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I. SURGIMENTO DAS ESCOLAS ALTERNATIVAS Um pouco de história

1.2. A Escola Alternativa: um salto no tempo

1.2.2 A escola alternativa e sua ‘outra’ produtividade

O modo de produção capitalista, que sobrevaloriza a produtividade em massa, ainda está presente nas escolas atuais de perfil mais conservador e concordante em relação às teses do discurso tradicional. Podemos mesmo afirmar, como Pablo Gentili (1996), que há certo padrão de ‘macdonaldização’ de algumas escolas, sobretudo aquelas que surgem a fim de responder à demanda pelo acesso à universidade, cujo objetivo é ‘fazer o aluno passar no vestibular’, mais do que propriamente preparar-se para a vida ou para a vida acadêmica e profissional. Inclusive, na visão desse autor, a escola pública vem sofrendo esse processo em função de interferências de organismos financeiros internacionais. Existe a necessidade, por parte da escola pública, em produzir uma ‘educação em massa’, que atinja um maior número possível de crianças e adolescentes, entretanto, essa escola não tem obtido sucesso nem eficiência qualitativa em alcançar essa meta. Como na educação pública massificada não tem havido eficiência, formam-se sujeitos que, de fato, não se apropriaram dos conteúdos de ensino que ‘caem no vestibular’ e tampouco se tornaram eficientes como sujeitos críticos ao conhecimento e produtores de conhecimento.

Pode-se dizer que o discurso pedagógico oficial – de Estado ou de governo - aquele que se materializa em diversos documentos, tais como os PCN’s, aponta para o discurso alternativo, ou seja, retoma algumas teses que surgiram no seu interior. Entretanto, seu projeto de produtividade responde a outras orientações – a preparação para o mundo do trabalho, projeto no qual fracassa precisamente porque mantém em suas práticas e formas de organização um tipo de escola que necessariamente não é adequada à educação de massas. Sua saída mais óbvia será a ‘importação’ da tecnologia produzida pelos ‘sistemas de ensino’ privados.

Os ‘sistemas de ensino’ também apresentam um caráter massificador em sua prática e discurso, mas têm tido maior ‘eficiência’ em alcançar seus objetivos, fundamentalmente por investir em ‘produtividade’, por aprimorar técnicas que Ferreira (2004) denominou de ‘frontalização’ do ensino, com o uso e a comercialização de apostilas, cuja lição não só é aprendida por todos da mesma sala ao mesmo tempo, como também por todos cuja escola adote esse material. De Norte a Sul do país. Parece ser nesta possibilidade que vem apostando a política de livros didáticos: a distribuição gratuita de livros didáticos uniformiza as aulas, os professores e os aprendizes. Não se trata de distribuir melhor o acesso aos bens culturais, mas de uniformizar o ensino na esperança de encontrar a eficiência que os sistemas de ensino encontraram com suas apostilas. Acontece que são públicos distintos, e jamais os sistemas de ensino dizem o número de alunos que não conseguiu atingir as metas que se fixou (por exemplo, não há comparação entre o número de aprovados nos vestibulares e o número de alunos de cada um destes cursos de ‘sistema’).

É importante destacar aqui as escolas dessa natureza, visto que, se em princípio as escolas alternativas se apresentaram como alternativa de ‘produção de escolarização e de ensino’ ao ensino tradicional, a partir de um dado momento histórico, em que recrudesceu a luta pela sobrevivência num sistema cada vez mais competitivo, elas passam a apresentar-se como alternativa a esse modo ‘macdonaldizado’ (Gentili, 1996) de fazer educação. Na realidade, esses são seus

‘antagonistas’ fundamentais, seus concorrentes ‘ideológicos’ atuais41, se tomarmos o conjunto de escolas como uma ‘voz’.

Um dos indícios mais fundamentais de uma produtividade alternativa à produtividade tipicamente capitalista e industrial na escola – seja a do discurso tradicional, seja a de seu desdobramento atual, a do discurso dos sistemas de ensino - pode ser detectado no modo de atuação que se espera (leia-se também que se exige) do professor.

O professor se mantém como representante do mundo adulto, como já foi dito, mas, se ‘educação é trabalho’, para novamente retomarmos uma expressão do enunciado 19, significa que é trabalho para quem ensina e quem aprende, e quem ensina mantém-se em processo de aprendizagem. O professor agora não é um ‘repassador de lições e de saberes’, mas um mediador entre a criança e o mundo, entre o sujeito aprendiz e o conhecimento, conhecimento que não deve ser meramente reproduzido, mas também ‘produzido’. Tanto é assim que, para além das reuniões pedagógicas e grupos de estudo no cotidiano escolar, característicos dessas escolas, algumas delas criam centros de formação de professores que ministram cursos para seus professores, para outros professores e em parceria com o Estado.

O enunciado 6, como se viu, já destaca a criação de um Centro de Estudos em concomitância com a fundação da escola. No enunciado 21, a seguir, é retratado o caráter desse Centro de Estudos em relação à escola. No enunciado 22, temos uma outra escola que também destaca a formação de professores como uma preocupação que, por sua vez, gera um espaço de irradiação do saber pedagógico ali produzido.

