3 APRESENTAÇÃO DO ESTUDO DE CASO DE ALFABETIZAÇÃO DE UMA
3.1 A escola, a professora e a criança com TEA
O espaço educacional é um dos fatores importantes no processo de aprendi-zagem da criança, este, precisa ter uma estrutura física adequada e um corpo de fun-cionários que atenda aos discentes de maneira eficaz. É importante ressaltar que no caso de uma criança com TEA, o ambiente precisa ser rico em hipóteses de aprendi-zagens, e o professor precisa considerar tempo e subjetividade de cada estudante.
Assim, o estudo de caso deste trato monográfico, deu-se em uma escola que está situada na cidade de Caicó/RN e pertence a rede pública estadual de ensino.
Atende cerca de 330 alunos (ano de 2021) do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental.
Apresenta boa estrutura física com oito salas de aula, um laboratório de informática, uma sala para Atendimento Educacional Especializado – Recursos Multifuncionais, um refeitório, uma cozinha, dois banheiros para os alunos e um para professores e funcionários, uma biblioteca, uma sala para professores, uma secretaria, uma direto-ria, além de amplo espaço externo e um pátio coberto. A referida escola tem um qua-dro de funcionários que são de empresas contratadas pelo Estado para prestar servi-ços de limpeza e produção de merenda. O quadro de professores é composto por servidores efetivos e contratados sendo onze Polivalentes, uma de Educação Física e cinco professoras da Educação Especial. Possui gestão democrática, com eleição a cada dois anos.
A professora da Educação Especial que forneceu dados para essa pesquisa, está na referida escola desde o ano 2018 e acompanha, no turno matutino, um aluno com TEA que cursava, naquele período, o 1º ano do Ensino Fundamental, permane-cendo com ele até os dias atuais. Tem graduação em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e especialização em Psicopedagogia Institucional, pela Faculdade Integrada de Patos, tendo seu cargo de professora da Educação Es-pecial efetivado no Estado, em 2017.
A criança acompanhada pela professora é um menino com nove anos de idade, atualmente, e apresenta, de acordo com laudo médico, Transtorno do Espectro Au-tista. Antes da chegada da professora de Educação Especial, a criança ficou afastada da escola por decisão da família devido a instituição ter apenas uma professora na
turma o que impossibilitava o acompanhamento e atendimento específico que neces-sita uma criança com necessidades educativas especiais.
Nos relatos da professora, ela aborda três aspectos do desenvolvimento do aluno (sócio-afetivo, psicomotor e cognitivo), além do trabalho realizado pela escola para a aprendizagem da criança. Iremos sintetizar o primeiro (2018) e o último (2020) de acordo com os mesmos aspectos.
Segundo tais relatos, o estudante é criado por sua vó materna, e sua mãe bio-lógica o acompanha também durante a semana, o mesmo conta com aulas particula-res em sua particula-residência, para reforço escolar. Tem acompanhamento extraescolar com psiquiatra, psicólogo e fonoaudiólogo.
Inicialmente, no ano de 2018, o discente passou a ser acompanhado pela pro-fessora da Educação Especial em 22 de maio do referido ano. O primeiro desafio encontrado pela docente foi no aspecto sócio-afetivo. O aluno não aceitava permane-cer em sala de aula e a execução das tarefas era difícil no ambiente externo da escola, no qual o aluno aceitava ficar. Em vários momentos o estudante chorou, demons-trando ficar impaciente, correndo de um canto a outro da sala de aula. Por vários momentos, era necessária à sua saída durante o horário de aulas, retornando ao se acalmar. Ao apresentar essas ações, em algumas vezes, chegava a agredir fisica-mente alguns colegas. Quando isso acontecia era solicitado que usasse as mãos não para bater, mas fazer carinho. A professora então, pegava em sua mão e tocava o aluno agredido de maneira carinhosa para que a criança compreendesse qual a ação mais adequada.
No decorrer do tempo, as tentativas para a criança ficar em sala foram em vão, no entanto, a professora observou que o aluno aceitava permanecer no laboratório de informática e realizar as tarefas naquele espaço, mas esse fator foi trabalhado aos poucos no sentido da permanência em sala de aula com os demais alunos, pois ape-sar da aceitação em outro ambiente, de certa forma estava sendo excluído. Por isso, as insistências foram intensificadas dia após dia e aos poucos, ele foi adaptando-se a rotina até sair da sala apenas no horário do recreio.
