Após concluir mais uma etapa da sua formação junto ao grammaticus, com quem aprenderam preceitos das línguas grega e latina, leram textos dos mais distintos gêneros para a formação literária e fizeram exercícios com o intuito de praticar algumas teorias da oratória, o aluno está apto a prosseguir na sua formação. Antes de passar aos cuidados do rétor, os jovens exercitavam-se, com a supervisão e correção do mestre de gramática, realizando paráfrases, narrações, vitupérios entre outros exercícios (Inst. 2.1.8)129. Agora, com o rhetor, farão mais atividades por meio das quais aprenderão as lições de retórica através de tarefas que os auxiliarão a desenvolver sua eloquência. Quintiliano, no segundo livro da Institutio, dissertando acerca desses exercícios, concede-lhes especial atenção, discutindo também o modo como precisam ser realizados e corrigidos.
É oportuno salientar o que acontecia nessa etapa da educação dos jovens romanos. Segundo conta Quintiliano, antes de começar a falar sobre a educação do rétor, um problema
127 praeterea ut sint fauces integrae, id est molles ac leves, quarum vitio et frangitur et obscuratur et exasperatur et scinditur vox. Nam ut tibiae eodem spiritu accepto alium clusis alium apertis foraminibus, alium non satis purgatae alium quassae sonum reddunt, item fauces tumentes strangulant vocem, optusae obscurant, rasae exasperant, convulsae fractis sunt organis similes.
128 Ne illas quidem circa s litteram delicias hic magister feret, nec uerba in faucibus patietur audiri nec oris inanitate resonare nec, quod minime sermoni puro conueniat, simplicem uocis naturam pleniore quodam sono circumliniri, quod Graeci 1!2! + 3!$/4%)% dicunt. (Certamente o professor não irá aturar aquelas afeições da
pronúncia da letra S, e nem tolerará que palavras sejam pronunciadas com a garganta, nem ressoadas através da cavidade da boca e nem que aquilo que pertença, o menos possível, à pureza da voz seja dado à natureza simples da voz um som com maior volume, o que os gregos chamam de @"Z"#\#^"&F!B>B).
129 si rhetor prima officia operis sui non recusat, a narrationibus statim et laudandi uituperandique opusculis cura eius desideratur. “Porém, se é que ele não recusa os primeiros deveres de seu trabalho, requer-se
estava se tornando recorrente à sua época: os jovens estavam sendo retidos mais tempo que o necessário na escola do grammaticus e passando aos cuidados do rétor muito tarde. Para esse problema, Quintiliano apresenta duas razões: os rétores estavam negligenciando algumas de suas tarefas, as quais estavam sendo delegadas ao gramático, por acreditarem não ser sua responsabilidade, fazendo com que os gramáticos se ocupassem de outros assuntos (Inst. 2.1.1)130. Para ele, era preciso que o grammaticus tomasse consciência do seu lugar depois de ter transposto os limites do su trabalho (Inst. 2.1.4). Nosso rétor considerava o avanço do grammaticus nos ofícios do rétor “extremamente ridículo, parece que o menino não deve ser enviado ao mestre da declamação antes que saiba declamar” (Inst. 2.1.3)131, atitude criticada por Quintiliano ao defender que “cada professor será mais útil em seu trabalho” (Inst. 2.1.13)132.
Já Tácito, no diálogo dos oradores, ao descrever as causas da decadência da eloquência, aponta como uma delas a má educação que recebiam os jovens da época, representada sobretudo pelas escolas de retórica. Nas palavras do orador Materno, “eles um pouco antes dos tempos de Cícero, isto é certo, existiram e não agradaram aos nossos antepassados, de tal modo que, pelos censores Crasso e Domício, foram ordenados a fechar, como afirma Cícero, ‘a escola de descaramento’” (dial. 35.1)133. Quintiliano, distintamente de Tácito, não desvaloriza o sistema de ensino vigente em seu tempo, mas aponta os problemas e sugere as mudanças necessárias para que não seja corrompida a educação dos jovens romanos134.
O trabalho dos rétores, como depreendemos do discurso de Quintiliano, é extremamente fundamental na formação dos oradores. Ao enfatizar as virtudes que o bom rhetor deve ter, ele o compara a Fênix (Inst. 2.17.8)135, preceptor de Aquiles, que, conforme afirma, teria sido
130 Eius rei duplex causa est, quod et rhetores utique nostri suas partis omiserunt et grammatici alienas occupauerunt. “Isso por dois motivos: de uma parte, os retores, especialmente os nossos, abandonaram seus postos;
de outra, os gramáticos ocuparam os alheios” (tradução por nós adaptada de Falcón, 2015).
131 Ita, quod est maxime ridiculum, non ante ad declamandi magistrum mittendus uidetur puer quam declamare sciat.
132 et erit sui quisque operis magister utilior.
133 quos paulo ante Ciceronis tempora extitisse nec placuisse maioribus nostris ex eo manifestum est, quod&a&Crasso&et&Domitio&censoribus&claudere,&ut&ait&Cicero,&“ludum&impudentiae”&iussi&sunt.
