ou como seria realmente a atividade desse trabalhador. Para o autor, é relevante o fato de a Ergonomia Francesa ter dado destaque ao distanciamento entre o trabalho prescrito e o real. Além disso, segundo Terssac (1995), os enfoques que evidenciam esse distanciamento mostram a esperteza ou a coragem dos trabalhadores diante de certas lacunas nos seus trabalhos.