21. O desafio que se colocou, desde a fundação, à Equipe da

Escola da Vila foi a busca de uma prática pedagógica baseada

nas teorias e pesquisas de cientistas e educadores deste século, que tivessem contribuído para uma mudança no

41 Note-se que alguns dos sites das escolas alternativas trazem em complementação de seu nome a seqüência

g12, que indica sua filiação a um grupo de escolas dessa natureza que se formou em meados dos anos 80, a fim de discutir e implementar políticas de inserção e manutenção no mercado, do ponto de vista da relação com os pais e com os professores. Certamente são escolas que se encontram num mesmo espectro ideológico.

tradicional42 processo de ensino-aprendizagem. Aliava a isso a possibilidade de se criar um espaço - o Centro de Estudos - onde pudesse haver troca de conhecimentos com outros educadores e se divulgasse a experiência de trabalho.(...) Paralelamente o Centro de Estudos também cresceu e fortaleceu-se. Tendo como suporte as discussões teóricas internas, a prática em sala de aula e os intercâmbios da Equipe da Escola da Vila com outros educadores nacionais e internacionais, que têm sido convidados para dar cursos e palestras, o Centro de Estudos da Escola da Vila é, hoje em dia, um centro nacional de referência para os educadores.43 22. Desde a sua origem, a Escola Vera Cruz se preocupou em

atualizar permanentemente seu planejamento curricular. Seu caráter experimental, reconhecido pelo Conselho Estadual de Educação, tem garantido a constante busca de atualização científica no campo da educação e áreas correlatas, bem como a construção pioneira de metodologias e recursos didáticos, hoje aplicados em outras instituições de ensino públicas e privadas.44

23. A educação do cidadão do novo milênio não pode mais repetir velhas fórmulas nas quais a repetição e a passividade são os principais objetivos. Vivemos um mundo em constante transformação e é cada vez mais necessário saber pensar, formular perguntas, investigar, enfim, aprender a aprender.45

O enunciado 23 nos traz uma das frases mais freqüentes no discurso dessas escolas: ‘aprender a aprender’, tomar consciência do processo de aprendizagem a fim de ‘produzir conhecimento’, o que vale tanto para os professores como para os alunos.

Nesse sentido, contrapõe-se a um aprendizado dito ‘padronizado’, ‘macdonaldizado’ (Gentili, 1996). Entretanto, não há como negar a manutenção de uma hierarquia de saberes (e de poder) no interior dessas escolas, visto que as diretrizes são dadas pela escola (depreensível, por exemplo, no enunciado 6) e as escolhas que fazem no que diz respeito ao saber pedagógico e psicopedagógico. O professor, portanto, é mediador na relação mundo/conhecimento-criança e um produtor de saber, mas dentro das regras e normas ‘alternativas’ de cada escola,

42 Note-se, novamente, o uso do qualificador tradicional associado a aspectos da escola à qual as escolas alternativas se contrapõem.

43 http://www.vila.com.br/

44 http://www.veracruz.g12.br/frahistorico.htm 45

seu fazer, seu saber e seu dizer, como se verá, devem estar em sintonia com aquilo que a escola faz, sabe e ‘diz’.

Outro aspecto presente na escola tradicional e também, hoje, nas escolas que aqui vêm se qualificando como ‘macdonaldizadas’ (op.cit) é a sobrevalorização do mérito em razão da quantidade de conhecimento acumulado. Além de responder a isso apontando o ‘aprender a aprender’, o ‘saber pensar’, o ‘formular perguntas’ (presentes no enunciado 23, mas reconhecíveis em tantos outros), as escolas alternativas acrescentam, como resposta em contraposição ao processo meritocrático competitivo, a valorização das relações ‘grupais’, das relações interpessoais, muitas vezes denominadas sócio-afetivas.

Não se trata mais de olhar para um grupo de indivíduos que devem, todos indistintamente, padronizadamente, agir do mesmo modo e saber as mesmas coisas. Trata-se, no dizer dessas escolas, de olhar cada um em sua individualidade no interior do processo de grupo social.

O que se diz buscar é respeito ao processo do indivíduo sem colocá-lo em competição com o outro, mas em cooperação com o outro. Nesse sentido, apontam para o rompimento com a lógica da reprodutibilidade, da padronização e do individualismo competitivo. Além dos enunciados a seguir, podemos depreender esse aspecto também do enunciado 16.

24. Isto quer dizer também que uma habilidade cada vez mais necessária na formação do cidadão é a capacidade de trabalhar em grupo, ouvir e ser ouvido, construindo regras e aprendendo a respeitá-las. Propiciamos aos nossos alunos um ambiente em que a criatividade pode desabrochar e a imaginação é incentivada. Construímos assim nossa Escola confiando que é possível ensinar o respeito ao outro, à natureza e a si mesmo, formando cidadãos felizes. Por que não?46

25. Em oposição à massificação, à banalização do conhecimento, à degradação de valores, à uniformização de pensamento, o Oswald de Andrade-Caravelas forma alunos críticos, produtivos, capazes de lançar mão de diversas linguagens para expressar idéias e sentimentos. Alunos capazes de trabalhar em conjunto, de compreender suas próprias motivações47

46

http://www.escolacurumim.com.br/Escola/index.htm 47 http/www.oswaldcaravelas.com.br

Observemos também que, se o grupo é importante, as regras construídas em grupo também o são, como pode ser visto nos enunciados precedentes. Isso implica em uma submissão do indivíduo ao grupo do qual faz parte, naturalmente conduzido por um adulto mediador48. Esse aspecto é relevante no que será discutido acerca dos relatórios de alunos.

1.2.3 Do paradigma mecanicista, racionalista, antropocêntrico aos novos