134 Fortes (2014), discutindo a crise da retórica no Império Romano sob a perspectiva do Contra os Retóricos, de Sexto Empírico, expõe que tanto os discursos de Sêneca, o velho, de Tácito e de Quintiliano já
sinalizavam um declínio das práticas retóricas reduzidas, cada vez mais, aos exercícios declamatórios. De igual modo, Fortes (ibidem, p. 100) apresenta que para Sexto Empírico a retórica não era “uma técnica útil para a vida (uma Z!}B%), mas um mero artifício (@"@>Z\}B'"), argumento atribuído aos filósofos da Academia e do Liceu, mas que parece dar o tom de toda a refutação da retórica que Sexto implementa ao longo da obra”. Sexto, porta-voz do ceticismo pirrônico tardio, como destaca Fortes (ibidem, p. 101) toma a retórica como objeto de um exercício do ceticismo filosófico ao “manifestar claramente seu juízo negativo sobre a retórica, com grande vivacidade discursiva e agressividade de tom, condenando as opiniões consideradas falsas, sem qualquer espaço para dúvida”.
135 Nos porro quando coeperit huius rei doctrina non laboramus, quamquam apud Homerum et praeceptorem Phoenicem cum agendi tum etiam loquendi, et oratores plures, et omne in tribus ducibus orationis
encarregado por Peleu de ensinar o herói grego a discursar e a agir consoante as distintas situações136. Ainda quanto à importância e ao caráter dos professores de retórica, Falcón (2015, p. 10) lembra que é necessário que eles sejam moralmente irrepreensíveis, respeitados, amados e, principalmente, imitado pelos alunos. O autor ainda salienta que os rétores precisam controlar a classe e administrar as diversas idades e temperamentos, a fim de que seus alunos mantenham a moralidade em suas amizades.
Conta Suetônio (Gramm. 4) que os professores que ensinavam os elementos da gramática eram os mesmos que ensinavam os preceitos de retórica. Contudo, para Quintiliano, era necessário que o rétor se ocupasse de todos os exercícios que precedessem a narratio, sendo que os demais seriam de responsabilidade do grammaticus (fabula, as sententiae, a chria e a ethologia137). Nosso mestre de retórica, no segundo livro, ao discutir os exercícios que são de responsabilidade de ambos professores, estrutura sua discussão, como resume Falcón (ibidem, p. 8), do seguinte modo: “capítulos 1-10 (prima apud rhetorem elementa, questões pedagógicas concernentes ao professor de retórica); 11-12 (a necessidade da ars para a educação do orador); 13-21 (ipsa rhetorices substantia, questões preliminares e fundamentais sobre a arte retórica)”.
Interessa-nos, para nesta dissertação, a apresentação dos progymnásmata (exercícios preparatórios) apresentados no quarto capítulo do segundo livro: a narração (1-7), a refutação e confirmação (18-19), o encômio e a invectiva (20-21), os lugares comuns (22-23), as teses (24- 32), assim como a discussão de leis (33-40). Sobre esses exercícios preparatórios, conforme aponta Maria Dolores Martínez (1991, p. 11), em introdução à sua tradução dos textos de Teão, o termo progymnásmata apareceu pela primeira vez na Retórica de Alexandre, hoje atribuída a Anaxímenes de Lâmpsaco. Ainda segundo a autora, outros rétores escreveram obras sobre esse estágio propedêutico da retórica, contudo, apenas a quatro tratados, mais ou menos completos, temos acesso: aqueles atribuídos a Élio Teão, Hermógenes, Aftônio e Nicolau de Mira. Além
genus, et certamina quoque proposita eloquentiae inter iuuenes inuenimus, quin in caelatura clipei Achillis et lites sunt et actores. “Quanto a mim, não me importa quando o ensino começou, mas já em Yomero vemos: 1) `ênix
como um professor de ‘ações e discursos’; 2) vários outros oradores; 3) todos os gêneros de discurso nos três líderes; e 4) uma competição de eloquência entre os jovens. Além disso, processos judiciais e advogados podem ser vistos nas gravuras do escudo de Aquiles”
136 Hom. Ilíada, 9.438-443 (tradução de Frederico Lourenço, 2013)
“`oi contigo que me mandou o velho cavaleiro Peleu naquele dia em que da Ftia te mandou a Agamêmnon, criança que nada sabias da guerra maligna
nem das assembleias, onde os homens se engrandecem. Por isso ele me mandou, para que eu te ensinasse tudo, como ser orador de discursos e fazedor de façanhas”
137 Para uma discussão mais acurada quanto a origem, uso e a função de tais exercícios durante a tradição
desses tratados, entre os latinos138, encontramos inúmeras referências aos progymnásmata, principalmente em Quintiliano que concede especial atenção ao assunto. Segundo conta Falcón (ibdem, p. 11-2), a tradução latina mais conhecida para esses exercícios é oriunda de uma adaptação feita por Prisciano, do tratado de Hermógenes: praeexercitamina. Ainda é possível encontrar outros termos que se refiram aos progymnásmata: Quintiliano os nomeia como primae exercitationes (2.4.36).
Interessam-nos, de igual modo os exercícios que eram realizados após os progymnásmata, as declamationes, também conhecidas como controuersiae e suasoriae, exercícios realizados junto ao rhetor que consistia, sobretudo, em que os alunos escrevessem e apresentassem publicamente um discurso com base em uma situação-problema fictícia. Para Falcón, (ibidem, p. 9) por serem exercícios mais sofisticados e também por serem exibições públicas, as declamações atraíam muita atenção e tornaram-se o foco dos professores de retórica que, por causa delas, abandonaram o ensino dos exercícios mais simples. Nosso intuito, nas seções a seguir, é conceder a devida atenção aos progymnásmata e às declamationes a fim de verificar sua função na formação dos oradores, anotando e em que medida abarcavam recursos teatrais que nos darão suporte para discutirmos a hipótese da teatralização da oratória.