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A escola como lócus da qualificação profissional

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1 QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL E IDENTIDADE DOCENTE

1.4 Qualificação Profissional e (Re)Construção da Identidade Docente

1.4.2 A escola como lócus da qualificação profissional

A formação profissional exigida para a habilitação ao exercício da profissão, estruturada por meio de uma formação teórico-prática, complementa-se com os saberes construídos na reflexão sobre a e na prática docente cotidiana. O conhecimento adquirido na formação acadêmica se reconstrói na atividade profissional para atender à complexidade e à diversidade das situações demandadas pelas práticas diversas. É preciso pensar a qualificação profissional, portanto, como parte do processo, tanto de construção da prática qualificada quanto de afirmação da identidade e da profissionalização do docente.

A articulação teoria/prática, necessária na formação profissional, é fundamental na qualificação profissional, pois realimenta o conhecimento consagrado com observações do cotidiano escolar, levando à construção de novos saberes. Assim, a prática é transformada de simples aplicação em construção do conhecimento, uma vez que a atividade profissional envolve aprendizagens que vão além da simples aplicação daquilo que fora estudado.

A concepção atual de qualificação profissional tem uma dimensão relacionada à complementação da formação profissional e à reconstrução da prática cotidiana ao longo de toda a carreira profissional. Na qualificação profissional, não podemos desconsiderar as dimensões pessoais e profissionais que permitem aos professores, como sujeitos de sua

prática, apropriar-se dos processos de formação, visto que o saber é construído ao longo do percurso. Nesse viés, a construção do conhecimento mobiliza uma pedagogia dialógica que leva em conta os diferentes saberes e a experiência docente.

A qualificação profissional não pode ser reduzida à atualização, muito menos a um treinamento ou a uma capacitação para a introdução de inovações ou para a compensação de possíveis deficiências da formação profissional. É comum que os professores, gerando-lhes uma atitude refratária, considerem os diversos programas institucionais de qualificação profissional como pacotes a serem executados.

Deve-se desenvolver, no entanto, uma cultura de formação baseada na reflexão crítica sobre a teoria/prática, que considere os aspectos sociais e as suas implicações no cotidiano do professor, no processo profissional e na reconstrução da sua identidade. Segundo Nóvoa (1992, p. 25):

A formação não se constrói por acumulação (de cursos, de conhecimentos ou de técnicas), mas sim através de um trabalho de refletividade crítica sobre as práticas de (re)construção permanente de uma identidade pessoal. Por isso é tão importante investir na pessoa e dar um estatuto ao saber da experiência.

É imprescindível considerar o professor como sujeito, valorizando suas incursões teóricas, suas experiências profissionais e seus saberes da prática e permitindo que ele se torne um investigador capaz de rever sua prática, atribuir-lhe novos significados e compreender e enfrentar as dificuldades com as quais se depara.

Em sua prática docente, o professor tem dois momentos como sujeito. No primeiro, em sala de aula, o professor e o aluno são os sujeitos do triângulo pedagógico e, ao interagirem, valorizam os processos relacionais e formativos, favorecendo a lógica de aprendizagem na realização do ensino e na construção do conhecimento. No segundo momento, o professor e os seus pares são os sujeitos que formam um novo triângulo pedagógico com o mesmo objetivo do primeiro, ou seja, com a intenção de propiciar processos relacionais e construção do conhecimento e aprendizagem. Sobre essa troca de experiências, Linhares (2004, p. 52) argumenta que:

O fortalecimento das relações interpessoais na escola possibilita o afloramento, discussão dos problemas e construção de novos conhecimentos. [...] as mudanças da práxis pedagógica ocorrem não só por determinação política, mas também por uma postura de compromisso técnico, político e humano daqueles que constroem o cotidiano da escola. Só assim deixará de existir uma escola voltada para os sujeitos-objetos, dando lugar a uma nova escola, em que seus criadores, pesquisadores, ocupem seu espaço e lutem por seus sonhos.

