3. A PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO BIOLÓGICO NO CAMPUS DE NOVA
3.1. A Dinâmica da Produção de Conhecimento em Biologia
3.1.5. O Ciclo da Credibilidade do Pesquisador na Ciência
3.1.5.1. A Escalada da Credibilidade em Nova Xavantina
Segundo Latour e Woolgar (1997), o ponto de partida de uma carreira científica implica uma série de decisões pelas quais cada um constitui progressivamente seu próprio estoque de referências. Quando os professores de Nova Xavantina decidiram pelo afastamento para a pós-graduação estavam investindo na base de sua carreira de pesquisador, pois era necessário investir em currículo. Esta, segundo os autores citados, não é uma condição suficiente para fazer do indivíduo um pesquisador, mas lhe permite ser admitido no jogo. Em termos de investimento, esse indivíduo tem as referências necessárias para arriscar na carreira.
Nos cursos de pós-graduação os pesquisadores foram auxiliados na construção de seu primeiro artigo e, por contar com seus orientadores como avalistas do escrito, conseguiram publicar com facilidade e, assim, inserir seu nome da lista daqueles que produzem conhecimento na linha de pesquisa e obtiveram seu primeiro crédito (Figura 3-4). Mas somente esta inserção não foi suficiente para o reconhecimento de suas habilidades e potencialidades, foram necessários investimentos em parcerias com outros pesquisadores reconhecidos na linha dos estudos, para que fosse possível a sua projeção no meio e com ela a soma de novos créditos à carreira.
Fig. 3-4. O ciclo de credibilidade da pesquisa científica. Qualificação Currículo Parceiras Recursos + Dedicação + “Inscritores” Experiência Treinamento de equipes Montagem de coleções Publicações Citações CRÉDITO
Quando já tinham capacidade de captar recursos da FAPEMAT, começaram a desenvolver seus primeiros projetos individuais, adquiriram seus primeiros “inscritores”, treinaram sua primeira equipe de campo e começaram a montagem das coleções. Como a pesquisa biológica ainda era desenvolvida usando a adaptação e estudando os assuntos menos complexos, as linhas de pesquisa tiveram a taxonomia como ferramenta básica na produção de conhecimento (Figura 3-5).
Percebemos que no início da carreira, os pesquisadores publicaram artigos mais simples, com metodologias mais tradicionais e por isso escolheram periódicos de menor abrangência geográfica. Foi necessário adquirir “inscritores” aceitos pelos pares, aumentar a experiência de campo e de “tratamento” de dados e conquistar avalistas53 reconhecidos para inserção destes junto aos autores dos artigos, para que houvesse avanço nas publicações e enriquecimento dos currículos.
Quando os elementos da técnica foram sendo aprimorados com a aprovação de novos projetos; a aquisição de “inscritores” mais avançados; a disponibilidade de uma infra-estrutura mais adequada; e com as equipes apresentando maior experiência na pesquisa, aumentou a complexidade dos estudos, houve um salto de qualidade e a produção científica tornou-se aceita por revistas de maior abrangência geográfica.
A aquisição de “inscritores” mais avançados foi, ao que parece, indispensável para o salto de qualidade dos artigos. Os softwares utilizados permitiram a compreensão de uma gama maior de variáveis e suas inter-relações, produzindo fatos mais complexos, próximos à fronteira do conhecimento. Aos estudos taxonômicos foram incorporados, então, análises estatísticas e aos projetos individuais, grupos de pesquisa de outras linhas.
Com a evolução das pesquisas biológicas, o aumento da complexidade também implicou na seleção mais acurada de métodos de coleta e na capacidade de adaptação destes. Então, com o domínio da técnica de coleta de insumos para a produção de conhecimento e o crédito científico, foi possível apostar em adaptações de métodos e protocolos, que foram aceitos pelos pares.