Ao término do primeiro semestre do citado ano, a criança já conseguia despe-dir-se dos colegas ao final da aula, acenando com a mão. Aceitava pegar na mão de alguns para dançar e demonstrava satisfação. Apresentava pouca interação nas brin-cadeiras, atividades em grupo e nas aulas de educação física, nesses momentos não demonstrava interesse em participar e costumava afastar-se. No entanto, era sempre
levado a interagir com os demais. Respeitava, em parte, sua vez na fila. Já conseguia guardar o seu material e fechar o zíper da bolsa que antes solicitava ajuda para essa ação.
No segundo semestre, o estudante ficou sem a medicação, pois de acordo com o relato da família, ela estava causando problemas cardíacos e por decisão própria suspendeu o seu uso. Depois disso, o aluno foi apresentando certa regressão no que diz respeito à socialização e concentração. Voltou a ficar agitado com mais frequência em sala de aula, sendo preciso ser retirado para que pudesse se acalmar, tomar uma água receber um pouco de vento ao ar livre. Observou-se ainda nos relatos, que essa não era uma constante. Ora a criança tinha dias de tranquilidade, ora de agitação.
No aspecto psicomotor, ainda do ano de 2018, a criança apresentava dificul-dade acentuada na coordenação motora fina. Não conseguia segurar o lápis para es-crever ou pintar e poucas vezes aceitava esse estímulo. Realizava com dificuldade recortes com a tesoura e apresentava pouca habilidade ao segurá-la. Não gostava de encaixar blocos, preferia colocá-los um a um dentro da caixa ou fazer pistas com eles.
Locomovia-se com autonomia e facilidade na hora do recreio para o refeitório e outros ambientes da escola. Comia sozinho, embora depois da ausência da medicação, por alguns dias, só aceitava comer com ajuda de um adulto. Queria por alguns momentos fazer a refeição na sala de professores, mas aos poucos, aceitou e voltou a fazer no refeitório, utilizando os talheres espontaneamente e de forma independente. Ia ao ba-nheiro acompanhado, mas já conseguia despir-se, vestir-se e lavar as mãos sozinho, embora ainda com ajuda física da professora.
No aspecto cognitivo, o discente apresentava grande resistência em segurar o lápis para escrever e para formar palavras com letras móveis. Reconhecia e nomeava a maioria das letras do alfabeto, fazendo a correta correspondência entre elas. Com-preendia pouco a associação de letras iniciais às figuras. Fazia, parcialmente, o seu próprio nome usando as letras móveis. O estudante era não verbal, já que somente falava algumas palavras com dificuldade na pronúncia e não respondia a perguntas.
Demonstrava não compreender a contagem até 10. Confundia-se em aplicar os con-ceitos de grosso e fino, maior e menor. Compreendia pouco o registro diário no calen-dário, mas aceitava fazê-lo com frequência. Nomeava e apontava corretamente olhos, boca, nariz, pé e cabeça. Tinha certa resistência em aceitar pintura com lápis, com pincel e tinta. Quando aceitava, ficava nessa atividade por poucos instantes.
Apresen-tava dificuldade em realizar o movimento de pinça. Confundia-se pouco no parea-mento das cores primárias e das figuras geométricas planas (quadrado, círculo e tri-ângulo).
Após essas descrições sobre cada aspecto do desenvolvimento da criança com TEA, a professora também registra o trabalho de intervenção realizado por ela e de-mais profissionais envolvidos da escola, para cada dificuldade apresentada. O aluno era acompanhado duas vezes por semana, por uma hora, pela professora da Sala de Recursos Multifuncionais. As atividades lá realizadas eram planejadas junto com a professora da Educação Especial.
Em sala de aula, ainda em relação ao trabalho desenvolvido pelos profissionais, no aspecto sócio-afetivo, os comportamentos inadequados eram observados constan-temente para que fosse identificado sua função, uma vez identificados, eram propos-tas mudanças de forma gradativa utilizando o verbal, gestual e físico, sempre nessa ordem. Não era incentivada sua permanência na sala dos professores, para que o aluno entendesse que aquele espaço era destinado a outras pessoas e assim a com-preensão sobre o limite e o respeito. Como também, a sua retirada de sala de aula, acontecia somente nos momentos de extrema agitação e irritabilidade.
A criança apresentava algumas estereotipias, sendo a sua favorita, o ato de bater, repetidamente, o lápis na mesa. Esse comportamento causava desatenção e perturbação aos demais alunos e estava sendo, constantemente, trabalhado para que ele aprendesse a imitar outras ações e o comportamento mais adequado com o ob-jeto. Foi estimulado a cumprimentar a todos na chegada, saída e a organizar os ma-teriais e brinquedos.
