4.2 EDUCAÇÃO MUSICAL NA BAHIA E A CRIAÇÃO DA ESCOLA DE MÚSICA DA UFBA
4.2.3 A Escola de Música da UFBA nos tempos atuais
A Escola de Música continua a realizar eventos artístico-pedagógicos, cumprindo a sua missão: formação e divulgação da música brasileira e internacional. Atualmente tem cinco cursos de graduação: Bacharelados em Canto, Composição e Regência, Instrumento, Música Popular e Licenciatura em Música, sob um único departamento – Departamento de Música (DMUS), fruto da fusão do Departamento de Música Aplicada e do Departamento de Composição, Literatura, e Estruturação Musical da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia. Além disso, a pós- graduação conta com Mestrado e Doutorado acadêmicos (PPGMUS) e Mestrado Profissional (PPGPROM). O DMUS tem 54 docentes, e mais 5 professores substitutos. Integram sua estrutura os seguintes conjuntos musicais estáveis: Orquestra Sinfônica, Orquestra de Câmera, Madrigal, Banda Sinfônica e Grupo de Percussão da UFBA.
Os projetos de Extensão têm a contribuição do Núcleo de Percussão da UFBA, sob a coordenação de Jorge Sacramento, que investe na Formação de Agentes
Multiplicadores, Festival de Interação e Percussão da EMUS, em Encontros Percussivos, além de cumprir a sua missão de “Repercutir nas Comunidades”, uma possibilidade de troca de informações, de saberes, de excelência, entre a Universidade e a cultura desses alunos, respeitando a diversidade.
A Escola de Música continua a realizar eventos artístico-pedagógicos, fazendo das suas atividades de Extensão um campo profícuo de disseminação do ensino e formação musical.
Figura 20 - Conjunto de Percussão da EMUS
Fonte: http://festival2dejulho.blogspot.com.br/
Figura 21 - Concertos populares em praça pública
5 A EXTENSÃO EM MÚSICA NA UFBA
Figura 22 - Musicalização infantil no Hospital da UFBA (HUPES)
Fonte: Site Musicalização Infantil UFBA20
Conforme Boaventura de Sousa Santos (2004), “no século XXI, só há universidade quando há formação graduada e pós-graduada, pesquisa e extensão. Sem qualquer um destes, há ensino superior, não há universidade” (2004, p. 64). Já Almeida Filho (apud UFBA, 2010, p. 10) reflete que, “em termos contemporâneos, impõe-se redefinir e atualizar o escopo de cada um dos termos dessa fórmula triangular”. Para ele, a Extensão “[...] pode e deve ser compreendida como práxis educacional num mundo cada vez mais multirreferenciado e intercultural”. (grifos nossos).
Os documentos mais recentes, como a Política Nacional de Extensão Universitária (vide FORPROEX, 2012), apontam a Extensão Universitária como “um processo interdisciplinar, educativo, cultural, científico e político que promove a interação transformadora entre Universidade e outros setores da sociedade” (p. 15). Em suas diretrizes, com vistas à formulação e implantação, pactuadas no Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras (FORPROEX), preconiza-se “Interação Dialógica, Interdisciplinariedade e Interprofissionalidade, Indissociabilidade Ensino-Pesquisa-Extensão, Impacto na Formação do Estudante
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e, finalmente, Impacto e Transformação Social. (FORPROEX, 2012, p. 16, grifos do autor).
Sob esse prisma, cabe ir além desse escopo e destacar o que reflete Freire:
O conhecimento não se estende do que se julga sabedor até aqueles que se julga não saberem; o conhecimento se constitui nas relações homem-mundo, relações de transformação, e se aperfeiçoa na problematização crítica destas relações. (FREIRE, 2006, p. 36)
Este pensamento freireano nos remete a pesquisar sobre qual a concepção epistemológica de Extensão da Universidade Federal da Bahia, sua finalidade e se esta é concebida e praticada na Escola de Música da UFBA. Quais são as convergências e divergências que norteiam as atividades de extensão, principalmente no que tange ao Projeto de Musicalização Infantil.
Faço a ressalva de que, apesar de sua importância, não é meu intuito abarcar o processo histórico da extensão no Brasil, neste trabalho, tampouco ir ao cerne de cada uma das concepções de 1911 para cá. Vou me ater ao conceito de Extensão vigente, concebido no Fórum de Pró-reitores de Extensão (1987) e reafirmado no Documento Universidade Cidadã de 1999 e no Plano Nacional de Extensão de 2000. Este último tem como objetivos:
Reafirmar a Extensão universitária como processo definido e efetivado em função das exigências da realidade, indispensável na formação do aluno na qualificação do professor e no intercâmbio com a sociedade. [...]
Estimular atividades de Extensão cujo desenvolvimento implique relações multi, inter e ou transdisciplinares e interprofissionais de setores da Universidade e da sociedade. (FORPROEX, 2012, p. 5 grifos nossos).
Nesses documentos, a extensão universitária é compreendida como um espaço privilegiado para o exercício do pensamento crítico. Este pensamento requer relações multirreferenciais no processo de produção, socialização e democratização do conhecimento. Certamente, pressupõe currículos flexíveis que impliquem na formação profissional, já que deve funcionar como um laboratório prático. Adiante abordo sobre o currículo na EMUS.