Essa interação entre o professor e seus pares na escola para realizar estudos, partilhar dúvidas, saberes e trocas de experiências é primordial para o processo contínuo e coletivo de reflexão sobre os problemas e as dificuldades encontradas e sobre o encaminhamento de possíveis soluções. Já o isolamento gera incomunicabilidade, quando o professor deixa de compartilhar sua experiência educativa. Essa formação personalista e isolada pode até propiciar experiências inovadoras, mas dificilmente origina uma experiência instituinte, uma vez que essa experiência nasce, reproduz-se e morre com o professor.

A respeito desse isolamento e dos reflexos sobre o trabalho docente, Nóvoa (2011b, p. 3) argumenta que:

A profissão de professor é muito desgastante e exigente. Hoje, ela não pode ser vivida isoladamente. É fundamental falar dos problemas com os colegas, em diálogo aberto, num quadro de partilha e de colaboração mútua. É muito importante que haja alguém que dinamize esses processos e que ajude a organizar o trabalho escolar e esse alguém pode ser o coordenador pedagógico. Nada se consegue sozinho. Os problemas educativos só podem ser resolvidos por meio de uma ação coletiva.

A escola deve proporcionar um ambiente colaborativo e tempos de reflexão coletiva entre pares na construção do conhecimento a partir da articulação teoria/prática. A escola deve ser o lócus da qualificação profissional por meio da organização de grupos de estudo que priorizem o comprometimento do coletivo da escola com a melhoria da aprendizagem dos que nela estão. Esse tempo deve se tornar uma rotina do cotidiano escolar, quando o professor, como sujeito de sua prática, e a equipe pedagógica podem partilhar os conhecimentos adquiridos e construir novos conhecimentos.

Da equipe pedagógica da escola, destacamos um profissional fundamental na articulação do trabalho pedagógico, o coordenador pedagógico, pois cabe-lhe comandar o trabalho, orientar os professores e ajustar as diretrizes pedagógicas da Secretaria de Educação à realidade local. Ele é o sujeito ideal para liderar a elaboração do Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola, documento de suma importância, embora boa parte das escolas não o possua ou, quando o possui, não o atualiza há anos e/ou simplesmente esquece-o em uma gaveta.

A principal atribuição do coordenador pedagógico é a atuação junto aos professores ao promover a qualificação profissional em serviço, dinamizando os processos formativos e ajudando a organizar o trabalho escolar. Ele é, desse modo, o sujeito que ajuda os professores a analisar as atividades propostas aos alunos e que, com base nas teorias, auxilia-os no planejamento de outras mudanças necessárias. O coordenador pedagógico, assim, é o elo da

prática do professor com a teoria pedagógica. A respeito das atribuições desse profissional, Nóvoa (2011b, p. 3) acredita que “A formação deveria ser a preocupação central dos coordenadores pedagógicos. Se concebermos a formação numa perspectiva de cooperação e de partilha, é possível pensar todo o trabalho escolar baseado nela”.

Para que esse ambiente colaborativo se torne uma prática, as Secretarias de Educação devem prever, na carga horária do professor, tempo para reuniões e para frequência a cursos e palestras. Além de respaldar as escolas em suas necessidades, devem apoiar e acompanhar suas atividades pedagógicas. Na Lei nº 11.738/08, art. 2º, §4º, essa questão é clara: “[...] na composição da jornada de trabalho, observar-se-á o limite máximo de 2/3 (dois terços) da carga horária para o desempenho das atividades de interação com os educandos”; por conseguinte, devemos cumpri-la, sob pena de se inviabilizar que experiências instituintes surjam e se propaguem na escola.

As instituições formadoras precisam oferecer recursos para as ações de qualificação profissional e de melhoria da escola na medida de suas necessidades. Isto não significa limitar as ações a meras demandas pontuais das escolas ou das redes. Na verdade, supõe a noção de redes articuladas de parceria em que a escuta mútua é mais prolongada que a realização de um curso avulso, ou seja, supõe que se permita o trabalho coordenado e voltado para a efetivação do direito de todos à educação de qualidade.

Não se pode perder de vista a articulação entre formação e profissionalização, entendendo que uma política de formação implica tanto o encaminhamento de ações efetivas no sentido de melhorar as condições de trabalho, bem como a estruturação do trabalho pedagógico da escola. Desse modo, visando à valorização dos professores, os planos de carreira devem incentivar a progressão por meio da qualificação profissional do trabalho docente.

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