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A escola como um grande nó na rede de sociabilidade

Se pensarmos na lógica de organização do espaço na sociedade atual, como nos propõe Manuel Castells (2016), tendo por base um espaço de fluxos, que se configura e reconfigura a partir do desenvolvimento dos meios de transporte e das tecnologias de informação e comunicação, podemos pensar nas instituições como nós de uma grande rede que compõe o espaço social.

O ciberespaço constitui parte considerável da vivência dos indivíduos, entretanto, a conexão com os espaços físicos não foi descartada, apenas reconfigurada. Alguns desses espaços físicos constituem nós – espaços privilegiados de sociabilidade a partir dos quais se entrelaçam um grande número de variáveis da vida das pessoas. Acreditamos que a escola é um desses espaços.

Elegemos a escola como espaço privilegiado para a nossa pesquisa devido à nossa inserção enquanto docente, mas sobretudo, por ela representar o lugar no qual se estabelecem e se desenvolvem diversas ações da vida dos jovens. A vivência na instituição de ensino, com suas características próprias, também acaba por influenciar as características desta juventude.

O Instituto (IFRN) constitui um verdadeiro projeto de futuro para as famílias. Aparentemente em muitos casos, até mais para as famílias do que para os jovens em si, que em algumas ocasiões dizem ter vindo para a escola porque os pais e familiares determinaram que esse seria o melhor caminho a seguir.

Essa visão tende a mudar em algumas situações, sobretudo à medida que os jovens se aproximam da formatura. Podemos dizer que há um misto de conformação e amadurecimento que faz com que estes estudantes, que vieram sem saber muito bem porque, construam projetos de vida a partir do ambiente escolar no qual convivem.

Aqui, pensamos na perspectiva dos escritos de Bourdieu (1983) e Bourdieu e Passeron (2008). A escola pode se constituir em um projeto para as famílias, que

buscam capital cultural para os seus filhos, para que no futuro tenham melhores condições de vida. Com o passar do tempo, parte dos jovens assumem essa capacidade de pensar prospectivamente e caminham nesta direção, construindo o projeto de vida.

Destacamos duas falas que representam um pouco do pensamento relacionado à escola enquanto espaço de projeção para o futuro. A primeira delas, do jovem Luke, de 23 anos de idade, e a segunda, da jovem Leia, de 18 anos.

Quadro 5 – relato do jovem Luke Luke

[Entrevistador] [...] eu queria perguntar sobre a questão da educação [...] da escola, por que você veio estudar no IF?

[Entrevistado] Ter uma qualidade melhor futuramente.

[Entrevistador] Mas aí, você já pensava em informática ou você veio fazer o curso, por que era no IF, assim?

[Entrevistado] É eu queria mesmo, sei lá ter uma base, uma base de ensino no caso no ensino médio pra poder ingressar numa faculdade, fazer...tirar uma nota melhor no ENEM, mais cheguei aqui e vi que era muito mais do que eu esperava [...] o conhecimento aqui me ajudou muito.

[Entrevistador] E aí, você... mas assim, já tinha o desejo de fazer informática da... aqui no IF? Ou pensou assim, eu vou fazer no IF porque eu quero trabalhar na área, alguma coisa do tipo?

[Entrevistado] Não, eu tinha uma afinidade depois que eu tou, comecei a ter contato com a área de informática é... eu tenho uma afinidade, que eu gostava de jogos, ai quando eu descobri o computador, ai já gostava, ai foi uma... ai tem o curso de quê? quando eu fui me inscrever, ai tem mineração e informática, nam! Eu quero informática, eu acho que é mais eu informática.

[Entrevistador] Você pretende continuar na informática então, trabalhando? [Entrevistado] Pretendo.

[Entrevistador] Pretende fazer faculdade ou vai trabalhar direto depois do curso?

[Entrevistado] Rapaz é porque, porque tem várias variáveis. Porque tem o... se eu for pra uma faculdade fora, como é que eu vou me manter lá? Aí tem outra opção que é eu começar trabalhar e estudar no contra turno, mas é muito pesado, mas é uma coisa que ainda vai...

[Entrevistador] Você ainda tá pensando?

[Entrevistado] Ainda tou pensando como vai ser. Fonte: dados da pesquisa.

A fala bastante consciente de Luke sobre os seus planos para o futuro nos dá a dimensão das dificuldades que os jovens enfrentam, mesmo tendo acesso à escola com a melhor estrutura física e corpo docente das cidades vizinhas. Em seu caso, conta também a idade. Aos 23 anos, está um pouco acima da faixa etária dos seus colegas, talvez seja um dos motivos do seu discurso mais maduro em relação aos que têm menos idade.

Luke afirma adiante que já se sente um profissional da T.I. Cursa o quarto e último ano do Integrado em Informática e é bolsista na área, desde o primeiro ano. Suas relações sociais partem do ambiente de estudo e “trabalho”. O contato com os profissionais da área é recorrente no discurso dos alunos como algo muito positivo.