Na UFBA a Extensão Universitária é “entendida como um eixo de atuação que articula as funções de ensino e pesquisa, de forma indissociável, e amplia e viabiliza a relação transformadora entre Universidade e sociedade, contribuindo, assim, para a formação cidadã dos sujeitos nela envolvidos [...] produzindo conhecimentos por
meio do diálogo e troca de saberes com os diversos setores sociais” (UFBA, 2014, p. 7). Conforme a PROEXT, esse tripé abrange ações em dois grandes campos do saber – o da Arte e Cultura e o da Ciência e Tecnologia – e compreendem a disseminação desses saberes.
Tem como objetivo promover a integração entre a Universidade e a sociedade na troca de experiências, técnicas e metodologias, permitindo ao aluno uma formação profissional com responsabilidade social, dando ao professor oportunidade de legitimar socialmente sua produção acadêmica. (site PROEXT, grifo nosso)
Esse intercâmbio “numa via de mão dupla universidade sociedade”, conforme o referido Plano, contribui para o processo dialético entre a teoria e a prática; porém, para se tornar efetivo, adverte Demo (2001a, p. 155),
A Universidade precisa, por constituição e vocação histórica, de estar inserida na problemática social, porque faz parte da usina do futuro de qualquer sociedade. A falta de compromisso social seria um escárnio. Mas precisa saber colocar o compromisso social dentro de seus mandatos essenciais, que são reconstruir conhecimento e educar novas gerações.
Ao discutir o lugar da extensão (2001a) Demo faz questão de frisar que a tão apregoada indissociabilidade – ensino, pesquisa, extensão – é arcaica. Prefere substituir o termo ensino por educação “evitar o instrucionismo que nos assola, e, segundo, faz pouco sentido manter a extensão como algo fora da organização curricular”. Para ele, extensão deveria ser “a alma do currículo” e estar “no centro do sistema universitário. No fundo, a extensão quer responder ao desafio da qualidade política na formação universitária (DEMO, 2001b); entretanto, adverte, “o termo é em si banal: extensão aponta para uma função acrescentada e que facilmente leva a impressão de excrescência ou resíduo. Por isso mesmo, nunca apareceu na trilogia em pé de igualdade. De longe, ensino e pesquisa posicionam-se à frente. (DEMO, 2001a).
Demo critica o abuso da extensão para aumentar a receita, o que configura os tempos de neoliberalismo. A universidade poderia obter fontes alternativas, sobretudo como resultado de suas pesquisas, haja vista que “a prática torna-se no mínimo suspeita, quando encobre a falência do Estado ou laivos neoliberais da política oficial, que sempre acarreta também insinuação privatizante” (DEMO, 2001a). Conclui que precisamos daquela extensão que “colabore no aprimoramento da formação do aluno e que contribua decisivamente no
manejo do conhecimento por parte da sociedade. Ou seja, não precisamos desta que aí está”. (DEMO, 2001a).
Nogueira, por sua vez, remete ao compromisso social da Universidade na busca da solução dos problemas mais urgentes da maioria da população e ao reconhecimento do saber popular sendo fundamental ocorrer a troca entre este e o saber acadêmico. No que tange ao financiamento da Extensão entende ser de responsabilidade governamental (NOGUEIRA, 2001, p. 67).
Sob esse viés, a Escola de Música da UFBA tanto oferece atividades gratuitas quanto pagas à população. São gratuitos os concertos e recitais, CDs produzidos pela Escola, eventos acadêmicos (seminários, palestras, master classes, festivais). Já os cursos de extensão são cobrados, com preço abaixo do mercado, porque o recurso arrecadado deveria servir para pagamento de instrutores e servidores terceirizados, reposição de materiais e equipamentos, reparos na Unidade e outras necessidades. Porém, segundo conversas informais com instrutores e coordenação do Projeto isso efetivamente não acontece. Os pagamentos estão atrasados e os materiais escassos.
Os cursos de Extensão, atualmente, estão sob a coordenação do Dr. José Maurício Vale Brandão, que também acumula as funções de vice-diretor, chefe do Departamento de Música, coordenador e regente da Orquestra Sinfônica e Madrigal da UFBA. São presenciais, pagos mediante boleto e oferecidos regularmente a cada semestre, mas também são concedidas bolsas, conforme o previsto no Art. 20 da Resolução 02/2012:
Nas ações de extensão universitária em que ocorra a cobrança de inscrição, mensalidade ou outras contribuições dos participantes, haverá a destinação de, no mínimo, 10% (dez por cento) de vagas gratuitas, a serem distribuídas através de edital de seleção, conforme critérios definidos e tornados públicos pelo Coordenador da atividade (UFBA, 2012).
Os instrutores dos cursos recebem remuneração para a realização de ações de extensão submetidos à legislação em vigor. Esta tem sido uma zona de atrito bastante delicada, pois tanto prestadores de serviços quanto alunos estão com seus salários atrasados, o que será referido nas falas das entrevistas nos próximos capítulos.