Depois de terem atingido as revistas nacionais e internacionais, terem crédito, domínio da técnica e conhecimento especializado, serem citados por outros
53 Termo aqui usado para designar profissionais nacionalmente reconhecidos nas linhas de pesquisa executados em Nova Xavantina e que somam-se aos pesquisadores locais na lista de autores dos artigos, avalizando a publicação.
pesquisadores, uma nova etapa de publicações surge com os guias, manuais, livros ou capítulos (Figura 3-5).
Um guia utiliza termos técnicos, mas de forma sutil e dirige-se à comunidade em geral. “Preenche uma importante função de relações públicas, no sentido de que pode desempenhar um papel na obtenção de financiamentos públicos de longo prazo” (Latour e Woolgar, 1997:72). Esse tipo de material bibliográfico divulga o trabalho no pesquisador na sociedade, lhe concede autoridade científica e anuncia seus propósitos financiáveis, mas junto aos pares, a publicação de artigos é preferível, uma vez que os critérios de avaliação das revistas são, por si só, o reconhecimento da qualidade do trabalho.
Segundo Kuhn (1975:40), “o cientista que escreve um livro tem mais probabilidades de ver sua reputação comprometida do que aumentada”. Contudo, percebemos um outro aspecto que motiva a publicação de um livro. O impacto da publicação deste, na sociedade, pode ser uma boa tática, porque seu conteúdo que, ao contrário dos artigos, chega às mãos e pode ser lido, sensibiliza as pessoas quanto às questões ambientais, o que por conseqüência pode levar a um maior percentual de financiamentos de estudos biológicos.
Hoje, como últimos acréscimos à credibilidade do grupo surgiram os desafios da inclusão dos métodos qualitativos sociológicos e antropológicos aos estudos ecológicos, na forma da multidisciplinaridade. Uma tentativa que abre novos caminhos à pesquisa, principalmente voltados à conservação do meio ambiente, a atual “menina-dos-olhos” dos estudos biológicos.
E como no ciclo da credibilidade todo investimento resulta em retorno, Nova Xavantina já começa a colher os frutos, o Mestrado em Ecologia e Conservação, um programa que resulta da soma das experiências da Taxonomia, com a Ecologia e a Conservação; da estrutura de pesquisa, do reconhecimento e das citações (Figura 3-5). E, definitivamente, expõe a região às pesquisas ecológicas e consolida o grupo de Nova Xavantina na pesquisa biológica.
Fator que, inclusive, nos fez estudar como este grupo alocado em um pequeno município do interior do centro-oeste conseguiu avançar nas pesquisas e conquistas, dada a simplicidade de suas primeiras tentativas e os acertos nos investimentos, apontando resultados que, hoje, atraem a admiração de outros pesquisadores pelo exemplo bem sucedido.
103 TAXONOMIA − Multidisci- plinaridade − Mestrado − Novos paradigmas − Métodos complexos − Livros − Adaptação de métodos − Citações − Grupos de pesquisa − Artigos − Discípulos − Inscritores avançados − Qualificação − Experiência − Estrutura física − Coleções − Inscritores − Projetos individuais ECOLOGIA CONSERVAÇÃO
Fig. 3-5 – A escalada da pesquisa biológica em Nova Xavantina. Início: taxonomia (aprovaram-se os primeiros projetos, iniciaram-se as coleções e adquiriram-se os primeiros inscritores; os pesquisadores qualificaram-se, adquiriram experiência de pesquisa e receberam melhor infra-estrutura da universidade). Período intermediário: taxonomia e ecologia (publicaram-se artigos mais consistentes, adquiriram-se inscritores mais avançados, foram citados por outros pesquisadores do “campo”, formaram grupos de pesquisas interdisciplinares, publicaram os primeiros guias e passaram a ter sua adaptação de métodos reconhecidos). Atualmente (taxonomia, ecologia e conservação): surgiram novos paradigmas, adquiriram-se métodos de estudo mais complexos (modelagem), foram implantados os estudos multidisciplinares somando variáveis qualitativas aos estudos ecológicos e implantou o mestrado em Ecologia e Conservação.