No campus, há um diálogo constante dos alunos com professores e técnicos sobre suas impressões a respeito da prática profissional. No caso dos bolsistas, como é o caso de Luke, esse contato é ainda maior. Em geral, não se restringe aos professores das áreas técnicas. Muitos alunos querem seguir carreiras diversas e os professores das disciplinas de formação geral também são bastante questionados sobre suas áreas de atuação.

A profissionalização e os projetos de vida constituem preocupações constantes na vida dos entrevistados. Em torno dessas questões, surgem outras variáveis, como a questão de gênero, que também influencia na sociabilidade vivenciada na escola, tendo desdobramentos para o tipo de vida que pretendem adotar.

As mulheres ainda são minoria nas áreas de tecnologia, sobretudo na informática. Predomina, de forma nem sempre dissimulada, a ideia de que aquele é um espaço para homens. Felizmente, essa visão tem mudado com a inserção cada vez maior de meninas, conforme podemos ler no relato da jovem Leia.

Leia [Entrevistador] [...] porque você veio estudar no IF?

[Entrevistado] Por que o IF oferece um estudo melhor, tanto na parte de ensino médio preparatório pra ENEM, essas coisa, e como a parte de informática que eu gosto muito, eu gostava e ainda gosto, eu tinha interesse pra vim estudar pra cá.

[Entrevistador] Você veio pra cá pra fazer informática especificamente, você já sabia que queria fazer informática antes de entrar aqui?

[Entrevistado] Já.

[Entrevistador] E aí fez consciente a seleção? [Entrevistado] Foi.

[Entrevistador] E me diga uma coisa, tá superando suas expectativas? Você tá aprendendo mais ou menos do que achava que ia aprender, tá se interessando?

[Entrevistado] Muito mais, porque quem entra num curso de informática já pensa: vou sair formatando ou fazendo manutenção de computador [...] e não é só isso. Eu nunca imaginaria que eu ia aprender a programar. [...] eu não sabia que programava, eu nem sabia o que era isso, e aí no IF, é tanto que é a parte que eu mais gosto é programação.

[Entrevistador] Programação? E você pretende seguir carreira na área de informática? [Entrevistado] Sim, pretendo.

[Entrevistador] Me tire só uma dúvida, você é a primeira... é menina, primeira mulher que eu estou entrevistando, como é que você ver assim o papel das mulheres na área da informática?

[Entrevistado] Muito pouco, é porque na área de informática a maioria das mulheres não se interessa tanto, não. Na área de tecnologia e pelo menos eu me dedico mais a essa parte gráfica principalmente da web e eu gosto muito. Só que as mulheres elas não tiveram tanto essa oportunidade, às vezes pelo, é... a cultura não mexe muito com tecnologia ai não pode programar, ai não pode fazer serviços muito complexos, aí elas mesmas não querem fazer, porque pouquíssimas pessoas da minha sala que são mulheres não pensam em seguir carreira na informática, sempre optam, há doutorado ou vou fazer medicina, vou fazer advocacia essas coisas.

[Entrevistador] [...] você acha assim que é um perfil da turma, porque a turma é meio dividida acho assim tem mais mulheres? Eu acho...

[Entrevistado] É tem mais mulheres.

[Entrevistador] O quarto ano, e pelo que você vê elas vão seguir a área ou não? [Entrevistado] Não.

[Entrevistado] Não, eu acho que se muito eu e outra mais. Fonte: dados da pesquisa.

Leia afirma ser uma das poucas meninas da sua sala que tem a pretensão de seguir profissão na Informática. Ela está no último ano do Curso, é aluna da primeira turma do campus. Percebemos, no dia a dia da instituição, que, nas turmas mais recentes, as meninas têm ganhado espaço no cenário da T.I. dentro do campus44.

Em geral, os alunos ficam um turno na escola. Entretanto, muitos conseguem auxílios estudantis e bolsas que os permitem desenvolver atividades no decorrer de todo o dia. Para estes, a escola é, com toda certeza, o principal ambiente de sociabilidade. Esse quadro se amplia à medida que o tempo passa e os jovens avançam em seus cursos.

As ferramentas tecnológicas surgem no ambiente escolar como ferramentas de aprendizagem e como ferramentas de sociabilidade em geral. Como discutimos no capítulo II deste trabalho, o tempo da aula parece não caber mais no tempo do relógio, marcado pelo sinal sonoro.

No contexto que observamos, os bens tecnológicos são importantes para a concretização dos projetos educacionais das famílias e dos alunos. Pelo que constatamos, utilizar a internet e todas as fermentas de aprendizado nelas existente contribui para o aprendizado. O próprio fato de poderem estar em contato, para além do tempo da escola, facilita a discussão e compartilhamento de conteúdos por parte dos alunos e professores.

Entretanto, há também um certo pavor de ficar de fora e não ter acesso a tudo que seria necessário para um melhor aprendizado. De forma recorrente, vemos alunos pagando – alguns até de forma dispendiosa – por conteúdos online que existem em seus livros didáticos e que são trabalhados em sala de aula.

44 Vale ressaltar que, institucionalmente, por parte de professores, técnicos e demais servidores é dado

a alunas e alunos tratamento igualitário. Aqui nos referimos a uma questão cultural mais ampla. Infelizmente, não temos espaço para enveredar nesta questão neste trabalho.