No aspecto psicomotor, era trabalhado em conjunto com a professora da edu-cação física. Era incentivado a participar de todas as atividades com os demais alu-nos, na quadra, no parque e na sala de aula. Nos passeios pela escola, era solicitado que andasse por espaços delimitados para que desenvolvesse o equilíbrio corporal;
saltasse nos degraus e corresse livremente quando o momento permitia. Era constan-temente oferecido apoio material, como lápis de vários tipos (com engrossamento, personagens preferidos, finos, curtos, com elástico, prendedores...) para desenvolver a coordenação motora fina, além do trabalho através de ajuda física para escrever.
No aspecto cognitivo, foi oferecido letras de diversos materiais para que o aluno desenvolvesse a compreensão e a habilidade para a escrita. Apesar de o aluno não
demonstrar interesse na leitura de livros da literatura infantil, estes eram frequente-mente oferecidos e, por alguns instantes, lidos para a criança de formas diferentes para obter sua atenção e interesse. Jogos concretos de matemática e de alfabetização e por meio de aplicativos de celular, também faziam parte da rotina da criança em sala de aula. Apesar de ter o maior nível de concentração e interesse do aluno, os vídeos educativos e jogos eletrônicos eram usados com cautela para que essa ferramenta não viesse prejudicar a sua interação social.
O discente era incentivado a participar de atividades com pinturas, cartazes, em folha digitada e livro didáticos como os demais alunos, sendo as mesmas adapta-das à sua compreensão e limitação. A partir do segundo semestre ainda de 2018, diante da dificuldade do aluno em pronunciar algumas letras e assim palavras, foi tra-balhado o método fônico por meio de figuras e jogos eletrônicos para intensificar tanto a sua compreensão em relação aos sons de letras e sílabas como também sua pro-núncia. A intensidade, duração e alteração do método foram avaliados de acordo com as respostas da criança.
O PEI (Plano Educacional Individualizado) elaborado para o ano letivo em questão, sofreu constantemente alterações de acordo com o desenvolvimento do aluno diante do que foi planejado. Todas as atividades realizadas por ele na escola são registradas em seu caderno que era enviado, diariamente para casa, incentivando a participação e compreensão da família acerca do que estava sendo trabalhado.
Nos relatos finais da professora, do ano de 2020, pudemos conhecer as dificul-dades encontradas tanto por ela quanto pelo aluno com o fechamento das escolas devido a pandemia do COVID-19. Ela descreve que no aspecto sócio-afetivo, nos pri-meiros dias de aula ainda presenciais, a criança apresentou certa resistência para permanecer em sala de aula como acontece todos os anos. Por isso, nesse período, foi trabalhado estratégias (cantiga da professora regente com a turma, jogos de mesa de interesse do aluno, incentivo da professora regente ao chamá-lo até a lousa) que pudessem atraí-lo para ficar dentro da sala. Apresentou uma certa agressividade nos primeiros dias de aula, mas no decorrer do tempo mantinha boa relação com os cole-gas, nesse aspecto houve um significativo avanço no que diz respeito ao comporta-mento em relação a outras crianças desde o seu 1º ano até então.
Estava sendo trabalhado no sentido de adquirir mais autonomia em suas ativi-dades escolares, objetivo principal para ser alcançado naquele ano. Era incentivado a sentar sem a presença da professora da Educação Especial ao seu lado, mas sim
junto aos colegas. E vinha aceitando muito bem. A presença da professora perto do aluno só se dava em momentos específicos das tarefas. Ao final do período presen-cial, o aluno já demonstrava interesse nas atividades com os colegas, inclusive nas aulas de educação física e permanecia o tempo integral em sala de aula.
Participava das apresentações artísticas com a turma, mas ainda com pouca interação nesses momentos. No período não presencial, segundo relatos da família e da professora particular que acompanha o discente em sua residência, ele apresentou muita agitação e irritabilidade nos primeiros meses sem aulas presenciais, pede cons-tantemente para ir à escola. A professora da Educação Especial sentiu a necessidade de visitar o aluno em casa por algumas vezes, para manter o vínculo, já que a criança não conseguia aceitar contato através do celular.
Já no final do 4º bimestre, o aluno constantemente faz chamadas de vídeo para a docente, o que ampliou a aproximação professora-aluno. No aspecto psicomotor, ainda apresenta limitações na coordenação motora fina. Já aceitava segurar o lápis (sozinho ou com ajuda física) para escrever ou pintar, mas por poucos instantes, sendo essa o maior obstáculo para o desenvolvimento da escrita que manteve-se desde o 1º ano, em 2018. Demonstra ser bidestro, com predominância para o uso da mão esquerda. Durante o Ensino Remoto, o desenvolvimento da escrita com o uso do lápis foi prejudicado pela recusa do aluno em aceitar as atividades que estimulam o desenvolvimento da coordenação motora fina (amassar papel, recorte com tesoura, pegadas com prendedores de roupa).
No aspecto cognitivo, aceitava a colagem (com boa concentração) para a rea-lização das tarefas, com apoio de imagens e recortes de letras para compor palavras, além de outras atividades como jogos para formação de palavras com fichas e figuras.
O aluno reconhece e nomeia as letras do alfabeto, fazendo a correta correspondência entre elas. Faz algumas associações de letras iniciais às figuras, por vezes, faz isso corretamente. Continua fazendo o seu nome usando as letras móveis, aceita, por pou-cos instantes, ajuda física para essa escrita com o lápis. Aumentou seu repertório de palavras e frases (curtas – de duas palavras) ao longo do ano letivo, sendo esse o avanço mais significativo do discente durante o período não presencial. Segundo re-latos da professora que o acompanha em casa, ele faz contagens de objetos até 12.
Em relação ao trabalho realizado pela escola, os comportamentos inadequados foram trabalhados da mesma forma anteriormente descrita. Diante da recusa do aluno em aceitar a escrita com o lápis, a colagem continuou sendo a opção mais aceita e
compreendida por ele. Era incentivado a ler as palavras das tarefas com o dedinho para que compreendesse a direção esquerda para a direita e fazer as associações de imagens à escrita de palavras (sons-grafemas). Apesar de ter o maior nível de con-centração e interesse do aluno, os vídeos educativos e jogos eletrônicos não foram mais usados com tanta frequência tanto no presencial como no Ensino Remoto, de-vido o comportamento do aluno em atirar o aparelho celular sempre que o tempo/limite para atividade com esse instrumento era alcançado. O discente foi incentivado pelas professoras a participar da rotina diária dos demais alunos como correção de tarefas, obedecendo a chamada, além de atividades com pintura, cartazes, em folha digitada e livro didáticos como os demais alunos, sendo todas adaptadas/adequadas a sua compreensão e limitação.
O PEI elaborado para o ano letivo de 2020, sofreu alterações bimestrais de acordo com o momento pandêmico. As atividades propostas pela professora regente para a turma foram reelaboradas pela professora da Educação Especial, e continua-ram sendo oferecidas para o discente de acordo com o seu nível de compreensão. O acompanhamento do aluno pela professora particular, durante o ensino remoto, foi limitado a duas vezes por semana, uma hora cada e, devido a isso, alguns pontos foram prejudicados/alterados: atividades (reduzidas) e habilidades (algumas não tra-balhadas devido ao acesso limitado do aluno às tecnologias e materiais didático-pe-dagógicos). Todas as tarefas realizadas pelo discente através do Ensino Remoto fo-ram coladas no caderno dele e a devolutiva foi realizada através de fotos e vídeos enviados a professora da Educação Especial e algumas registradas no SIGEDUC (Sistema Integrado de Gestão de Educação), plataforma de registros utilizada pela rede estadual de educação.
Em síntese, pudemos observar através dos relatos contidos nos documentos cedidos que o aluno com TEA vem sendo acompanhado pela mesma professora desde 2018 até os dias atuais e suas limitações que inicialmente eram na fala, escrita e socialização vem tendo avanços ao longo desse período. É interessante destacar que a avaliação da criança é bastante difícil pelo fato dele não responder perguntas e ter um nível de compreensão bastante limitado diante das propostas de trabalho. No entanto, ela é realizada de forma contínua a partir das ações do aluno no decorrer das atividades. Com o distanciamento social, essas observações ficaram limitadas e des-tinadas a outra pessoa, que no caso, foi a professora particular da criança que realiza as tarefas com o aluno seguindo as orientações da professora de Educação Especial.
A alfabetização da criança continua em processo, sendo que foi bastante pre-judicada com o fechamento das escolas, devido a pandemia da COVID-19. Ainda no período presencial, os relatos descrevem que a criança demonstrava pouca compre-ensão em relação a leitura. Por vezes, identificava palavras em listas, no entanto, ficava difícil avaliar se a leitura era de memória ou não. Há registros também da difi-culdade em avaliar, já que o aluno não seguia comandos e continuava sem responder perguntas. Outras tentativas de avaliação foram propostas para a professora que acompanha a criança em casa, mas ela também afirmou as mesmas dificuldades.